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Palavra do Bispo
A Palavra
Abril de 2017 19/04/2017
Amados filhos e filhas;
Graça e paz!

1. “Pois eis agora a Páscoa, nossa festa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas almas, com seu divino sangue nos salvou” (Precônio Pascal). Dentro em breve celebaramos a solene Vigília Pascal, mãe de todas as vigílias e profissão de fé eclesial na Ressurreição do Senhor. A beleza da liturgia que podemos contemplar na Noite Santa, fazendo ecoar aos ouvidos de nossa consciência o alto significado das orações e preces nela elevadas ao céu. Somos chamados a viver as alegrias da Páscoa, a festa dos cristãos motivada pelo Cordeiro imolado, cujo sangue nos resgatou do pecado, abrindo-nos os portões da graça abundante em Deus.
2. Salvos pelo Cordeiro divino que tira o pecado do mundo fomos marcados por sua infinita misericórdia. Misericórdia entendida como sinônimo de libertação. Libertação, por sua vez, indica o retorno da humanidade a Deus prefigurado na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Libertos, portanto, é-nos dado contemplar de novo a alegria proveniente do encontro com o Senhor. Encontro profundo, a ponto de inquietar o coração; capaz de fazê-lo arder, como outrora ocorreu aos discípulos de Emaús (Lc 24,32).
3. O mistério da Ressurreição age livre e independentemente no coração e na consciência do ser humano. Se assim não fosse, estaria condicionado ao arbítrio da criatura e se enfraqueceria seu protagonismo na transformação da história. O mistério tem força e age por si mesmo em nós! Entretanto, a liberdade com que o ser humano foi enriquecido desde as origens, o constitui partícipe da histórica novidade oferecida ao mundo na pessoa e no mistério de Jesus Ressuscitado. Sendo assim, a fé nesta verdade pressupõe a adesão ao modo de vida que dela decorre e a ela corresponde. Celebrar a Páscoa então é acolher seu significado em nossa personalidade. Páscoa é passagem, ou seja, transposição da obscura ausência de Deus rumo à comunhão vital com Ele, fonte e origem da Vida em abundância (Jo 10,10). Comunhão vital com Cristo concretizada na comunhão entre irmãos e irmãs na Igreja.
4. No tempo em que vivemos, a Páscoa do Senhor quer falar mais fundo ao coração dos cristãos. Deseja advertir-nos para o legítimo sentido da fé vivida na Igreja. Fé acreditada e professada que edifica esta mesma Igreja, Corpo de Cristo e casa dos crentes. Crer e professar, eis o duplo movimento situado à base do existir cristão. Crer é reconhecer a Deus em todo seu potencial salvífico-libertador atuando na história. Professar é tornar pública a Verdade acreditada. Portanto, a profissão de fé envolve a totalidade eclesial. Nela o “eu” individual filia-se ao “nós” da Igreja mistério de comunhão. A graça transformadora da Ressurreição se exprime e esclarece quando realmente há comunhão. Regressemos àquele primeiro dia da semana, primeiro dia da nova criação: Maria Madalena vai ao túmulo, encontra o Ressuscitado, retorna aos discípulos e diz: “vi o Senhor!” (Jo 20,18). À tarde do mesmo dia o Ressuscitado aparece aos discípulos e depois estes afirmam a Tomé, ausente durante a aparição: “vimos o Senhor” (Jo 20,25).
5. Pois bem, o “vi” da Madalena dissolve-se no “vimos” do discipulado. Crer na Igreja e com a Igreja quebra o isolamento do individualismo, sensibiliza o coração e robustece a esperança na alegria sem fim. Isso se dá porque, mediante a fé, o ser humano torna-se capaz de edificar a vida eclesial sobre Cristo, pedra angular (At 4,11). Conforme recordou Papa Francisco, dirigindo-se aos cardeais na Missa em ação de graças pelo conclave (14/03/2013): “Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor”.
6. As acertadas palavras do Papa permitem compreender a natureza essencial da Igreja, enquanto comunidade dos que confessam Jesus Cristo. Nisso consiste o elo que solidifica o Povo de Deus. Povo animado e cuidado por pastores, sucessores dos apóstolos, primeiras testemunhas da Ressurreição do Senhor, primeiros cristãos a experimentarem a indizível alegria da Páscoa. Nossa exultação torna-se ainda mais enfática, pois vivemos o “Ano Mariano”, comemoração alusiva aos 300 anos do achamento da imagem de Aparecida e os 100 anos das aparições da Virgem Maria em Fátima. Maria é símbolo da Igreja revestida da luz pascal, pois seu Coração Imaculado nos faz ver a santidade original na qual fomos criados e, perdida pelo pecado, nos foi de novo devolvida pelo Cristo triunfante sobre a morte.
7. Queridos irmãos e irmãs, como é bom viver na graça de Deus. É maravilhoso olhar para nossa vida como pessoa e como comunidade, descobrindo as marcas da redenção nela gravadas para sempre. Assim a Páscoa vai produzindo efeito na criação pela via do amor triunfante sobre o pecado e a morte. Exultante no Senhor Ressuscitado vos abraço com ternura de pai e abençoo com zelo pastor!


+ Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Março de 2017 02/03/2017
Queridos irmãos e irmãs,
Que o Senhor vos abençoe e vos dê a paz!

1. Celebrada a liturgia de Quarta-Feira de Cinzas no dia 1º de março, ingressamos no tempo da Quaresma. Desde os primeiros séculos da Igreja a celebração da Páscoa do Senhor foi preparada com intensidade pelas comunidades cristãs. Tal preparação cunhou no calendário da Igreja o tempo a que chamamos Quaresma. Desde o catecismo mais elementar, somos formados e informados acerca deste belo e fecundo momento de vivência comunitária na comunhão dos filhos de Deus. Sabemos, igualmente, que oração, jejum e caridade são o tríplice pilar sobre o qual se ergue a mística pastoral do tempo quaresmal. As liturgias, através da Palavra de Deus, dos sinais sacramentais e do próprio mistério celebrado, nos introduzem no real significado da redenção humana operada na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus feito homem por nosso amor.

2. A Igreja do Brasil, mediante seu aprofundamento teológico-pastoral nos decênios do séc. XX, criou a Campanha da Fraternidade, fazendo-a coincidir com a Quaresma. Da iniciativa isolada dos anos de 1962 e 1963 na Arquidiocese de Natal – RN, a Campanha já em 1964 impôs-se como atividade nacional. Com o intuito de chamar a atenção da Igreja para temas que envolvem a realidade concreta vivida pela nação, a Campanha da Fraternidade segue inserida no séc. XXI como espaço de reflexão, ação e formação de consciências com vistas à construção de um mundo mais humano, justo e fraterno.

3. Respondendo a uma das urgências do tempo presente, em 2017 a Campanha da Fraternidade nos propõe refletir sobre a ecologia. O tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, vem subscrito pelo lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15). À primeira vista poderíamos pensar ser este um tema de esvaziado valor teológico ou reduzida importância para a vida cristã dos crentes. Pensar assim seria desconhecer o artigo que abre a nossa profissão de fé, o Credo. Com efeito, afirmamos ao professar a fé: “Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra”. A fé cristã, conservando a herança recebida dos judeus, quis abrir sua profissão de fé com a certeza de que a criação tem Deus por fonte e origem (Gn 1-2; 2Mc 7,28). Desta consciência surgiu a compreensão teológica que liga Deus ao criado. Se Deus é criador, então a criação é o primeiro ambiente da revelação. Na criação Deus se deixa ver e reconhecer (cf. Sb 13,5). Como escrevera Santo Agostinho: “a criação é a grande metáfora de Deus”.

4. Depois, com o passar dos séculos e a maturação da teologia, já o Antigo Testamento começou a professar a fé na plenificação do criado. A literatura profética, por exemplo, ao falar do Dia do Senhor, precisará sempre que se trata de um evento marcado por ruptura e novidade. A trágica experiência do pecado redimensionou o modo de entender a própria vida, o mundo e o que ele contém. Deus, o criador, não haveria de deixar à mercê do mal e da morte a obra de suas mãos. Cientes de que Deus não cria nada para odiar, tanto Antigo quanto Novo Testamento asseguram que por vontade divina a criação, marcada pelo pecado, será um dia reconduzida à santidade original, à grande novidade há séculos prometida. Deste modo, tal como conhecemos a teologia da criação guardada na Sagrada Escritura, podemos concluir que esta se alinhava na consciência de que Deus é princípio e fim de todas as coisas. A parusia (segunda vinda de Cristo, conforme a linguagem mais elementar), não consiste na cessação catastrófica do mundo visível. Ao contrário, é exatamente a obra da criação chegada ao máximo de sua perfeição. Dito de outra forma, o ponto de chegada da história não é o fim da história. Para usar uma imagem ilustrativa, é a colocação da última pedra na obra iniciada por Deus no início dos tempos.

5. Assim entendida, a criação nos é reproposta de forma a integrar o patrimônio de nossa fé e a exigir atenção por parte da Igreja. Como obra de Deus, o mundo que nos sustenta merece ser respeitado, pois respeitando-o estaremos ao mesmo tempo manifestando que sabemos ser Deus nossa origem e nossa meta definitiva. Depois, amando a criação, não como fim em si mesma, mas na qualidade de mediação que nos une ao Criador, estaremos experimentando a dinâmica do Deus-comunhão que nos sustenta em sua providência. Quando os bispos do Brasil através da CNBB nos propõem refletir sobre a ecologia, sua intenção é que revisitemos todo o patrimônio da fé eclesial, no qual ressoam as linhas-mestras da compreensão que, como cristãos, devemos ter acerca do mundo e da vida: a criação é boa-bela, precisamos vencer abordagens dualistas e negativistas da história. Deus é criador, não viemos do acaso. A história caminha para a plenitude de Deus (cf. 1Cor 15,24-28), não para um fim catastrófico de auto-anulação. Cuidar da criação é reconhecimento ao Criador e consciência de humanidade, não apenas gesto de solidariedade ecológica.

6. Com esta breve reflexão desejo estimular a todos ao aprofundamento no tema proposto pela Campanha da Fraternidade 2017. Que a reflexão sobre a criação inserida no coração do ano litúrgico, Quaresma-Tempo Pascal, nos ajude a redescobrir a beleza da redenção que ilumina a criação inteira, não apenas o coração do homem. Saindo de nós mesmos rumo ao outro que se deixa achar no mundo, encontremos a Deus perenamente indicando o dever de “cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15). Vencendo a economia extrativista posta em ato pelo capitalismo excludente, procuremos garantir vida digna e saudável para as gerações vindouras. Isso também é obedecer ao Evangelho. Como indicação de leitura para aprofundar o tema, sugiro a Encíclica Laudato sì do Papa Francisco, sobre o cuidado da casa comum. Com os votos de fecunda Quaresma e abençoada vivência do mistério da Páscoa, despeço-me com um abraço fraterno de pai e pastor.
Fevereiro de 2017 04/02/2017
1. Queridos irmãos e irmãs, transcorrido o mês de janeiro, quando muitos de nós vivenciamos o descanso proporcionado pelas férias, chega agora o momento de retomar com afinco a vida pastoral. O ano de 2017 surge carregado de oportunidades para a missão evangelizadora. Pensando nisso, como bispo e pastor dirijo-me a vós para recordar alguns aspectos importantes à nossa reflexão na comunhão eclesial.

2. Tratando-se de 2017 nos vem logo ao pensamento a celebração do tricentenário do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida nas águas do rio Paraíba do Sul e o centenário das aparições da Virgem Maria em Fátima. Há quatro anos o Santuário Nacional de Aparecida vem preparando o Brasil para tão importante acontecimento. Fê-lo através das novenas que tiveram por tema os mistérios do Rosário. Também nosso Santuário Diocesano em Campo Mourão, unido à Igreja do Brasil, nos preparou para tal festa mediante as muitas atividades cotidianamente realizadas, com particular destaque para a festa da Padroeira no mês de outubro. Objetivando celebrar com dignidade o tricentenário, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil decidiu estabelecer o Ano Mariano. Na diocese de Campo Mourão abrimo-lo por ocasião do encerramento do Jubileu da Misericórdia, no dia 13 de novembro de 2016.

3. Profundamente identificados com a mensagem escondida sob a pequenina imagem de Aparecida, cabe-nos agora aproveitar o Ano Mariano acolhendo-o como hora da graça na qual se prolonga o espírito do Ano da Misericórdia, há pouco celebrado a convite do Papa Francisco. Com efeito, Nossa Senhora é Mãe de Misericórdia e Aquela que mais íntima e proximamente fez a experiência do Deus misericordioso. A imagem enegrecida que brota das águas barrentas do rio Paraíba do Sul traz consigo a identificação da Virgem Maria com o povo brasileiro. O barro do qual saiu a singela imagem é a mesma terra sobre a qual vivemos e é por nós pisada. Em Maria, Virgem Aparecida, colhemos a solidariedade de Deus que em todos os tempos e mediante as mais variadas formas, não se cansa de dar-se a conhecer como misericórdia.

4. Em segundo lugar, não sem relação com o Ano Mariano, recordo a Assembleia Diocesana realizada a 15 de novembro de 2016. O grupo reunido, com integrantes provenientes das várias paróquias da Diocese, apresenta-se como amostra da diversidade que compõe nossa Igreja particular. As discussões ali promovidas, as problemáticas identificadas e as inquietudes suscitadas dão provas do valor da assembleia reunida. Estimulo, pois, à revisitação do 19º Plano de Pastoral Diocesano, a fim de que num esforço conjunto, orgânico e sincrônico, as comunidades eclesiais tenham condições cada vez mais lúcidas e suficientes para o feliz desenvolvimento da missão evangelizadora. O 19º Plano de Pastoral tem muito a servir para o implemento da vida cristã diocesana.

5. Vivemos num tempo definido como “mudança de época”, conforme intuíram os bispos na V Assembleia Geral do Episcopado Latino-americano (CELAM). Novos tempos exigem novas respostas, pautadas no novo entusiasmo oriundo do retorno ao Evangelho, cuja novidade jamais se desfaz. Nessa tarefa somos assistidos pelo Espírito Santo. Daí a necessidade de constituirmo-nos cada vez mais numa Igreja “confidente do Sacrário”, isto é, Igreja ciente do valor da oração. Acerca disso é importante mencionar a reflexão do Cardeal Walter Kasper sobre o futuro da Igreja. Diz o Cardeal: “O futuro da Igreja será determinado pelos orantes e a Igreja do futuro será, sobretudo, uma Igreja de orantes”. Oração que promove comunhão, não isolamento ou tendências separatistas. Oração destinada a despertar para a consciência do dever histórico inerente ao Evangelho encarnado na cultura do presente. Alicerçada na comunhão com Deus (fé feita oração), a Igreja assumirá sua feição “hospital de campanha”, como quer Papa Francisco.

6. No mundo dilacerado em que vivemos, só o Evangelho recebido do Senhor e transmitido pela Igreja, tem o poder de salvar o ser humano. O poder redentor do Mistério Pascal comunicado no Evangelho refulge na Igreja, à medida que ela mesma se deixa redimir, tornando-se cada vez mais despojada, missionária e solidária. Essa tarefa não se reduz à estrutura hierárquica da Igreja institucional. É o desafio inerente à vida cristã na pluralidade das suas expressões. Realmente, a experiência com Jesus transforma a existência inteira. Que o Ano Mariano nos faça caminhar pelas veredas do Magnificat (Lc 1,46-55). O hino entoado por Nossa Senhora após ouvir a saudação de Isabel é um universo sustentado pela experiência com o Deus-misericórdia. Assim sendo, nos oferece muito a refletir e operar na vida cotidiana.
5. Por fim, desejo externar a cada um dos irmãos e irmãs que vivem nesta querida Diocese minha palavra de motivação e certeza de comunhão nos trabalhos de cada dia. Como outrora chamou os apóstolos e discípulos, Nosso Senhor chama-nos agora ao trabalho em sua vinha. Conscientes da vocação recebida no Batismo, deixemo-nos entusiasmar pelo Senhor e por seu Reino. Sabemos serem muitos e difíceis os empecilhos, provações e desolações provados por quem se decide servir ao Senhor (cf. Eclo 2,1). Entretanto, uma vez inserido na vida cristã, faz-se a experiência do amor-salvação que só o Senhor pode oferecer. Disso nos vem esperança e perseverança para seguir o caminho. Que nossas paróquias e pequenas comunidades prossigam firmes na missão, sem esmorecer nem negligenciar “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (Gaudium et Spes, 1). Que o Senhor nos seja propício com sua bênção e nos conserve na sua paz. Rezando por vós todos, deixo aqui meu abraço de pai e pastor, na certeza de que juntos formamos a grande família eclesial da diocese de Campo Mourão.
Dezembro 2016 e janeiro de 2017 12/12/2016
"Onde está o recém-nascido rei dos judeus?
Nós vimos a sua estrela no Oriente,
e viemos para prestar-lhe homenagem" (Mt 2,2).

1. Queridos irmãos e irmãs, com o tempo do Advento iniciamos um novo Ano Litúrgico. A espiritualidade da primeira etapa deste ano consiste na esperança sincera pela vinda do Salvador celebrada no Natal. Esperança, portanto, é a virtude que traduz o significado das quatro semanas que antecedem as solenidades natalinas. Por que esperança e não expectativa? Porque a primeira é uma das três virtudes teologais (fé, esperança e caridade). Com efeito, a preparação para o Natal quer edificar em nós a passagem da fé puramente abstrata para a fé operosa através da caridade. Nesse movimento a esperança age como via, caminho e porta do renovado crer e agir cristão.

2. Por conseguinte, a conversão aparece como sinal concreto do coração realmente sensível à oferta de vida abundante dada pelo Senhor. Converter-se consiste na mudança de vida e de atitudes. Conversão que conduz à alegria típica do Natal. Portanto, o Advento precisa ser tido por nós como tempo de profunda revisão pessoal. Abandonemos sentimentos, comportamentos e palavras que não partilham do amor e do projeto salvífico-libertador de Deus. A conversão se manifesta de diversas maneiras, porém, a mais coerente delas é a partilha oriunda da caridade sincera. Aproveitemos o Advento para exercitar a generosidade, abrir nossos “celeiros” e repartir com os necessitados.

3. No Natal celebramos o Mistério da Encarnação do Verbo Divino. Em Jesus Cristo, verdadeiro homem, o Filho eterno, verdadeiro Deus, entra na história humana para cumprir o desígnio de salvação libertando-nos do pecado e da morte que nos separavam de Deus. Consequentemente, a partir deste acontecimento, nossa fé também se transformou. A vinda de Cristo ao mundo ensinou que a fé não pode estar resumida num olhar opaco para o céu buscando encontrar o Deus distante. Em Cristo a fé converteu-se na procura constante por experimentar a presença e o mistério de Deus no cotidiano da história. De fato, Ele é o Emanuel, o Deus conosco.

4. Assim sendo, queridos irmãos e irmãs, o alcance da implicação pastoral do Mistério do Natal é infinito. Enquanto Igreja somos ensinados pelo Menino de Belém, a fim de que tenhamos coragem suficiente para ouvir os sinais dos tempos. Aplicando-nos na concretização da Nova Evangelização respaldada pela conversão pastoral do coração e das estruturas eclesiais, precisamos nos compreender segundo a mística dos pastores na noite do Natal. Eles não apenas ouviram a mensagem dos anjos, mas com pressa a atenderam. Num mundo em que tudo passa velozmente, em que os modismos superam-se a si mesmos e o individualismo relativista propaga-se qual enfermidade mortal, caminham os cristãos portadores da mensagem permanentemente válida.

5. A chegada do Deus feito homem vem mostrar que é aqui, neste contexto por vezes pouco fácil, que precisamos ser sinal do Reino. O tempo de Jesus não era diferente do nosso, pois também comportava severas ambiguidades. Todavia, verdadeiro Deus e verdadeiro homem soube questionar com voz profética as estruturas injustas e atrofiadas, oferecendo condições para que a humanidade contemplasse de modo novo a si mesma, a sua história e o seu futuro. Deste modo, a celebração do Natal não pode ser refém da pura emoção proveniente do romantismo que acaba por converter o menino Jesus numa “fábula” edificante. Celebrar o Natal é olhar para o presépio e descobrir seu significado. É concluir que sob a simplicidade das circunstâncias em meio às quais nasceu Jesus, esconde-se o grito profético de Deus destinado a tocar os ouvidos do gênero humano.

6. Durante o Advento temos tempo para percorrer o caminho de Belém. Amparados pelas liturgias, pela Palavra de Deus, pelas novenas celebradas nos pequenos grupos, somos convidados a discernir o que Deus quis dizer ao mundo no Natal de Jesus Cristo. Por conta disso a Igreja entendeu o Advento à luz da esperança. Esperança que além de ser permanente, aponta para o infinito. A expectativa é passageira, breve e de pouco comprometimento. A esperança, por sua vez, gera vínculo e compromisso. O sujeito da esperança no Advento é a comunidade dos batizados. Por isso, o “eu espero o Natal” cede lugar ao “nós esperamos o Natal”. O “nós” da Igreja confere sentido a esta espera. Quando se trata de Deus não há espaço para o egoísmo!

7. Aproximando-se, pois, a conclusão do ano civil de 2016, desejo manifestar minha inteira gratidão a todos os padres, diáconos, religiosos (as), agentes de pastoral e fiéis leigos, pelo precioso trabalho realizado nas comunidades espalhadas pela Diocese de Campo Mourão. Agradecendo-vos, faço votos para que sob o influxo do Espírito Santo derramado em Pentecostes, construamos uma Igreja cada vez mais ministerial, despojada e samaritana. Tomemos por lição o significado do presépio: no menino indefeso revelou-se a onipotência amorosa de Deus desejoso por salvar o ser humano. A sociedade continua a repetir o questionamento dos Magos: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para prestar-lhe homenagem”(Mt 2,2). Olhando para a Igreja, o mundo pode descobri-lo nela? Olhando para nossa vida cristã, o mundo pode ver ali o Menino Deus? Reflitamos sobre isso...
Que o calor proveniente da beleza natalina nos faça solidários uns para com os outros, irmanados sob a guia do único Pastor, Jesus Cristo nosso Senhor!

Com meu abraço de pai vão os votos de feliz Natal e abençoado Ano Novo!

Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão – PR

Novembro 2016 01/11/2016

Caríssimos irmãos e irmãs;

Que o amor do Cristo Jesus esteja convosco!

Chegando ao mês de novembro, dentre os temas importantes a refletir está o Advento. Após a Solenidade de Cristo Rei, este ano a ser celebrada no dia 20 de novembro, a Igreja começa sua preparação para o Natal, dando início ao tempo do Advento. Tempo marcado pela esperança na salvação oferecida por Deus e renovada cada dia na história humana. Nesse sentido, ao contemplar o Advento esperança-expectativa são duas palavras carregadas de significado. Com efeito, a esperança cristã não é sinônimo de passividade ou espera morta de nossa parte. Da esperança cristã brota a expectativa que nos inquieta na busca pela experiência com o Senhor, vindo a nosso encontro na singeleza do
Menino de Belém.

Da esperança, marca da espiritualidade do Advento, provém o caráter de novidade inerente ao Mistério do Natal. A preparação das quatro semanas é pedagógica. Em cada missa refletiremos as etapas pelas quais passou a humanidade no caminho da salvação. Tal preparação quer nos fazer celebrar o Natal não apenas como aniversário de Jesus, mas, sobretudo, como mistério que torna presente no hoje de nossa vida sua entrada no mundo como Deus conosco. Deus nos visita sempre de novo! É realmente verdadeira a palavra do Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (21,6). Sendo assim, experimentar o Advento em preparação à solenidade do Natal do Senhor é deixar-se encantar pelo novo que brota do Mistério de Deus.

O Evangelho é novidade sempre atual. Embora a civilização se vanglorie em virtude do progresso tecnológico e científico cada vez mais visível e crescente na superação dos limites, a Verdade cristã permanece inabalável, pois alicerçada no amor Divino. Nesse sentido, é eloquente a expressão de Santo Agostinho ao dirigir-se a Deus: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!” (Confissões, X,27.38). O significado do Natal nos conduz a essa mesma conclusão. No Menino de Belém o Deus Eterno, cuja existência precede a história e desconhece origem, faz-se Humano no horizonte humano. O que era desde sempre torna-se novidade para toda a Criação, agora resgatada no amor.

Para todo coração cristão, celebrar o Natal deve ser oportunidade para reconhecer o amor divino manifestado em Jesus Cristo. Ao fazer-se homem, Cristo revelou ao mundo que Deus ama com coração humano, a fim de que aprendamos a amar com o coração de Deus. Olhando para o presépio somos convidados a contemplar nosso próprio ser e existência reclinados na manjedoura, trono do Deus feito carne e, na última ceia, feito pão para a salvação de todos. Com efeito, São Francisco de Assis viu na manjedoura uma antecipação do Mistério Eucarístico enquanto receptáculo do amor de Deus pelo ser humano.

São Francisco foi o autor do primeiro presépio, organizado em 1223 no bosque de Gréccio, com personagens vivas. Segundo Tomás de Celano, seu contemporâneo e biógrafo, “no próprio lugar da manjedoura construíram um altar em honra de nosso pai São Francisco e dedicaram uma igreja, para que, onde os animais já tinham comido o feno, passassem os homens a se alimentar, para salvação do corpo e da alma, com a carne do cordeiro imaculado e santo, Jesus Cristo nosso Senhor, que se ofereceu por nós com todo o seu inefável amor e vive com o Pai e o Espírito Santo, eternamente glorioso por todos os séculos dos séculos” (Primeira Vida de São Francisco, 30,87).

Na vivência do Advento, convoco nossa Igreja diocesana à intimidade com Deus no alento do amor. Com simplicidade e generosidade, busquemos nutrição no verdadeiro pão do céu. Pão que é vida, pão que é força, pão que é o próprio Cristo Jesus, outrora reclinado na manjedoura de Belém, agora elevado sobre os nossos altares. Como Bispo e pastor desejo frutuosas celebrações natalinas a todos, mais ainda, faço votos, a fim de que reclinados junto ao Menino Deus, façamos a experiência do Bom Pastor que nos conduz às águas tranquilas e por caminhos justos (cf. Sl 22,2-3).

No dia 11 de novembro se dá o encerramento do Jubileu Extraordinário da Misericórdia em nossa Diocese. Assim sendo, este ano o Advento precisa ser vivido no embalo da experiência com a misericórdia de Deus. Aliás, a esperança situada à base da mística do tempo do Advento só adquire sentido e maturidade se vivida como expressão da misericórdia de Deus que nos quer salvar. Que o fim do Jubileu da Misericórdia marque o princípio de tempos novos para cada batizado que vive na amada terra da Diocese de Campo Mourão.

Durante o tempo do Advento somos convidados à ação misericordiosa e, sobretudo, à experiência com o Deus misericordioso. O Mistério da Encarnação celebrado no Natal é sinal sem contradição a atestar o “Emanuel”, Deus conosco. De fato, a misericórdia é uma das formas pelas quais o Senhor se faz presente em nossa vida e na vida da Igreja. Dediquemo-nos por viver o Advento em comunidade, celebrando-o na liturgia e refletindo-o nos pequenos grupos de novena de Natal.

No calor da pequena comunidade repetimos o ocorrido na noite do nascimento de Jesus. Com efeito, na gruta de Belém se reuniu diante de Deus feito homem a pequena comunidade formada por Maria, José e os pastores. Em cada paróquia reúnem-se, ao redor do Cristo Palavra, as pequenas comunidades dos batizados, desejosos pela libertação que só o Senhor pode oferecer.

Com um abraço fraterno de Bispo e pastor, desejo fecunda vivência do Advento a todos os irmãos e irmãs diocesanos, invocando sobre vós a bênção de Deus em abundância.



Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Outubro de 2016 01/10/2016
Queridos irmãos e irmãs,
Graça e paz!

1. Ingressando no mês de outubro temos vários temas para refletir no seio da comunidade eclesial. Outubro é o mês do Rosário, é o mês de Nossa Senhora Aparecida, é o mês missionário. É sobre este último tema que desejo desenvolver minha reflexão nesta edição do Jornal servindo. Em 1975, Papa Paulo VI promulgou a Carta Apostólica Evangelii Nuntiandi, como síntese do sínodo dos Bispos celebrado no ano anterior. Este documento tornou-se a Carta Magna da Evangelização. Em suas linhas se encontra a seguinte afirmação: “A tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja” (Evangelii Nuntiandi, 14).

2. Desta tarefa essencial advém todas as demais atividades eclesiais e expressões de fé da Igreja. Cristo é o evangelizador por excelência, o Verbo encarnado que nos traz a salvação. A partir dele, fundamento sólido, a Igreja caminha na história comunicando o mistério de salvação a todos os homens através do anúncio do Evangelho, da vivência sacramental e da fé agindo pela caridade.

3. “Evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma” (Evangelii Nuntiandi, 15). Do caráter essencial da missão evangelizadora, brota a necessidade de a Igreja partir de si mesma na tarefa de evangelizar. Com efeito, inserida no mundo, a Igreja necessita de constante retorno ao princípio fontal da sua vocação, Jesus Cristo e seu Mistério Pascal, a fim de jamais negligenciar sua identidade e natureza mais íntimas. Recentemente, inspirado na releitura da Carta Apostólica Evangelii Nuntiandi, Papa Francisco ofereceu ao mundo a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

4. Confirmando a necessidade de a Igreja olhar sempre para si mesma no anúncio missionário, Papa Francisco oferece instrumentais importantes à real situação do mundo atual e sua relação com o anúncio do Evangelho. Conforme sua pedagogia, parte do seguinte pressuposto: “O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros” (Evangelii Gaudium, 9). Pois bem, no coração da Igreja o ato de levar Cristo aos outros é obra boa, ato de bondade. É, igualmente, caminho de liberdade.

5. Na missão evangelizadora, a Igreja prossegue com vitalidade o projeto de Jesus no início do seu ministério público, segundo o relato de São Lucas: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para por em liberdade os cativos, para proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Nas pegadas de Jesus, a missão evangelizadora da Igreja toca o ser humano por inteiro. Daí a preocupação eclesial, a fim de que todos tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10,10).

6. Além de reflexão intensa e séria, a evangelização na Igreja se consolida em realidades concretas. Tomo como exemplo a missão católica em Guiné Bissau, na África. A Igreja do Paraná, em espírito de colaboração missionária, auxilia na missão católica estabelecida na Diocese de Bafatá, onde é Bispo Dom Pedro Zili, brasileiro e desde muitos anos dedicado à missão além-fronteira. Agora temos a alegria de enviar o primeiro sacerdote paranaense para o trabalho pastoral nessa missão. Trata-se do Pe. Ivan Luiz Walter, membro do nosso clero e atualmente vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora das Graças, em Engenheiro Beltrão. No último dia 18 de setembro Pe. Ivan foi enviado à missão durante missa na Catedral São José. No dia 27 de setembro, viajou para Guiné Bissau, dando início a sua experiência missionária.

7. A missão católica em Guiné destaca-se não apenas pelo anúncio de Cristo, mas também pelas iniciativas humanitárias (escola, hospital, conscientização sanitária...). Mediante o compromisso dos missionários, a Palavra do Pai continua a encarnar-se na vida de tantas pessoas, muitas delas marginalizadas e aquém de toda dignidade. Como Igreja diocesana precisamos nos alegrar e agradecer a Deus pela coragem do nosso irmão Pe. Ivan. Deixar sua terra, os seus, seus costumes e seguranças, a fim de levar o calor do Evangelho numa realidade de todo diversa da nossa. Que seu testemunho desperte muitas vocações missionárias e faça crescer o nome Cristo nos corações humanos, levando-os assim à alegria da salvação. Concluo com o belo pensamento do Documento de Aparecida: “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (nº 29).

Com meu abraço, deixo aqui minha súplica de bênção e felicidade sobre toda nossa família diocesana.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Setembro 2016 02/09/2016
Queridos irmãos e irmãs,
Bendito seja Deus para sempre!

Novamente falando à nossa comunidade diocesana através do Jornal Servindo, desejo tecer algumas considerações sobre a importância da Palavra de Deus, pois setembro é, costumeiramente conhecido como “mês da Bíblia”. Isso se deve ao fato de a memória litúrgica de São Jerônimo ocorrer no dia 30 de setembro. Este ilustre Doutor da Igreja, cuidadoso estudioso das Escrituras na passagem do IV para o V século, foi proclamado doutor da Igreja pelo Papa Bonifácio VIII em 1298.

A Palavra divina é prova do amor inesgotável de Deus que, falando ao ser humano em linguagem acessível, deseja lhe comunicar a abundância da sua vida e do seu plano salvífico-libertador. Assim sendo, ela só se faz realmente experimentar quando acolhida no plano do diálogo. Deus fala e o homem é chamado a ouvir. Ouvir, não simplesmente do ponto de vista do raciocínio, que busca entender. Ouvir segundo a dinâmica da experiência proveniente da fé movida pela graça que só Deus pode dar.

Pensando nisso, São Boaventura escreveu: “É impossível a alguém propor-se conhecer a Sagrada Escritura antes de receber a fé em Cristo em si, infundida como lâmpada, porta e mesmo fundamento de toda ela” (Breviloquium, 5,201). Ter fé é o critério fundamental para o sadio relacionamento com a mensagem divina presente na Escritura. A fé, por sua origem sobrenatural, permite-nos transpor o limite da superficialidade, penetrando o sentido íntimo de cada vocábulo e expressão do texto sagrado.

É também a fé que nos possibilita alargar os horizontes, concluindo que a Palavra de Deus ultrapassa a “letra”, trazendo consigo a linguagem de Deus compreensível aos corações sensíveis e às consciências despertas à verdade. A isso a Igreja chama Tradição, ou seja, Deus falou plenamente no Mistério do seu Filho, encarnado, morto e ressuscitado para a salvação do mundo. Deus ofereceu sua Revelação às testemunhas oculares do evento Jesus Cristo. Estes, por sua vez, anunciaram o que viram e ouviram (cf. 1Jo 1,1). Paralelamente ao anúncio surgiram os escritos do Novo Testamento. O texto escrito, porém, não pode ser absolutizado como único modo de Deus falar.

Tal absolutização conflui no fundamentalismo, erro fatal que “evita a íntima ligação do divino e do humano nas relações com Deus” (Verbum Domini, 44). Em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, essa ligação negada pelo fundamentalismo passou a ser critério de autenticidade para a vida de fé. Ciente da necessidade de acolher a mensagem divina em plenitude, Paulo exortou aos tessalonicenses: “portanto, irmãos, ficai firmes; guardai as tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito” (2Ts 2,15).

Apoiada nesta afinada reflexão do Apóstolo, a Igreja reconhece na Sagrada Escritura a fonte primeira da Revelação. Entretanto, acolhe também como constitutivo da fé eclesial a mensagem revelada na Tradição oral transmitida desde os primeiros séculos, e na reflexão do Magistério dos papas em comunhão com o Colégio dos Bispos, sucessores dos apóstolos. Assistida pelo Espírito Santo, a Igreja não se cansa de explorar a Escritura, trazendo à luz aquilo que nela se encontra veladamente. Deste modo, os diversos aspectos da sua doutrina não são invenção da Instituição. São, na verdade, produto deste trabalho de perícia nas Escrituras Sagradas sob a força e guia do Espírito Santo.

Setembro é celebrado como “mês da Bíblia”. Busquemos, pois, ouvir mais atentamente o que Deus nos quer falar através da sua Palavra e do seu agir na história humana. Dóceis ao Espírito de sabedoria, sejamos sensíveis, aptos a transpor o véu da letra e nos convencer do grande amor divino escondido sob cada palavra, texto e expressão da Escritura.

Nossa Diocese tem crescido na procura por conhecer e experimentar os efeitos da Palavra de Deus. No 2º sábado de cada mês, nos diversos decanatos, lideranças se reúnem na Escola Bíblica para refletir sobre o Evangelho de Lucas, tema dos encontros das pequenas comunidades eclesiais em 2016. Nas pequenas comunidades continua viva a prática da Igreja nascente, segundo a qual os cristãos de cada cidade costumavam se reunir para ouvir a Palavra e repartir o pão consagrado, fazendo memória do Senhor, morto e ressuscitado. Formando-nos na escola da Palavra divina permitamos que Cristo se forme em nós, pois ignorar as Escrituras e ignorar a Cristo (São Jerônimo, Prólogo ao Comentário de Isaías).

Sob a intercessão da Virgem Maria, de São José e de São Jerônimo, invoco sobre vós a bênção de Deus em abundância.
Com meu abraço fraterno de Bispo e Pastor.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Agosto de 2016 01/08/2016
Estimados irmãos e irmãs;
A paz esteja convosco!

1. Chegado o mês de agosto proponho-me vos falar sobre a Assunção de Maria, uma das verdades (dogmas) da fé cristã e católica. Acerca de Maria são quatro as verdades contidas em nosso credo, também celebradas na liturgia. No Natal comemoramos o nascimento humano de Jesus Cristo, Deus feito homem. Professa nossa fé que Maria conservou intacta virgindade ao dar à luz o Autor da vida. A virgindade antes, durante e depois do parto surge como consequência de prerrogativa ainda maior, isto é, da graça de ser Mãe de Deus, mistério celebrado a 1º de janeiro. Os outros dois dogmas marianos são a Imaculada Conceição, comemorado a 8 de dezembro e a Assunção corpórea de Maria ao céu, festejada a 15 de agosto.

2. Pio XII proclamou o dogma da Assunção no dia 1º de novembro de 1950, solenidade de todos os Santos. Se a proclamação do dogma é recente, a devoção a Nossa Senhora Assunta integra a piedade popular desde os primórdios da Igreja. Nos primeiros séculos celebrava-se a “dormição” de Maria, cercada de muitas lendas, algumas até com cunho evidentemente herético. Entretanto, nenhuma dessas celebrações separava Maria de seu Filho glorioso. A celebração chamava-se também “Trânsito de Maria”, e já então divergiam as opiniões sobre a morte ou não morte da Mãe de Jesus. Essas celebrações eram cercadas de muito carinho, sobretudo numa fértil e impressionante imaginação sobre os modos como Jesus teria vindo buscar sua Mãe e quem vinha em companhia dele para levar Maria aos céus. Forte foi o papel popular na elaboração da primeira compreensão da Assunção de Maria ao céu.

3. Já no século V temos documentos da festa da Assunção no dia 15 de agosto, sempre enumerada junto com as festas marianas da Natividade, da Apresentação, da Anunciação e da Purificação de Maria. Por ocasião destas comemorações, os Santos Padres pronunciavam suas homilias marianas, fixando assim, através dos séculos, uma doutrina teológica que, seguramente, foi sustentada, alimentada e celebrada pela piedade popular. Papa Pio XII, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus (Deus generosíssimo) para a declaração do dogma, lembra que “nas homilias e orações para o povo na festa da Assunção da Mãe de Deus, os Santos Padres e os grandes doutores falavam de uma festa já conhecida e aceita. Com a maior clareza a expuseram; apresentaram seu sentido e conteúdo com profundas razões, colocando especialmente em plena luz o que a festa tem em vista: não apenas que o corpo morto da Santa Virgem Maria não sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela alcançou sobre a morte e a sua celeste glorificação, a exemplo de seu Unigênito Jesus Cristo”.

4. Um desses Santos Padres, sempre citado, inclusive pelo próprio Papa Pio XII, é São João Damasceno (650-750). É dele o famoso texto: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda a corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda a criatura como mãe e serva de Deus”.

5. De tudo o que até o presente se disse e se escreveu sobre a Assunção de Maria ao céu, podemos extrair orientações precisas para nossa vida cristã. Em primeiro lugar a Assunção como coroamento da luminosa vida da Mãe de Deus. Com efeito, na assunção contemplamos Maria admitida à glória do céu. Glória reservada a todos os que pertencem a Cristo (cf. Gl 5,24). A esperança da ressurreição final, plenitude da existência humana e cristã, aparece já cumprida em Maria. Dito de forma muito simples, podemos afirmar que Maria já passou pela ressurreição que nos aguarda. Como criatura, coparticipante da nossa humanidade, Maria foi ressuscitada por Deus, assim como nós cremos ser no dia da eternidade. De fato, no Credo dizemos crer na ressurreição da carne.

6. Depois, precisamos ver neste mistério o sinal do amor divino chamando-nos ao significado da união com Cristo. A assunção é coroamento da vida de Maria intimamente unida ao Filho. Na união com Cristo está a razão da nossa esperança. Esperança futura que transforma o presente. Conservando o olhar em Deus, Maria fez-se terreno fértil à ação da Graça. Antes de ser assunta no corpo, Maria se elevou no coração. Seu modo de experimentar a existência humana nos dá perfeita descrição do convite feito em cada celebração eucarística: “Corações ao alto!” Com o coração elevado na sintonia que promove comunhão plena com a vontade de Deus, Maria se mostra pedagoga do gênero humano, também vocacionado a seguir a verdade e crescer em tudo naquele que é sua cabeça, Cristo, o Senhor (cf. Ef 4,15).

7. Por fim, cumpre notar que o Concílio Vaticano II desenvolveu o aspecto eclesiológico e escatológico deste dogma. A glorificação de Maria torna-se sinal para todo o povo de Deus a caminho. Povo sustentado pela segurança e pela esperança de que a promessa de “vida nova” em “novos céus e nova terra” irá se realizar como já se realizou em Maria. A Assunção de Maria é apresentada como estímulo e ponto de referência para todos nós que caminhamos rumo à perfeição em Deus. “Assim como no céu, onde já está glorificada em corpo e alma, a Mãe de Deus representa e inaugura a Igreja na sua consumação no século futuro, da mesma forma nesta terra, enquanto aguardamos a vinda do Dia do Senhor, ela brilha como sinal da esperança segura e consolação diante do Povo de Deus em peregrinação” (Lumen Gentium, 68). Com alegria celebremos a solenidade da Assunção de Maria, no Brasil, transferida para o domingo, 21 de agosto.

Que por sua intercessão perseveremos na esperança e cresçamos na caridade. Por suas preces todo o povo fiel de nossa Diocese seja abundantemente abençoado por Deus.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Julho 2016 01/07/2016
“A misericórdia do Senhor é minha alegria!”


1. Queridos irmãos e irmãs, após termos celebrado as liturgias do mês de junho, as tradicionais confraternizações juninas e os atos devocionais ao redor de Santo Antônio, São João Batista e São Pedro, prosseguimos nossa caminhada eclesial diocesana. Neste mês de julho, quero falar-vos de maneira especial sobre o sacerdócio ministerial. No dia 3 cumpre-se o 40º aniversário da minha ordenação sacerdotal. Por isso, aproveito esse espaço de comunicação para partilhar convosco parte das reflexões que tenho feito ultimamente.

2. Em primeiro lugar, destaco o aspecto da eleição inerente ao ministério sacerdotal. Com efeito, ninguém pode dar a si mesmo a vocação. Esta é sempre iniciativa de Deus em favor do seu povo, da sua Igreja. Ao coração humano compete responder ao convite divino. Convite nem sempre de fácil compreensão, pois Deus tem sua linguagem, seu tempo, sua dinâmica e seus caminhos. Deus nos desafia à coragem de confiar-se a Ele, permitindo ao coração ser sensível aos sinais mediante os quais se revela.

3. A eleição transformada em chamado exige resposta. Analisando nossa vida, concluímos que responder à proposta de Deus exige que nos desinstalemos das seguranças humanas. Prevê o redimensionamento de numerosos aspectos, tanto interiores quanto exteriores. Responder a Deus promove páscoa, isto é, passagem. O ingresso no sacerdócio ministerial traz consigo essa dinâmica. Nele o homem precisa passar do seu “eu” para o “Tu” do Sumo e Eterno Sacerdote, Jesus Cristo, nosso Senhor. Como, por vezes, é difícil responder “sim” ao chamado divino. A pluralidade das opções e oportunidades que se nos apresentam podem opacar a nítida beleza da total consagração à causa do Reino.

4. Quando respondemos positivamente ao convite do Mestre para o seguimento, somos colocados em favor do seu povo. Somos estabelecidos como operários enviados a trabalhar para o bem do seu corpo, isto é, da Igreja, da qual Cristo é a cabeça (cf. Ef 5,23). Trata-se da radicação decisivamente comunitária do ministério sacerdotal. Embora ocupemos funções várias no decorrer da vida, é no contato com o povo que o sacerdote percebe ser esculpida em si a autêntica imagem do pastor. Sem isso, não conseguiríamos experimentar com propriedade, e em plenitude, a razão do ministério para o qual fomos ordenados e enviados.

5. Formar comunidade com o Povo de Deus é atualizar a pedagogia ministerial de Jesus. Durante sua vida pública, Nosso Senhor mostrou-se elo através do qual se efetivou a comunhão entre Deus e os homens. O sacerdote, por sua missão de santificar ao conferir os sacramentos, vê operado cada dia aquilo que, por primeiro Jesus fez. Desta condição de ministro de Cristo, o Santificador por excelência, advém a grave exigência do cultivo da amizade com Ele. Estreitar a relação com o Senhor é condição fundamental para a perseverança. Ao empenho nas iniciativas pastorais inerentes ao exercício do ministério, deve corresponder a incansável procura por permanecer na presença do Senhor.

6. Como Moisés diante da sarça ardente (cf. Ex 3), desprovido do apego às seguranças humanas, o padre precisa entregar-se à contemplação do amor de Deus, e descobrir nele o ambiente no qual seu coração encontre descanso. Sem o estreito vínculo de amizade com o Senhor o apostolado se esvazia. Deixa de ser serviço para se transformar em funcionalismo. Perde seu caráter vocacional, reduzindo-se a ofício empobrecido pela arbitrariedade humana, que impede o alcance infinito da vocação genuinamente vivida na graça, na gratuidade, na sinceridade e na verdade.

7. Após 40 anos de ministério, reconheço o papel central exercido pela vida interior (amizade com Cristo), sobre o processo de maturidade vocacional e fidelidade sacerdotal. A experiência com o Senhor nos garante sermos conduzidos no ministério sem perder o caráter de novidade próprio às coisas de Deus. Por mais que nos aprofundemos, que avancemos nos anos e na disciplina espiritual, Deus sempre nos surpreende. O padre é cotidianamente interpelado pela novidade de Deus. E aqui regressamos à radicação comunitária do ministério anteriormente ressaltada. O povo é o “lugar teológico” sobre o qual desponta a novidade de Deus para os chamados a seu serviço.

8. Assim como ele nos chama, igualmente se revela de modo contínuo. Assim como nos é pedido responder a seu chamado, também nos compete a bela e venturosa tarefa de descobrir e nos nutrir em sua incansável novidade. Estimados irmãos e irmãs, com estas reflexões não quis apresentar a teologia do sacerdócio, nem tampouco descrevê-lo em pormenores. Minha intenção foi, antes de tudo, elevar meu hino de ação de graças ao Senhor que me chamou, enviou e me fez perseverar na beleza deste caminho. Depois, desejei partilhar com a grande família da Diocese de Campo Mourão, minha família, parte dos sentimentos e pensamentos que me ocupam nestes dias, nos quais recordo aquele 3 de julho de 1976.

9. As memórias daquele dia se conservam intocadas nas galerias de minha consciência e coração. Sob estas palavras repousa a gratidão a todos os que, de forma ou outra, fizeram e fazem parte de minha caminhada como pessoa e como sacerdote. Que Deus os recompense abundantemente. Que o sacerdócio ministerial vivido em santidade por tantos homens no passado e no presente, continue atuante no mundo através do sim generoso dos vocacionados de hoje. Desponte em nossa Diocese e no Brasil uma intensa e prolongada primavera vocacional. Para isso rezemos ao dono da Messe, para que envie operários à sua Messe (cf. Mt 9,38).

Com meu abraço amigo, vai a prece de bênção sobre todos vós e vossas famílias!

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão


Junho de 2016 01/06/2016
1. Queridos irmãos e irmãs, chegou o mês de junho, tradicionalmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus e às festas populares de Santo Antonio, de São João Batista e de São Pedro. Manifestações devocionais caras à espiritualidade popular que alimentam nossa caminhada eclesial. Neste ano, Jubileu da Misericórdia, o mês de junho se apresenta com significado ainda mais especial. Com efeito, coloca a Igreja do mundo inteiro na feliz expectativa da XXXI Jornada Mundial da Juventude. O evento acontecerá em Cracóvia, capital polonesa, entre os dias 25 e 31 de julho.

2. Escolhido pelo Papa Francisco, o lema da XXXI Jornada Mundial consiste na quinta bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7). Já pelo lema escolhido, podemos compreender que é desejo do Papa inserir a Jornada no contexto mais largo do Jubileu Extraordinário. Quer, portanto, falar aos jovens de modo a apresentar o coração do Mistério de Deus, que é a misericórdia.

3. Nas pegadas do Concílio Vaticano II, o pontificado de João Paulo II marcou retorno todo especial ao tema e à vida juvenil. Em 1986, João Paulo II convocou os jovens de Roma para uma jornada em nível diocesano. No ano seguinte, 1987, reuniu-se com os jovens em Buenos Aires, alargando o alcance do encontro, que de caráter diocesano, foi gradualmente assumindo proporção mundial. Bento XVI prosseguiu com o horizonte aberto pelo predecessor. O mesmo tem feito Francisco, cuja primeira viagem internacional se deu por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em julho de 2013.

4. Em 2016, além do tema ecoar a mística do Jubileu Extraordinário, os patronos escolhidos confirmam o lugar central a ser ocupado pela misericórdia na experiência de fé vivida por cada cristão. Confiado a Jesus Misericordioso, o evento tem como patronos São João Paulo II e Santa Faustina Kowalska. Faustina, religiosa polonesa, cuja experiência mística despertou o mundo para o culto e a vivência da misericórdia divina. João Paulo II, Papa que acolhendo o testemunho dado por Faustina, instituiu a festa anual da Misericórdia Divina para o 2º domingo da Páscoa. Além disso, publicou em 30 de novembro de 1980 a Carta Encíclica Dives in Misericordia (Rico em Misericórdia), sobre o tema, reflexão de valor inestimável.

5. Considerando a situação concreta da juventude hoje, o significado da Jornada Mundial apresenta-se como fecundo ambiente de evangelização. Nela se dá o encontro entre Tradição e futuro. É muito bonito ver o Papa, sinal de unidade eclesial e representante da grande Tradição da fé, encontrando-se com as novas gerações. Novas gerações que sinalizam o prolongamento do Evangelho na história que caminha guiada por Deus.

6. Negligenciar a missão evangelizadora junto aos jovens é fazer-se réu do presente, como se o amanhã não fosse perspectiva real. A Igreja está no mundo, vive o presente sem perder a capacidade de projetar-se para amanhã na força da esperança que não decepciona (cf. Rm 5,5). Consciente disso, nossa Igreja diocesana estabeleceu a juventude como prioridade da ação evangelizadora, ao lado de família e catequese. Assim dispõe o 19º Plano da Ação Evangelizadora.

7. Cada Paróquia tem feito sua parte neste trabalho, contando com o apoio do Setor Juventude, organismo diocesano destinado ao trabalho juvenil. Muito foi feito desde a publicação do 19º Plano da Ação Evangelizadora em 2010. Entretanto, reconhecemos ainda muito a fazer, pois juventude é sinônimo de dinamicidade e contínua mudança. Se queremos ser Igreja em seu meio, precisamos ter coragem de ousar na busca de novas linguagens, modalidades e ambientes vivenciais para atingi-los e atraí-los à alegria do Evangelho.

8. Como Igreja de Jesus Cristo, precisamos conduzir as novas gerações à experiência profunda com o Senhor. Não se trata de promover a fé circunstancial, de momento. Cabe-nos sim colocá-las ante o caminho capaz de transformar a vida na pluralidade das suas dimensões. Vivendo bem a fé recebida no Batismo, seremos capazes de apresentar Cristo em toda sua beleza e jovialidade. Cristo que é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8). A Diocese de Campo Mourão estará presente em Cracóvia na pessoa dos jovens que para isso estão se organizando desde há muito tempo. Que sua presença lá seja encarada como momento de peregrinação rumo ao Senhor, em companhia da Igreja manifestada na pluralidade das raças e línguas.

9. Cresça no coração dos jovens peregrinos a verdade de Pentecostes, onde a mensagem cristã aparece como promotora de unidade na diversidade do mundo e das culturas. Bebendo na fonte que é Cristo, retornem às suas paróquias e Diocese com entusiasmo renovado, ânimo corajoso e coração cada vez mais dócil a Deus e ao compromisso que a fé implica. Convido-vos, meus irmãos e irmãs, a rezarmos pelos jovens que estarão em Cracóvia. Rezemos também por toda a juventude, para que caminhando na luz provem a vida abundante trazida por Cristo (cf. Jo 10,10).

Por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem peregrina passa por nossas paróquias, e de São José, desça sobre cada um de vós a bênção do Deus rico em misericórdia!
Maio de 2016 02/05/2016
Caríssimos irmãos e irmãs,

Graça e paz!

1. Caminhando para a conclusão do tempo pascal, aproximamo-nos da festa de Pentecostes, este ano a 15 de maio. É assistida pelo Espírito Santo que a Igreja caminha pelos tempos, conservando-se a mesma Igreja de Jesus Cristo. Os Atos dos Apóstolos situam o Espírito Santo à base da missão evangelizadora eclesial. Na sua força a Palavra cresce, e o número dos discípulos do Ressuscitado se multiplica. Entre os dias 6 e 15 de abril, o episcopado brasileiro esteve reunido em assembleia geral. A 54ª Assembleia Geral da CNBB teve lugar em Aparecida, nas dependências do Santuário Nacional, sob o olhar da Mãe de Deus.

2. Como os apóstolos outrora, os bispos buscaram contemplar a situação da Igreja e do país de forma colegial, e como homens de fé. Por isso, toda a Assembleia transcorreu em ritmo orante, através da Santa Missa diária, da Liturgia das Horas e das orações feitas em momentos vários. Além da pauta oficial, a reunião foi oportunidade para dar vida à fraternidade entre os bispos. Deste modo, pudemos partilhar experiências e por em comum o dia a dia das Igrejas particulares.

3. Por tratar-se da Assembleia Geral, esta foi participada pelos Bispos titulares, auxiliares, eméritos, pelos Bispos eleitos ainda não ordenados. Também tomaram parte dela, os assessores dos diversos departamentos da CNBB e os secretários executivos de todos os regionais da Conferência Episcopal. O senhor Núncio Apostólico, Dom Giovanni d’Aniello, esteve presente, disponível para ouvir os Bispos individualmente.

4. Dentre os muitos assuntos tratados, destaca-se o documento sobre o laicato na Igreja. Apresentado e discutido em assembleias anteriores, após emendas e novas redações, o documento aprovado tem por nome: Cristãos leigos e leigas, sujeitos na Igreja e na sociedade. A aprovação do documento vai de encontro com os apelos do Papa Francisco. Aliás, o texto aprovado está permeado por citações do Papa, todas elas marcadas pela eclesiologia de comunhão enfatizada pelo Concílio Vaticano II.

5. Aspecto a destacar consiste na afirmação do cristão leigo como sujeito eclesial. Sujeito eclesial é expressão usada pelo Documento de Aparecida (nº 497), para definir a presença dos leigos na Igreja. Nas pegadas da Constituição Lumen Gentium e do Decreto Apostolicam Actuositatem, o documento vem motivar o laicato ao protagonismo na missão evangelizadora da Igreja. Consciente da complexidade desse processo reconhece-se necessária sua construção. É imperioso superar três tendências perigosas: clericalismo, individualismo (fechamento em si mesmo) e comunitarismo (fechamento em grupos).

6. O pressuposto do leigo como sujeito eclesial perpassa as três partes do documento. A primeira parte apresenta o marco histórico atual, situando o cristão na conjuntura atual, cada vez mais instável. A segunda parte fala propriamente sobre o sujeito eclesial, destacando-o como cidadão e discípulo missionário. A condição social de cidadão precisa estar a serviço do discipulado missionário. Caso contrário, a própria identidade cristã fica comprometida, e à mercê de prejuízos para a comunidade na qual o sujeito está inserido.

7. A terceira parte, por sua vez, refere-se à ação transformadora na Igreja e no mundo. Como fermento na massa, o laicato é chamado a agir no interior da Igreja, fazendo-a cada vez mais fiel à sua origem e identidade. Tem, igualmente, a tarefa de, a partir da Igreja, transformar o mundo que o cerca. Aqui é necessário olhar para o âmbito interno e externo: Igreja em si mesma e Igreja no mundo. Aprovado após cuidadosas discussões e correções, o texto apresenta-se como novo instrumento de trabalho para pensar a ação da Igreja hoje. Que nossa Diocese aproveite-o como profícua oportunidade para aprofundar-se ainda mais na compreensão de sua missão evangelizadora.

8. Os bispos refletiram também sobre a atual conjuntura política do Brasil. Com entusiasmo destaco o jubileu pelos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (1717-2017). A Igreja do Brasil está realmente se mobilizando em belas manifestações de fé e devoção. Isso se dá através da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida. A partir de primeiro de maio, nossa Diocese ingressa na grande multidão dos que a proclamam Bem Aventurada, porque contemplam nela sinal da misericórdia de Deus que nos salva em Jesus. Como outrora a Isabel, Nossa Senhora nos visita trazendo-nos Jesus Cristo, autor e consumador da nossa fé (cf. Hb 12,2).

9. Espero ver o laicato da Diocese de Campo Mourão cada vez mais consciente da sua condição de sujeito eclesial. Atentos aos apelos do Espírito Santo, sejamos disponíveis ao Evangelho. Ao celebrar a Solenidade de Pentecostes, imploremos ao Senhor a graça do entusiasmo pela missão e da coragem para vivê-la com autenticidade, constância e decisão. Unido a cada um de vós, caríssimos irmãos e irmãs, desejo ver nossa Igreja Diocesana prosperar na sensibilidade e no compromisso com a transformação da sociedade. Que nossa Igreja esteja disposta a transformar-se sempre, para que jamais deixe de ser a mesma Igreja de Jesus Cristo. Que ela se desapegue de todo empecilho e de toda mudez. Seja Igreja livre na caridade como o Bom Samaritano, profética como João Batista, testemunha como os mártires que deram a vida por Cristo. Atitudes que farão dela precursora d’Aquele que é o mesmo ontem, hoje e sempre, Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Suplicando a bênção de Deus, desejo fecunda vivência do Pentecostes. Com meu abraço amigo!

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Abril 2016 04/04/2016
Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida!
Viva a Virgem Imaculada, a Senhora Aparecida!

1. Queridos irmãos e irmãs, no próximo dia 1º de maio receberemos a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil. A visita prolongar-se-á até dia 31 do mesmo mês, festa litúrgica da Visitação de Nossa Senhora. Seu objetivo é preparar o aniversário dos 300 anos do encontro da imagem original nas águas do Rio Paraíba do Sul, a 12 de outubro de 1717. Acolhendo a proposta do Santuário Nacional de Aparecida, confirmada pelos Bispos do Brasil, também nossa Diocese tem a grata alegria de receber a réplica da verdadeira imagem de Nossa Senhora Aparecida, trazida do Santuário Nacional.

2. Na Diocese ela peregrinará por todas as paróquias, dando ênfase e vida ao valor da devoção mariana como parte integrante da espiritualidade católica. Sabemos, pela história, que os fatos relativos ao acontecimento de Aparecida se mesclam com o percurso trilhado pelas minorias do povo brasileiro, particularmente negros e pobres. Com efeito, desde o primeiro momento o povo fiel viu algo de diverso na pequena imagem encontrada nas águas barrentas do Rio Paraíba. Os olhos da fé contemplaram nela o socorro materno da Mãe de Deus que, compadecida com a dor dos filhos e filhas, vem em negra cor chamar atenção para a igual dignidade das raças, e para o direito de cada povo à vida abundante. Nesse sentido, Maria faz-se anunciadora da mensagem por primeiro proclamada por seu divino Filho, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).

3. O coração desta mensagem reluzente no acontecimento de Aparecida, aprendemo-lo no alto do Calvário. Segundo o evangelista João, Maria estava aos pés da cruz junto às outras mulheres e ao discípulo amado. Descrevendo essa cena, o evangelista pormenoriza: “Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis teu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’ A partir daquela hora o discípulo a acolheu no que era seu” (Jo 19,26-27). De acordo com o Evangelho de João este foi o último ato de Jesus antes de morrer. Maria, portanto, está presente na hora suprema na qual o Filho feito homem realiza plenamente o projeto salvífico-libertador do Pai na força do Espírito Santo.

4. Convém questionar, porém, de que modo Maria se faz presente nesta hora extremada, coração do Mistério Pascal. Em primeiro lugar aparece sua condição materna. João diz que Jesus viu sua mãe, destacando o dom da sua divina maternidade. Desde os primórdios da Igreja os cristãos honraram a maternidade de Maria, vendo nela aurora a anunciar o Sol de justiça, Jesus Cristo, o Salvador do mundo. Ao descrever a Paixão do Senhor, João faz questão de inserir sua figura materna, exaltando-lhe a fidelidade ao projeto do Reino, bem como a perseverança que a fez permanecer confiante mesmo diante dos tristes efeitos do pecado humano sobre seu Filho, missionário do Pai.

5. João, portanto, apresenta Maria intimamente unida ao Filho no ato da Paixão. Nessa mesma perspectiva o evangelista vai além, pois a une também a cada um de nós, que somos “filhos no Filho” (cf. Rm 8,15). Jesus não apenas olha para sua mãe. Olha também para o Discípulo amado, em quem a Tradição e a espiritualidade cristãs sempre contemplaram toda a humanidade. De fato, a figura do Discípulo amado personifica a humanidade inteira que, sedenta pela Verdade, encontra em Cristo descanso para seu coração. Desta mística brota com força a devoção à Maria tão presente nas comunidades cristãs.

6. Sua presença materna nos acompanha de perto. Essa é a experiência do povo, verdade experimentada e defendida pelos crentes das diferentes culturas, raças e contextos. A maternidade por ela exercida, concretizada no exemplo que nos edifica e na intercessão que nos ajuda, se prolonga no tempo de forma misteriosa e pedagógica. Misteriosa porque circunscreve-se ao âmbito da fé. A presença de Maria manifestada em tantos lugares, dentre eles em Aparecida, é linguagem decifrável apenas com a gramática da fé. Por isso, ao colocarmo-nos diante da imagem peregrina que nos visitará no próximo mês, deixemo-nos envolver pela fé que nos permite ver o invisível. Fé traduzida em confiança no Deus que não nos abandona, mas oferece meios para nos conservar no caminho da salvação.

7. Depois, a presença carinhosa da Mãe de Deus se prolonga na história de forma pedagógica. Em que sentido isso se dá? O coração da mensagem evidente nas manifestações marianas, dentre elas Aparecida, consiste na apresentação vívida do Evangelho. Maria não é fim último da devoção, da oração e da reverência. O culto a ela prestado funda-se no reconhecimento da sua íntima união a Cristo, Nosso Senhor. Deste modo, contemplar Maria em Aparecida, em Fátima, em Lourdes... é colocar-se em atitude de escuta do Cristo que fala através d’Aquela declarada feliz porque acreditou (cf. Lc 1,45). Ao sermos visitados pela imagem peregrina de Aparecida, somos convidados à leitura da realidade tendo por critério a vida e o testemunho da Mãe de Deus. Assim como ela se deixou ver pelo povo brasileiro, solidária com seus desafios e dificuldades, também nós contemplemos a realidade circundante com os olhos da solidariedade, da caridade e da compaixão.

8. Em nossos dias o Papa Francisco tanto apela para o compromisso eclesial. É seu pedido constante sermos Igreja samaritana, em saída e missionária. Maria é, igualmente, imagem da Igreja, conforme nos ensinaram os Santos Padres e o Concílio Vaticano II. Visitados por ela, corramos com coragem às suas qualidades que a configuram como sinal de esperança para os aflitos, como escola de vida cristã para os batizados, como modelo de compromisso com a causa do Reino. Seja esta peregrinação momento catequético para nossa Diocese. Todas as paróquias serão visitadas, todas as comunidades poderão olhar para o rosto materno da Mãe de Deus, redescobrindo nela a beleza de ser amado. Maria nos abraça e ama porque viveu profundamente a dinâmica do amor. Soube deixar-se abraçar e amar pelo Deus que a fez Bem Aventurada (cf. Lc 1,48).

9. Concluo minha reflexão com a oração proferida por Papa
Francisco ante a imagem de Nossa Senhora Aparecida a 24 de julho de 2013:


Mãe Aparecida, como Vós um dia,
assim me sinto hoje diante
do vosso e meu Deus,
que nos propõe para a vida uma missão
cujos contornos e limites desconhecemos,
cujas exigências apenas vislumbramos.
Mas, em vossa fé de que
“para Deus nada é impossível”,
Vós, ó Mãe, não hesitastes,
e eu não posso hesitar.
Assim, ó Mãe, como Vós,
Eu abraço minha missão.
Em vossas mãos coloco minha vida
e vamos Vós-Mãe e Eu-Filho
caminhar juntos, crer juntos, lutar juntos,
vencer juntos como sempre juntos
caminhastes vosso Filho e Vós.

Mãe Aparecida,
um dia levastes vosso Filho
ao templo para O consagrar ao Pai,
para que fosse inteira disponibilidade
para a missão.
Levai-me hoje ao mesmo Pai,
consagrai-me a Ele com tudo
o que sou e com tudo o que tenho.

Mãe Aparecida,
ponho em vossas mãos,
e levai até o Pai a nossa e vossa juventude:
quanta força, quanta vida,
quanto dinamismo brotando e explodindo
e que podem estar a serviço da vida,
da humanidade.
Finalmente, ó Mãe, vos pedimos:
permanecei aqui,
sempre acolhendo vossos filhos
e filhas peregrinos,
mas também ide conosco,
estai sempre ao nosso lado
e acompanhai na missão
e grande família dos devotos,
principalmente quando
a cruz mais nos pesar,
sustentai a esperança da nossa fé.



Aproveitemos essa oração como preparação para a visita da imagem peregrina. Rezemo-la cada dia, pedindo a Deus a graça da perseverança por intercessão de Nossa Senhora Aparecida! Com meu abraço fraterno vai o desejo de ver nossa Igreja cada vez mais viva, consciente da missão e engajada na evangelização.


Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Abril de 2015 04/04/2016
Disse-lhes o Espírito Santo: “Separai para mim Barnabé e Saulo,
para a obra à qual os destinei” (At 13,2)

1. Caríssimos irmãos e irmãs, prosseguindo nossa reflexão sobre o livro dos Atos dos Apóstolos, desejo falar-lhes agora sobre o trabalho missionário de São Paulo. Este incansável pregador do Evangelho pertencia ao grupo dos fariseus, camada mais radical e conservadora do judaísmo. Tendo feito a experiência com o Cristo Ressuscitado (At 9), converteu-se à fé cristã e assumiu a tarefa missionária como centro da sua vida.

2. Junto a si reuniu homens e mulheres de boa vontade, impelidos pelos mesmos ideais. Sejam recordados, por exemplo, Barnabé (At 9,27), Timóteo (At 16,1), Priscila e Áquila (At 18,2), Silas (At 15,40), Lídia (At 16,14) e muitos outros. Além de missionário, Paulo se apresenta, portanto, como perspicaz organizador de comunidades, capaz de delegar funções e acreditar nas pessoas. Insiste assim no modo de ser Igreja pautado na comunhão, valorizando os diferentes carismas e aptidões, alimenta o coração dos convertidos para que não esmoreçam na fé.

3. Outra nota típica da missão paulina consiste no seu caráter dinâmico. Paulo não se prendeu ao sedentarismo religioso, fixando-se em determinada comunidade. Diversamente disso, lançou-se sem reservas a percorrer o território do Império Romano movido pelo único objetivo de pregar o Evangelho. Deste seu método evangelizador, os Atos dos Apóstolos conservaram a memória de quatro viagens, sendo a última sua peregrinação a Roma onde conheceu o martírio por decapitação.

4. Quando lemos os Atos dos Apóstolos percebemos que o Apóstolo se move e se comunica com relativa facilidade pelas várias regiões do Império. De fato, quando surgiu o cristianismo, todo o mundo conhecido, denominado “grecorromanidade”, estava unificado sob o poder de Roma. Desta cidade partiam vias (caminhos) que percorriam todo o Império, ligando cidades e províncias. O grego se impusera como língua universal, falada por todas as populações, ainda que os dialetos locais tenham subsistido marginalmente. Muito explorado pelos romanos, o Mar Mediterrâneo era navegado com facilidade, permitindo contato com culturas e civilizações distantes.

5. Essa contextualização é importante, pois nos Atos vemos Paulo chegar a diversas regiões falando aos habitantes com tranquilidade. Em seguida vemo-lo partir e já tocar outras cidades sem grandes empecilhos. As viagens missionárias se fizeram tanto ou mais eficazes à medida que foram facilitadas pelo contexto que as acolheu. Nos Atos dos Apóstolos as narrativas acerca da ação paulina itinerante começam no capítulo 13. No versículo 2 se lê: Separai para mim Barnabé e Saulo, para a obra à qual os destinei. Trata-se de enunciado programático, mostrando que o trabalho missionário é desejo divino e não apenas decisão humana. O espírito é o agente por excelência; os enviados são instrumento. O Espírito fala à Igreja de Antioquia, portanto, quem envia é a comunidade eclesial. Individualismo egoísta não está de acordo com o projeto cristão. Na missão evangelizadora ninguém pode enviar-se a si mesmo.

6. Na primeira viagem (At 13-14), Paulo e Barnabé passam pela ilha de Chipre, atingem Antioquia da Pisídia até alcançar Icônio e a região circunvizinha. A didática é sempre a mesma: primeiro pregam na Sinagoga, aos judeus. Diante da rejeição destes redirecionam o anúncio aos pagãos. A pregação é confirmada por sinais realizados por intermédio dos missionários (At 14,8-18). No caminho de retorno a Antioquia, de onde tinham partido, evangelizaram Perge e a Atalia. Chegando ao local de origem, partilharam com os irmãos antioquenos os acontecimentos relativos à missão. Percebamos, pois, que toda a comunidade está envolvida no processo evangelizador. Ninguém pode permanecer alheio àquilo que constitui o coração da existência cristã, ou seja, o anúncio do Evangelho. Cronologicamente, a 1ª viagem missionária pode ser datada entre os anos 46-48.

7. No período que vai do ano 50 a 52 Paulo empreendeu a 2º viagem missionária (At 15,36-18,22). Separando-se de Barnabé, tomou Silas por companheiro (At 15,40). Desta vez estiveram novamente na Licaônia, atravessaram a Ásia Menor passando por Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas e Corinto. Muitas notas importantes podem ser destacadas dessa viagem. De início o Espírito reorienta o itinerário (At 16,6-7), levando-os à Ásia. Em Filipos acontece a conversão de Lídia, que depois se encarrega do cuidado da comunidade. Paulo e Silas são presos e libertos miraculosamente. Na cidade de Corinto Paulo passa a residir na casa de Priscila e Áquila, exercendo a profissão de fabricante de tendas, anunciando o Evangelho a partir da base. Muitos conflitos se identificaram nessa viagem, sobretudo com os judeus que não aceitaram o anúncio cristão.

8. Regressados a Antioquia, dali partiram para a 3ª viagem missionária (At 18,23-21-16), cuja duração se estendeu do ano 53 a 57. Desta vez Paulo chegou a Éfeso, onde permaneceu por três anos. Passou por Trôade, Mileto e decidiu seguir para Jerusalém. Nesta cidade, cenário dos principais fatos relativos à comunidade cristã primitiva, Paulo tenta pela última vez convencer os judeus de que Cristo é o Messias esperado. Acusando-o de blasfêmia e transgressão, o condenam à morte. Por ser cidadão romano, Paulo apela a César, iniciando assim sua 4ª e última viagem, desta vez com destino a Roma onde seria martirizado (At 28,37-28-31).

9. Muitos aspectos poderiam ser salientados a partir da dinamicidade paulina no anúncio do Evangelho. Para a Igreja de hoje, cada dia mais interpelada a deixar o comodismo, Paulo ensina que devemos confiar na origem divina da nossa missão. Como ele e seus companheiros, somos instrumentos nas mãos de Deus. O Espírito continua a guiar a Igreja no trabalho evangelizador. Outro aprendizado que podemos extrair da prática paulina diz respeito à confiança que devemos ter uns nos outros. Paulo fundava comunidades e, ao partir, nomeava pessoas responsáveis por elas. Depositava nelas seu voto de confiança. Em nossas comunidades precisamos desta maturidade que, em última instância, aponta para a co-responsabilidade de todos os batizados na manutenção da vida eclesial.

10. Antioquia se apresentou como a comunidade-base para as missões. Dela partiam e para ela voltavam. Pois bem, como Igreja precisamos criar e manter referenciais comunitários que nos fortaleçam na unidade e oportunizem força e confiança no momento de operar a evangelização. Igreja que deposita sua confiança não na segurança material e transitória, mas que confia por ser portadora do convite à vida plena feito pelo próprio Deus. Por fim, precisamos ser Igreja resistente, reproduzindo o comportamento do Apóstolo que, preso, açoitado, rejeitado e condenado, jamais abriu mão da missão ou perdeu a esperança. É necessário resistir se queremos continuar a ser a mesma Igreja de Jesus Cristo. Resistir às provações, aos graves desafios postos pelo tempo presente, à precariedade das circunstâncias históricas que dificultam a evangelização, ao desânimo, a tantas situações que nada servem à vivência da vocação batismal.

11. Contagiados pela força provinda da Ressurreição do Senhor, faço votos de que nos tornemos Igreja cada vez mais viva. Sejamos sempre sinal da graça operante no mundo. Prestemos atenção aos apelos de Deus na história e, como fermento na massa, façamos crescer o Reino. Com meu abraço fraterno vai o desejo de feliz a fecunda Páscoa a todos os irmãos e irmãs desta querida Diocese.
Março 2016 01/03/2016
Queridos irmãos e irmãs,

“Irei ter convosco...
Não quero ver-vos apenas de passagem;
espero ficar algum tempo convosco,
se o Senhor o permitir”
(1Cor 16,5.7)

1. Inspirado nesta fraterna confissão de afeto feita por São Paulo aos coríntios, desejo falar-vos neste mês sobre um tema de real valor para a caminhada eclesial da Igreja diocesana. Trata-se da “Visita Pastoral”, que iniciei em fevereiro pelas Paróquias São João Batista de Peabiru e Santo Antonio de Araruna, e que seguirá pelas demais comunidades paroquiais, até atingir toda a Diocese de Campo Mourão. Encontro-me muito feliz pela oportunidade concedida por Deus, que para tudo possui tempo oportuno. Fazendo-me presente em cada Paróquia, é meu desejo enfatizar a dinâmica do encontro. Encontro entre o Bispo, os padres, diáconos e o povo que constitui e dá vida às mais diversas comunidades postas pelo Senhor sob nosso cuidado pastoral.

2. A mística da visita pastoral tem sua fonte na prática dos apóstolos, e dos responsáveis pelas primeiras comunidades. Repercorrendo o livros dos Atos dos Apóstolos e as Cartas Paulinas vemos, claramente, a eficácia do dinamismo da visitação como caminho para a consolidação da fé, e para o desenvolvimento do espírito comunitário entre os batizados. Paulo é exemplo de pastor vigilante que, na linguagem do Papa Francisco, tem o “cheiro das ovelhas”. Com efeito, com singular afeto escreve aos coríntios: “Irei ter convosco... Não quero ver-vos apenas de passagem; espero ficar algum tempo convosco, se o Senhor o permitir” (1Cor 16,5.7). Paulo deseja não apenas “passar” pela comunidade, mas com ela e nela permanecer mais delongadamente, sendo ali presença amiga e paterna.

3. Ao longo do ano tenho a oportunidade de visitar as paróquias da Diocese, muitas delas mais de uma vez. Faço-me presente por ocasião do Sacramento da Confirmação, celebração do padroeiro, ordenações diaconais e sacerdotais ou quando sou convidado pelos párocos. Além da presença física nesses momentos, estou espiritualmente unido a cada um de vós mediante orações e a missão episcopal, a mim conferida por Deus através da sua Igreja. Entretanto, é necessário que, como Paulo, também me demore nas comunidades. É importante para o pastor contemplar mais de perto o cotidiano do rebanho nas mais diversas dimensões da sua vida. Por conseguinte, é proveitoso à comunidade ver reavivada em seu meio a chama da fé pela experiência da unidade de todos em Cristo, expressa na missão episcopal.

4. Com o passar dos séculos e o aprofundamento da reflexão da Igreja sobre si mesma, chegou-se à conclusão de que, dada sua importância, as visitas pastorais deveriam ser inseridas no Código de Direito Canônico como dever dos Bispos. Assim, desde o Concílio de Trento (1545-1563), é tarefa do Bispo diocesano proceder com tais visitas em favor da Igreja local e do povo a si confiado. No atual Código de Direito Canônico, os cânones 396-398 versam sobre o dever da Visita Pastoral. Sua importância tornou-se ainda mais visível quando o Papa João Paulo II, por feliz iniciativa, decidiu também ele visitar pastoralmente as comunidades cristãs espalhadas pelo mundo. Costume prosseguido por Bento XVI e Francisco.

5. Do caráter pastoral da visita provêm os passos através dos quais ela se desenvolve. Ressalto aqui três aspectos que nos ajudam na compreensão do tema. Em primeiro lugar o aspecto litúrgico. Por ser ação religiosa, embalada pelo Espírito que faz crescer e conserva a Igreja, a visita pastoral precisa acontecer em clima de fé. Os envolvidos, a começar por mim, devemos estar confiados no Deus que nos chama à missão, e que nos constitui mensageiros do seu projeto salvífico-libertador. Por isso, a visita prevê diversas celebrações eucarísticas, tanto na Matriz quanto nas capelas, momentos de oração e práticas devocionais. Pensando nesse aspecto, é importante que as paróquias a serem visitadas preparem-se espiritualmente para momento tão especial. Supliquemos ao Senhor força e coragem necessárias, para que possamos experimentar tal acontecimento como graça por Ele oferecida. Dado esse passo, rezemos, a fim de não recebermos em vão a graça de Deus (2Cor 6,1).

6. O segundo aspecto, não menos importante que o primeiro, diz respeito à análise séria e madura da caminhada pastoral paroquial. Reunidos o Conselho de Pastoral Paroquial (CPP) e o Conselho Econômico Paroquial (CEP), nos debruçaremos sobre a ação concreta da Igreja naquela região da Diocese. Peço, não temamos encarar a realidade tal como ela é. Para isso, recordo parte do discurso do Papa Francisco aos Bispos mexicanos no dia 13 de fevereiro. Palavras dirigidas a nós Bispos, mas aplicáveis à vida de todo cristão: “é necessário um olhar capaz de refletir a ternura de Deus. Por isso, sede bispos de olhar límpido, alma transparente, rosto luminoso; não tenhais medo da transparência; a Igreja não precisa da obscuridade para trabalhar”. Desejo ouvir mais de perto, e em espírito colegial aqueles que, disponíveis ao chamado do Senhor e sensíveis às necessidades da Igreja, colocam-se a serviço dos mais variados Movimentos e Pastorais. Por isso, será importante que cada coordenador esteja ciente da real situação do seu grupo, para que seja eficaz nosso encontro, abrindo caminhos ao aprimoramento exigido pelo tempo presente.

7. Por fim, o terceiro aspecto é de caráter administrativo. Conforme pede o Código de Direito Canônico, farei a revisão dos livros nos quais são registrados os Batismos, Crismas e Matrimônios. Será igualmente observada a documentação relativa ao departamento financeiro da Paróquia e assuntos afins. Não se trata de desconfiança ou pouca fé na fidelidade dos responsáveis por cada função. Como disse acima, a visita pastoral é momento de graça que, acolhida, nos permite revisitar a história com serenidade e alegria. Sabemos que longa caminhada foi percorrida desde a criação da Diocese no distante 20 de junho de 1959. Contudo, temos ainda muito a caminhar. Portanto, embalados pela oração, amparados pela sensatez que nos permite avaliar nosso marco situacional eclesial, e confiados na esperança que projeta, somos capazes de corrigir ambiguidades e ser Igreja de modo ainda mais coerente e achegada ao Evangelho.

8. Caríssimos irmãos e irmãs, é na força do Senhor Ressuscitado que me coloco em vosso meio. Espero que este ciclo de visitas, extensivo à totalidade das Paróquias, revigore em todos os envolvidos na ação eclesial o espírito de pertença e solicitude. Vivenciando a Quaresma rumo à Páscoa, temos de novo a oportunidade para a sincera conversão. Nas pegadas de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, façamos a autêntica experiência de fé no seio da Igreja. Cresçamos na fé que transforma a vida individual e social. Entreguemo-nos à esperança que vence o imediatismo e não decepciona jamais. Inflamemo-nos com a caridade, expressão da misericórdia divina agindo em nós. Deus não quer “fãs” que o observem de longe, como espectadores inebriados por um espetáculo. Deus deseja corações crentes, ou seja, homens e mulheres comprometidos com sua oferta de vida abundante. Com os votos de fecunda Quaresma e santa Páscoa, invoco sobre vós todos a bênção de Deus, rico em misericórdia (Ef 2,4).


Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão – PR
Fevereiro 2016 01/02/2016
Queridos irmãos e irmãs;

Graça e paz, da parte de Deus nosso Pai,

e de Jesus Cristo, Nosso Senhor!


1. Transcorridos os dias do Natal do Senhor e o merecido descanso no tempo das férias, somos agora chamados à retomada dos trabalhos pastorais. Todo recomeço é constituído por dupla realidade. Em primeiro lugar vem marcado pelo caminho já percorrido. Como Igreja diocesana, situada na grande caminhada da Igreja universal, possuímos a bela história de fé da qual somos parte. Assim sendo, sob a guia do Espírito Santo, devemos ser gratos a Deus pelo que já vivemos enquanto comunidade de fé, aprender com o passado, beber nas fontes do Evangelho e sentirmo-nos herdeiros da bela Tradição religiosa, que fez e faz história em nossa querida Diocese de Campo Mourão.

2. Além de reconhecer o caminho já trilhado como Igreja, o recomeço das atividades pastorais nos move a olhar adiante. Descobrir no prosseguimento do empenho pastoral, expressão concreta da perseverança na adesão a Cristo, que nos deseja sempre e cada vez mais unidos a Si. Agindo assim, estaremos assumindo a condição de discípulos-missionários sob o protagonismo do Espírito Santo, que é força motriz ao anúncio da Palavra, e divino agente no processo de conversão. Com entusiasmo renovado, certos de que por Cristo somos chamados, empenhemo-nos sem reservas na missão evangelizadora, tanto em nível paroquial, quanto decanal e diocesano.

3. Além do empenho oferecido, deixemo-nos entusiasmar pela causa do Evangelho. Entusiasmar-se significa entrelaçar ação e alegria. Papa Francisco tem insistido muito sobre o tema da alegria cristã, reafirmando sempre que o encontro com Cristo produz a verdadeira alegria. Alegria que não tem sua fonte na transitoriedade do mundo, mas se origina no horizonte da eternidade, dos bens que não passam. Façamos da nossa ação pastoral e da nossa condição batismal, anúncio perene da alegria capaz de transmitir convicção, e despertar os corações endurecidos ao valor da vivência comunitária da fé, no seio da Igreja que nos acolhe como mestra e nos amamenta como mãe.

4. Vivenciamos o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Tempo oportuno ao renovado despertar espiritual de cada cristão em particular, e da Igreja em sua totalidade. Trilhando a senda da Misericórdia, potencializaremos a capacidade de acolher o semelhante, porque teremos feito a experiência de sermos acolhidos por Deus. Nesse sentido, maior abertura do coração àqueles que sofrem; compaixão com largueza para com os que perderam a fé, e, por conseguinte, veem desaparecer a alegria de viver; confiança decidida na promessa de Jesus, “eis que estarei convosco todos os dias...” (Mt 28,20).

5. Por tudo isso, peço aos agentes de pastorais e movimentos, sobretudo aos coordenadores, o afinco necessário para o bom andamento das atividades que dão ritmo à vida eclesial diocesana. Aos coordenadores de forma especial, solicito que abracem de fato sua missão de animadores da comunidade ou pequeno grupo. O animador deve ser o primeiro entusiasta, como nas primeiras comunidades cristãs, portador de sensibilidade que aproxima as pessoas, e responsabilidade que as ajude a descobrir o caminho a seguir. Ser coordenador é exercitar a “Mística da Comunhão”, pois é sua missão ser elo entre os diversos membros do grupo, pastoral ou movimento. Elo que possibilite a fluência dos trabalhos e abra caminhos à passagem da Palavra feita carne, abra caminhos ao encontro com o Ressuscitado. Coordenar, portanto, não é privilégio. É sim oferecer aos outros o privilégio de possuir meios facilitados à fecunda vivência da fé.

6. No Jubileu da Misericórdia, os Grupos Bíblicos de Reflexão terão o Evangelho de Lucas como base para os encontros semanais. Não por acaso, o Evangelho de Lucas é também chamado “Evangelho da Misericórdia”. Com efeito, nele o evangelista destaca a face misericordiosa de Deus, revelada na palavra e nas obras do Filho. Nos 24 capítulos do texto, reluz a ação de Jesus Cristo como raiar de novidade no horizonte humano. Ação destinada a causar estupor, maravilhamento e gratidão nos que a vivenciam. Lucas interpreta a presença do Filho de Deus no mundo em chave jubilar. Em seu discurso inaugural, repetindo as palavras de Is 61,1-2, Jesus reconhece ser sua missão “anunciar um ano da graça do Senhor” (Is 61,2). “Ano da graça do Senhor”, assim eram chamados os jubileus no Antigo Testamento, expressão conservada pela Igreja ao repropor a prática do jubileu em linguagem cristã. Aprofundemos o significado da misericórdia em Lucas, para bem vivê-la na experiência pessoal e celebrá-la com os irmãos na vida cotidiana. De fato, todo gesto autenticamente cristão de amor, caridade, responsabilidade religiosa e fidelidade a Cristo, é celebração da misericórdia operada no altar da vida de cada batizado.

7. Outro importante momento que viveremos em 2016 se dará no mês de maio, quando da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Tal visita faz parte da preparação para os festejos alusivos aos 300 anos do encontro da pequena imagem, ocorrido em 1717. Para que a festa aconteça também em nossa Diocese, a imagem proveniente do Santuário Nacional percorrerá todas as paróquias. Em breve será publicada a programação oficial desta solene visita. Peço de antemão que nos aproximemos ainda mais da Virgem Maria, Mãe de Misericórdia. Nos momentos tristes e trágicos da história cristã, os fiéis encontraram na Virgem cheia de Graça porto seguro onde ancorar sua esperança. Aprendamos com os cristãos de outrora, confiando-nos também à proteção materna e sempre presente da Mãe de Deus.

8. Por fim, minha última palavra diz respeito à Quaresma, que se iniciará no dia 10 de fevereiro com a Quarta-Feira de Cinzas. A Campanha da Fraternidade Ecumênica, participada por denominações cristãs integrantes do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), tem por tema: “Casa comum, nossa responsabilidade”. E por lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). Temática alinhada com a Encíclica Laudato sì do Papa Francisco, sobre a “Casa comum”, o meio ambiente e sua complexa situação. Quaresma é tempo de conversão e mudança de vida rumo à felicidade. Diz o hino oficial da Campanha da Fraternidade, “o saneamento de um lugar começa, por sanear o próprio coração”. Façamos isso através dos caminhos já conhecidos: Oração, Jejum e Esmola (caridade). E purificando o coração do pecado que o polui, esforcemo-nos por limpar nosso ambiente, da destruição produzida pela sociedade do descartável e do utilitário.

Desejando bom trabalho e bom ano a todos os diocesanos e pessoas de boa vontade, invoco sobre cada um a bênção de Deus, por intercessão de Nossa Senhora Aparecida e de São José, padroeiro da Diocese.


Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão – PR

Dezembro de 2015/ Janeiro de 2016 01/12/2015
Onde está o recém-nascido rei dos judeus?
Nós vimos a sua estrela no Oriente,
e viemos para prestar-lhe homenagem
(Mt 2,2).

1. Queridos irmãos e irmãs, com o tempo do Advento iniciamos um novo Ano Litúrgico. A espiritualidade da primeira etapa deste ano consiste na esperança sincera pela vinda do Salvador celebrada no Natal. Esperança, portanto, é a virtude que traduz o significado das quatro semanas que antecedem as solenidades natalinas. Por que esperança e não expectativa? Porque a primeira é uma das três virtudes teologais (fé, esperança, e caridade). Com efeito, a preparação para o Natal quer edificar em nós a passagem da fé puramente abstrata para a fé operosa através da caridade. Nesse movimento a esperança age como via, caminho e porta do renovado crer e agir cristão.

2. Por conseguinte, a conversão aparece como sinal concreto do coração realmente sensível à oferta de vida abundante dada pelo Senhor. Converter-se consiste na mudança de vida e de atitudes. Conversão que conduz à alegria típica do Natal. Deste modo, o Advento precisa ser tido por nós como tempo de profunda revisão pessoal. Abandonemos sentimentos, comportamentos e palavras que não partilham do amor e do projeto salvífico-libertador de Deus. A conversão se manifesta de diversas maneiras, porém, a mais coerente delas é a partilha oriunda da caridade sincera. Aproveitemos o Advento para exercitar a generosidade, abrir nossos “celeiros” e repartir com os necessitados.

3. No Natal celebramos o Mistério da Encarnação do Verbo Divino. Em Jesus Cristo, verdadeiro homem, o Filho eterno, verdadeiro Deus entra na história humana para cumprir o desígnio de salvação libertando-nos do pecado e da morte que nos separavam de Deus. Consequentemente, a partir deste acontecimento nossa fé também se transformou. A vinda de Cristo ao mundo ensinou que a fé não pode estar resumida num olhar opaco para o céu buscando encontrar o Deus distante. Em Cristo, a fé se converteu na procura constante por experimentar a presença e o mistério de Deus no cotidiano da história. De fato, Ele é o Emanuel, o Deus conosco.

4. Assim sendo, queridos irmãos e irmãs, o alcance da implicação pastoral do Mistério do Natal é infinito. Enquanto Igreja, somos ensinados pelo Menino de Belém, a fim de que tenhamos coragem suficiente para ouvir os sinais dos tempos. Aplicando-nos na concretização da Nova Evangelização respaldada pela conversão pastoral do coração e das estruturas eclesiais, precisamos nos compreender segundo a mística dos pastores na noite do Natal. Eles não apenas ouviram a mensagem dos anjos, mas com pressa a atenderam. Num mundo em que tudo passa velozmente, em que os modismos superam-se a si mesmos e o individualismo relativista propaga-se qual enfermidade mortal, caminham os cristãos portadores da mensagem permanentemente válida.

5. A chegada do Deus feito homem vem mostrar que é aqui, neste contexto por vezes pouco fácil, que precisamos ser sinal do Reino. O tempo de Jesus não era diferente do nosso, pois também comportava severas ambiguidades. Todavia, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, soube questionar com voz profética as estruturas injustas e atrofiadas, oferecendo condições para que a humanidade contemplasse de modo novo a si mesma, a sua história, o seu futuro e o seu Deus. A celebração do Natal não pode ser refém da pura emoção proveniente do romantismo, que acaba por converter a cena do Presépio numa “fábula” edificante. Celebrar o Natal é olhar para a manjedoura e descobrir seu significado. É concluir que sob a simplicidade das circunstâncias em meio às quais nasceu Jesus, esconde-se o grito profético de Deus destinado a tocar os ouvidos do gênero humano.

6. Durante o Advento teremos tempo para percorrer o caminho de Belém. Amparados pelas liturgias, pela Palavra de Deus, pelas novenas celebradas nos pequenos grupos, somos convidados a discernir o que Deus quis dizer ao mundo no Natal de Jesus Cristo. Por conta disso, a Igreja entendeu o Advento à luz da esperança. Esperança que além de ser permanente, aponta para o infinito. A expectativa é passageira, breve e de pouco comprometimento. A esperança, por sua vez, gera vínculo e compromisso. O sujeito da esperança no Advento é a comunidade dos batizados. Por isso, o “eu espero o Natal” cede lugar ao “nós esperamos o Natal”. O “nós” da Igreja confere sentido a esta espera. Quando se trata de Deus não há espaço para o egoísmo!

7. Aproximando-se, pois, a conclusão do ano civil de 2015, desejo manifestar minha inteira gratidão a todos os padres, diáconos, religiosos (as), agentes de pastoral e fiéis leigos, pelo precioso trabalho realizado nas comunidades espalhadas pela Diocese de Campo Mourão. Agradecendo-vos, faço votos para que sob o influxo do Espírito Santo derramado em Pentecostes, construamos uma Igreja cada vez mais ministerial, despojada e samaritana. Tomemos por lição o significado do presépio: no menino indefeso revelou-se a onipotência amorosa de Deus desejoso por salvar o ser humano. A sociedade continua a repetir o questionamento dos Magos: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para prestar-lhe homenagem” (Mt 2,2). Olhando para a Igreja, o mundo pode descobri-lo nela? Olhando para nossa vida cristã, o mundo pode ver ali o Menino Deus? Reflitamos sobre isso...

Que o calor proveniente da beleza natalina, ainda mais fulgurante no Jubileu da Misericórdia inaugurado pelo Papa Francisco a 8 de dezembro, nos faça solidários uns com os outros, irmanados sob a guia do único Pastor, Jesus Cristo nosso Senhor!

Com meu abraço paterno e caloroso vão os votos de feliz Natal e abençoado Ano Novo!

Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão – PR

Novembro 2015 04/11/2015
Caríssimos irmãos e irmãs;

O Deus da vida e da esperança esteja sempre convosco!

1. Chegamos ao mês de novembro. Caminhamos para a conclusão do ano civil de 2015. Como Igreja prosseguimos nossa marcha rumo a Deus. Refletindo sobre o mês de novembro, concluímos apresentar-se ele, em significado cristão, como um sortido ramalhete espiritual a atrair nossa sensibilidade para a bondade de Deus que deseja estar sempre conosco.

2. Realmente, no dia primeiro celebramos a solenidade de Todos os Santos. Com isso nossa reflexão é despertada para a importância da Igreja enquanto ambiente vital da santidade cristã. Ser santo é a meta primeira de todo batizado. Com efeito, o batismo nos envolve com a veste da santidade. São Paulo, ao referir-se em suas cartas aos destinatários cristãos, não hesita em denominá-los “santos”. Conforme lemos na saudação da Segunda Carta aos Coríntios: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à Igreja de Deus que está em Corinto, e a todos os irmãos santos que estão em toda a Acaia” (2Cor 1,1).

3. Na mentalidade do cristianismo mais antigo o Batismo, sacramento da iniciação cristã, introduz a pessoa na dinâmica da novidade anunciada pelo Mistério Pascal de Jesus Cristo. Nesta perspectiva, ser santo é viver a fé batismal de forma autêntica e sincera. Sob tal ótica a santidade não se apresenta como realidade distante de nós e de nossas possibilidades humanas. Ao contrário, interpretada em chave batismal, o dom da santidade aparece como confirmação da plena adesão humana ao amor e ao projeto salvífico-libertador do Pai manifestado em Cristo na força do Espírito Santo.

4. Meus queridos irmãos e irmãs, celebrar a Solenidade de todos os Santos equivale a professar a fé no Mistério da Redenção. Santo é aquele que abraça a salvação oferecida por Jesus Cristo morto e ressuscitado. Se assim é, quando fazemos valer nossa vocação à santidade, estamos afirmando no silêncio da consciência e da conduta: naquele que nos amou, Cristo, somos mais que vencedores (cf. Rm 8,37). Além disso, ao comemorarmos a virtude da santidade de inumeráveis homens e mulheres que nos precederam na fé, reconhecemos igualmente a constante jovialidade da mensagem cristã.

5. Olhando para todos os Santos nos conscientizamos da pluralidade dos meios pelos quais podemos alcançar a Deus. Essa verdade está registrada no Apocalipse da seguinte forma: “Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: ‘A salvação é obra de nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro’” (Ap 7,9-10).

6. A incontável multidão dos redimidos personifica o alcance infinito da santidade enquanto participação na salvação oferecida por Deus. Ciente disso, a Igreja não se cansa de canonizar os seus filhos, cujo testemunho de fé e caridade mostrou-se heróico ao mundo. Exemplos que desvelam a jovialidade do mistério de Cristo acolhido pelos corações humanos. Dentre os canonizados de ontem e de hoje existem clérigos, religiosos, pais e mães de família, crianças, jovens e adultos... Enfim, o diversificado exemplo de fé e perseverança constitui constelação imensa a fazer ver a grandeza do amor divino que nos chama à santidade.

7. No entendimento cristão a santidade é também mistério de comunhão. Sendo assim, após celebrar todos os Santos lembramos os fiéis defuntos no dia 2 de novembro. Recordamos os falecidos em atitude religiosa e cristã, contemplando na morte a certeza da ressurreição que tem Cristo por primícia. Celebrar finados é deixar-se embalar pela esperança que não decepciona (cf. Rm 5,5). É converter a saudade em certeza de felicidade eterna na presença de Deus. É manter viva a memória dos antepassados, buscando imitar suas virtudes e evitar suas fragilidades. Como pôr em prática tão saudável compreensão da vida e da morte? Crendo verdadeiramente na palavra de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).

8. Referindo-se à fé, neste ano temos oportunidade privilegiada para a redescoberta da fé como exercício da misericórdia que nos orienta para o infinito de Deus. Trata-se da abertura do “Ano da Misericórdia” no dia 8 de dezembro, cinquentenário do encerramento do Concílio Vaticano II (08 de dezembro de 1965). Um dos frutos deste Concílio foi exatamente a abertura da Igreja para o diálogo com o mundo, colocando-a em atitude de serviço misericordioso. Aberto o Ano Santo da Misericórdia, precisamos nos esforçar para vivê-lo em profundidade. Isso exigirá comprometimento sincero de toda a Igreja diocesana, para que o apelo do Papa Francisco seja autenticamente entendido e atendido por nós.

9. Que a proximidade do Advento, tempo litúrgico marcado pela expectativa na espera do Santo Natal, desperte-nos a consciência e o coração para o valor da santidade, para a esperança na ressurreição e para a redescoberta da misericórdia na Igreja, na família, nas relações humanas, na sociedade, enfim, em todos os níveis da vida de cada pessoa. Sob a intercessão de Nossa Senhora Aparecida e de São José, Deus onipotente e eterno derrame abundantemente sobre vós a graça, a bênção e a verdadeira felicidade.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Outubro 2015 02/10/2015
1. Concluindo a série de artigos sobre o livro dos Atos dos Apóstolos, aproveitarei o mês de outubro para destacar alguns aspectos sobre a comunidade de Antioquia. A compreensão desta Igreja exige que consideremos a importância da cidade de Antioquia no contexto histórico do tempo do Novo Testamento. Segundo estimativa de Flávio Josefo, historiador judeu do séc. I, a cidade era a terceira em população no Império Romano, perdendo apenas para Roma e Alexandria. Florescente centro comercial, gozava de aprimorada estrutura urbana. Sua situação geográfica a convertia em zona de acesso entre Oriente e Ocidente. De população majoritariamente pagã, Antioquia possuía também considerável colônia judaica. Numa palavra, trata-se de cidade culturalmente eclética e conformada aos padrões impostos pela política romana de por fim às fronteiras, transformando o mundo conhecido numa aldeia imperial.

2. No livro dos Atos dos Apóstolos as primeiras notícias referentes à cidade aparecem no capítulo 11. A dispersão que se seguiu à morte violenta de Estêvão lançou missionários aos mais diversos recantos do Oriente. Cristãos de Chipre e Cirene chegaram a Antioquia anunciando o Evangelho aos pagãos, obtendo resultado positivo. Informa-nos Lucas que foi grande o número dos convertidos (At 11,21). A expressividade da comunidade antioquena chegou a Jerusalém, comunidade-mãe das demais fundações. Exercendo sua solicitude, a Igreja de Jerusalém enviou Barnabé, levita originário de Chipre (At 4,36) e companheiro de Paulo (At 9,27), a fim de interagir com a nova comunidade. Diz-nos Lucas que ao chegar, Barnabé viu a graça de Deus na vida comunitária, alegrando-se por isso e exortando os crentes a permanecer no Senhor com prontidão de coração (At 11,23).

3. Nesse pormenor temos valiosa pista de reflexão. Barnabé vê a comunidade dos antioquenos e contempla nela a graça de Deus. Nela transluz a ação renovadora da Páscoa, conteúdo anunciado na boa nova evangélica. Em nossa vida de fé, inseridos na família dos batizados, precisamos nos deixar esculpir pela bondade de Deus, assumindo de fato a condição de filhos eleitos no seu amor. Barnabé contempla os efeitos da conversão a partir das marcas positivas dela decorrentes. A sociedade também quer ver tais efeitos na comunidade em que nos achamos inseridos. O mundo está sedento por sentido. As pessoas procuram espaços humanizados e humanizantes, nos quais extrair forças para prosseguir a exigente e, por vezes, angustiante caminhada da vida.

4. Os cristãos de Antioquia puderam oferecer a Barnabé esse “espetáculo” de coerência e sinceridade, arrancando-lhe catequética exortação. “Permanecer no Senhor com prontidão de coração” (At 11,23), eis o conselho do enviado. Temos aqui a junção de dupla realidade, sem as quais corremos o risco de nos perder. Não basta permanecer; é necessário permanecer com coração pronto, disponível. A permanência divorciada da prontidão degenera-se em conformismo infértil, sem perspectivas de esperança que atingem a concretude da história. No cotidiano eclesial devemos cuidar com a qualidade da perseverança-permanência. Papa Francisco tem insistido sobre a necessidade de abandonarmos velhas estruturas que não mais favorecem a evangelização. Permanecer no Senhor com prontidão significa, portanto, estar disponível a ouvir o Mestre e abraçar sua Palavra como critério de vida e de ação eclesial.

5. A fé perseverante dos antioquenos, prontos a viver com radicalidade o caminho do Evangelho, fê-los notados pela sociedade circundante. Sobre isso Lucas pormenorizou: “Foi em Antioquia que os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de ‘cristãos’” (At 11,26). Ao que tudo indica a aplicação do termo aos seguidores de Cristo veio de fora. Definindo assim os discípulos, seus interlocutores operaram acertada associação. “Cristão” vem de Cristo e quer dizer “ungido”. Os discípulos são vistos como intimamente unidos a seu Mestre, numa entranhada relação de fidelidade e seguimento. Nós, igualmente, carregamos esse nome abençoado. Nome de honra a proclamar a nobre condição recebida no Batismo. Pelo fruto se conhece a árvore (Lc 6,44). Por suas obras se conhece o cristão! Nunca se ouviu dizer que da macieira se pode colher bananas. Também do verdadeiro cristão, não se pode esperar obras e sentimentos diferentes dos de Cristo!

6. Desde o berço dinâmica e missionária, Antioquia mostrara-se comunidade diversificada, como bem prova os diferentes carismas e ministérios elencados em At 13,1. Distinguiu-se também pelo pioneirismo missionário, enviando solenemente Paulo e Barnabé à 1ª viagem apostólica (cf. At 13,2-3). Enquanto primeira comunidade fundada diretamente entre os pagãos, Antioquia funcionou como “plano piloto” à construção da nova eclesiologia confirmada pelo Concílio de Jerusalém em At 15. Eclesiologia marcada por impostação ecumênica, não obstaculizando o livre acesso dos pagãos à fé e amadurecendo a reflexão teológica, a ponto de pleitear a abolição de antigos preceitos judaicos (circuncisão), considerados superados pela plena Revelação em Cristo.

7. Tal pujança se estendeu nos decênios posteriores. A Tradição extra-bíblica associou a figura de Pedro como primeiro Bispo de Antioquia, antes de sua partida definitiva para Roma, tendo sido sucedido por Inácio, cujas sete cartas chegaram até nós. Inácio sofreu martírio no entorno do ano 110. Seu pensamento torna-se conhecido através das sete cartas escritas a caminho de Roma, onde seria martirizado. Destaca-se, sobretudo, pela elaborada teologia dos ministérios, na qual consolida a perspectiva das cartas pastorais de São Paulo, dando a conhecer a hierarquia tripartida (episcopado, presbiterato, diaconato). Além disso, deve-se a Inácio o primeiro emprego do termo “católico” em referência à Igreja. Ele o faz no parágrafo 8º da Carta à comunidade de Esmirna. Católico no sentido de universal, presente em todo o orbe. Depois, na segunda metade do séc. II temos a importante figura de Teófilo, sexto bispo de Antioquia. Como apologeta (defensor), expôs a doutrina e a moral cristã, defendendo-a dos ataques e calúnias levantadas contra literatos pagãos.

8. Toda a beleza desta comunidade, que soube enfrentar desafios e defender valores, impõe-se como imperativo à nossa consciência eclesial. As notas identificáveis na Igreja de Antioquia podem ser atribuídas à comunidade onde nos inserimos? Eis o inadiável questionamento que devemos suscitar tanto pessoal, quanto comunitariamente. Que os exemplos do passado nos estimulem, impulsionando-nos a perseverar no Senhor com prontidão de coração. Sejamos comunidade cada vez mais viva e inserida no mundo que nos cerca, a fim de transformá-lo como fermento na massa. Que Deus nos guarde em seu amor! Com meu abraço fraterno.


Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Setembro 2015 01/09/2015

1. Estimados irmãos e irmãs, no mês de setembro, tradicionalmente chamado “Mês da Bíblia”, quero retomar as reflexões sobre os Atos dos Apóstolos tratando da animação comunitária. Muito se fala da necessidade de investir forças na animação das comunidades com vistas à revitalização da vida eclesial e a inserção da Igreja na sociedade. O percurso seguido pela Igreja primitiva, nos faz ver que desde a primeira hora os cristãos se deram conta da necessária dinamização da vida religiosa e pastoral. No caso dos Atos dos Apóstolos, ao longo dos 28 capítulos Lucas registrou as “peripécias” vividas pelas comunidades no processo de difusão e consolidação da mensagem cristã. Movimento dinâmico guiado pela Providência.

2. Os apóstolos são os primeiros animadores da vida comunitária. Em At 2,42 diz-se que os crentes perseveravam em seu ensinamento. At 5,12-16 confirmam que pelas mãos dos apóstolos se faziam sinais e prodígios. Falavam com intrepidez, testemunhando a ressurreição do Senhor (At 4,13). Coube também aos apóstolos liderar a resolução de conflitos internos à vida comunitária. Entre os conflitos situam-se a oposição entre viúvas cristãs de origem judaica e grega (At 6); a querela da circuncisão para os pagãos convertidos (At 15). Também ao cuidado dos apóstolos esteve a organização das frentes do trabalho evangelizador. Quando em determinada região se fundava comunidade, era comum a visita de um apóstolo ou enviado seu, no intuito de confirmar a nova comunidade na fé (cf. At 8,14-17; 10,22-24).

3. Embora fossem os primeiros responsáveis pela animação comunitária, os apóstolos exercitaram a colegialidade, agregando a si personagens destinados a abraçar a missão decididamente. Dentre estes podemos citar de imediato o grupo dos Sete diáconos instituídos em At 6. Originalmente estabelecidos para o serviço das mesas, logo em seguida são descritos como dinâmicos missionários. Estêvão, por exemplo, sofre martírio por causa da sua releitura do Antigo Testamento à luz do Mistério de Jesus Cristo (At 7). Felipe aparece como evangelizador itinerante, fundador da comunidade cristã na Samaria, percorreu regiões palestinenses no sentido norte até atingir Cesaréia (At 8,5-40). No trajeto catequizou e batizou o eunuco de Candace.

4. Associados aos apóstolos estão ainda João Marcos (autor do Evangelho) (At 15,37), Barnabé (At 4,36-37), Timóteo (At 16,1) e numerosos outros, cujos nomes e testemunho exploramos nos artigos anteriores. Cada qual, a seu modo, soube corresponder com ânimo e destemor à proposta de Deus. Assim sendo, foram criativos e cuidadosos na missão evangelizadora. Sua criatividade consistiu na capacidade de integrar fé e vida, ponderando as situações com eficácia. Os Atos dos Apóstolos deixam entrever que na dinâmica pastoral dos primórdios a fé era proposta e não imposta. Uma vez acolhida a proposta, o crente deveria fazer a experiência com o Senhor Ressuscitado, submetendo-se a radical transformação existencial em comunhão com os irmãos.

5. O cuidado, por sua vez, manifestou-se na busca recorrente por operar a comunhão. Diversamente do que por vezes se pensa, as primeiras comunidades não surgiram como cogumelos em multiplicação desenfreada. Quando fundadas, tais comunidades passavam a integrar a “grande comunidade” cristã. Prova disso são as constantes visitas pastorais de Paulo, sobre quem escrevemos no mês de abril. Com efeito, em At 15,36 ouvimos Paulo dizer a Barnabé: “Vamos voltar para fazer uma visita a todas as cidades onde anunciamos a Palavra do Senhor, para ver como estão passando”. A solicitude pelas Igrejas locais constituídas despertava no fundador admirável sentimento de paternidade para com a comunidade. Diante da impossibilidade de presença física, tornou-se comum a redação de cartas visando a edificação mútua dos convertidos e a resolução de problemas. Nesse circuito está inserido o epistolário paulino, as cartas católicas e as cartas de São Clemente de Roma, Santo Inácio de Antioquia e São Policarpo de Esmirna. Estas últimas, posteriores ao Novo Testamento, não foram incluídas no cânon, mas são preciosa lembrança do pensamento cristão nas primeiras décadas do séc. II.

6. Como é bonito perceber que em cada época o cristianismo criou condições para responder às exigências e pressões externas. O papel do animador comunitário evidente nos Atos revela que, naquele contexto, tal função equivalia a viver a fé autêntica e profundamente, não medindo esforços em prol da consolidação da mensagem cristã em bases legítimas. Na atual conjuntura sócio-histórica, continua a nos ser pedida a mesma disposição dos cristãos da primeira hora. Disposição pautada nos critérios de criatividade e cuidado. Não se trata da criatividade mercantil que submete o conteúdo à propaganda com a finalidade de tirar proveito. Trata-se da criatividade evangélica, sinônimo de coerência e autenticidade na vivência e transmissão da fé. Cuidado enquanto zelo apostólico, destinado a promover comunhão entre os crentes e corresponsabilidade na missão evangelizadora da Igreja. Numa palavra, compreensão suficiente do compromisso batismal.

7. Neste mês de setembro aproveitemos com maior largueza o tesouro da Palavra de Deus. Apliquemo-nos à sua leitura, meditação, oração e divulgação. Sob a intercessão de São Jerônimo, Doutor Máximo na explicação das Sagradas Escrituras, invoco sobre vós todos a bênção de Deus em abundância. Com meu abraço amigo.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão








Agosto 2015 04/08/2015
1. Estimados irmãos e irmãs, dando continuidade às reflexões sobre o Livro dos Atos dos Apóstolos, desejo destacar neste mês o papel das mulheres no Cristianismo nascente. De imediato convém sublinhar que, diversamente do paganismo, em âmbito cristão a figura feminina recebeu nova impostação. Sua valorização no círculo familiar e a elevada moralidade cristã acerca da geração e cuidado para com a vida, fez a mulher ser vista com toda reverência pelas comunidades cristãs. Por outro lado, no paganismo a feminilidade tornara-se pouco respeitada, confluindo na instrumentalização da mulher. Ainda no paganismo politeísta, as divindades femininas descritas pelos mitos em linguagem decadente e viciada, asseveravam a deterioração do discurso e compreensão pagãs com respeito à figura feminina.

2. Na tradição judaica, herdeira da Revelação de Deus aos Patriarcas e Profetas, a situação da mulher era qualitativamente superior ao sistema identificado no mundo pagão. Em virtude da polida antropologia semítica, os círculos judeus acresciam a mulher de valores e direitos próprios, sem, no entanto, deixar de erigir série de restrições de cunho religioso, social e cultural. No Antigo Testamento encontramos numerosas alusões à figura feminina como metáfora para descrever sentimentos, comportamentos e qualidades de Deus. Recordemos como amostra o célebre texto de Isaías: “Sião dizia: ‘O Senhor me abandonou, o Senhor me esqueceu!’ Mas pode a mãe se esquecer do seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você” (Is 49,14-15).

3. O Cristianismo, plenitude da Revelação do Pai (cf. Hb 1,1), desenvolveu a antropologia judaica acrescentando surpreendes novidades. Sua fé possui máxima expressão no Mistério do Deus feito homem, nascido de mulher (cf. Gl 4,4). Os quatro evangelhos atestam a ênfase na dignidade feminina como constante na ação de Jesus. Prova disso é o fato de os evangelistas serem unânimes em afirmar as mulheres como primeiras testemunhas do Ressuscitado (Mt 28,1-10; Lc 24,1-10; Jo 20,1-18). Tal compreensão perpassará todo o Cristianismo, igualmente visível no relato dos Atos dos Apóstolos.

4. Em Atos, Lucas descreve a pequena comunidade de Jerusalém como unânime nos sentimentos e perseverantes na oração junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus (At 1,14). Trata-se da última vez que Maria é diretamente mencionada no Novo Testamento. Ao citá-la, Lucas faz questão de associá-la a outras mulheres. Seguramente, contam-se entre elas aquelas já citadas nos evangelhos como discípulas e seguidoras do Senhor. Depois disso a figura feminina reaparece no capítulo 6, na pessoa das viúvas atendidas pela comunidade. A informação oferecida por Lucas acerca da assistência prestada às viúvas é historicamente confirmada por outros textos antigos, segundo os quais nos primeiros séculos as viúvas se agremiavam numa espécie de “ordem” eclesial. Nesse sentido deve ser entendido o texto de 1Tm 5,3-16. No caso de At 6, as viúvas são alvo da atenção comunitária representada pela decisão dos apóstolos ao estabelecer a ordem dos diáconos exclusivamente para seu serviço, o atendimento diário das mulheres desprovidas de amparo marital e familiar.

5. Mais a frente, no capítulo 9,36-43, Lucas conservou o relato da cura de Tabita, habitante de Jope. Diz assim: “Em Jope havia uma discípula chamada Tabita... ela praticava muitas obras boas e dava grandes esmolas” (At 9,36). Temos aqui importante dado original. Tabita é a única mulher a quem se deu o título de “discípula” em todo o Novo Testamento. Sua conduta é qualificada segundo os parâmetros da justiça hebraica (prática das boas obras e doação de esmolas). Morta Tabita chamaram Pedro que se encontrava na vizinha cidade de Lida. Chegando Pedro, as viúvas em pranto mostravam-no as túnicas e mantos costurados por Tabita em ato de caridade (At 9,39). Aqui, sem dúvida é possível estabelecer paralelo com o serviço diaconal, instituído para servir às viúvas (At 6). Além disso, vestindo as viúvas, Tabita personifica o justo aprovado por Deus no sermão escatológico de Mateus: “Estive nu e me vestistes” (Mt 25,36). O desfecho da narrativa consiste na reanimação de Tabita por Pedro (At 9,40). Destaca-se, aqui, a “diaconia” da caridade exercida pela mulher de Jope.

6. No capítulo 16 outra figura feminina é realçada com proeminência. Lídia, comerciante de púrpura e natural de Tiatira (At 16,14). Outras mulheres estão em oração e ouvem a pregação de Paulo, mas apenas Lídia é nomeada. Diz-se que ela acreditava em Deus e que ouvia atenta as palavras de Paulo. Lucas afirma ainda que “o Senhor abriu o seu coração para que aderisse ao que Paulo dizia” (At 16,15). Lídia, portanto, personifica a mulher de fé, atenta à força transformadora da Palavra. Além disso, a fé de Lídia se configura em entrega confiante à ação renovadora do Deus-amor. A abertura do seu coração operada pelo Senhor atesta esta sua qualidade. Mulher confiante e hospitaleira, pois após ter sido batizada acolheu Paulo e os companheiros missionários em sua casa.

7. Por último devem ser citadas Dâmaris e Priscila. A primeira, ouvinte de Paulo em Atenas (At 17,34), integrou o pequeno grupo de convertidos na cidade-mãe da Filosofia. Dâmaris creu ter encontrado na mensagem cristã a verdadeira sabedoria. Priscila, esposa de Áquila, expulsos de Roma pelo imperador Cláudio, além de acolher Paulo em Corinto (At 18,1-3), catequizou Apolo (At 18,24-26), judeu convertido à fé cristã. Neste caso fica ressaltado o papel catequético da mulher nos primeiros dias da Igreja. Algo de semelhante identificamos hoje, quando a catequese paroquial é exercida majoritariamente por mulheres, reflexo vivo da experiência eclesial originária.

8. Recolhendo o pensamento cristão sobre o papel feminino na construção da cultura e da sociedade, São João Paulo II emitiu carta às mulheres no dia 29 de junho de 1995. Dentre tantas coisas, destacou: “Sim, é tempo de olhar, com a coragem da memória e o sincero reconhecimento das responsabilidades, a longa história da humanidade, para a qual as mulheres deram uma contribuição não inferior à dos homens, e a maior parte das vezes em condições muito mais desfavoráveis” (nº 3). Iluminados pela Palavra de Deus e amparados pela fé eclesial, também nós, enquanto Igreja diocesana precisamos viver em atitude de ação de graças. Agradecer ao Senhor o heróico testemunho legado por inumeráveis agentes de pastorais e movimentos, mulheres que fecundam o cotidiano eclesial com sua sensibilidade, ternura e afeição materna. Neste mês volto meu pensamento especialmente para vocês, queridas mulheres cristãs, convidando-lhes a perseverar no Mistério do Deus-amor. Amor entranhado, materno e continuamente convertido em misericórdia. Com meu abraço amigo, vão os votos de graça, paz e fidelidade perseverante!


Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Julho de 2015 03/07/2015
Estimados irmãos e irmãs;

Graça e paz!

1. À luz da Palavra e da Graça de Deus prosseguimos nossa caminhada eclesial. Neste mês desejo refletir convosco um tema realmente importante para a vivência comunitária. Para isso, conforme a pedagogia dos meses anteriores, explorarei o livro dos Atos dos Apóstolos, memória do cristianismo nascente. Trata-se do tema dos conflitos no seio das comunidades, realidade antiga e sempre nova. Ao escrever o livro dos Atos, Lucas não negligenciou o aspecto conflitivo da vida e das relações mantidas pelas comunidades cristãs primitivas. Percorrendo o livro podemos concluir conflitos de ordem interna e conflitos de ordem externa. O balanço do papel exercido pelos conflitos nas comunidades primitivas é positivo. No entender de Lucas o conflito impõe-se como ponto de partida para a maturação individual e coletiva daqueles que o vivenciaram.

2. Em nível interno podemos destacar os enfrentamentos e discussões travadas pelas comunidades cristãs entre si. Com efeito, os desafios surgidos no decorrer da construção da identidade dos grupos cristãos originários, produziram discussão e consistentes questionamentos. No capítulo 5 dos Atos aparece o casal Ananias e Safira, personificação do egoísmo que resiste à proposta nova abraçada pelos convertidos. A morte do casal simboliza que para o crente, fora da comunidade cristã não há vida, não há esperança nem perspectiva. Posteriormente, em At 6 aparece outro problema digno da atenção dos apóstolos. Este consiste na oposição entre as viúvas de origem grega e as de origem hebraica. A passagem condensa duas eclesiologias, isto é, duplo modo de compreender a Igreja. Tal dualismo se aglutinará no problema enfrentado pela assembleia apostólica em Jerusalém sobre o tema da circuncisão (At 15). No caso da queixa das viúvas, o conflito se resolve mediante a instituição dos Sete diáconos (At 6,1-7). Estes, destinados à assistência caritativa das viúvas, deveriam pautar sua atuação sob o princípio da comunhão, marca distintiva da comunidade primitiva.

3. O incidente de At 6 prepara a narrativa de At 15. O pano de fundo são as duas eclesiologias que se opunham. Cristãos de origem judaica (judaizantes) propondo impor a circuncisão aos cristãos de origem grega (pagãos). Ao cogitarem tal proposta os judaizantes afirmavam a necessidade de se passar pelo judaísmo no processo de conversão ao cristianismo. Paulo e Barnabé, missionários estritamente dedicados à evangelização dos pagãos, colocam o tema em pauta junto de Pedro, Tiago e dos anciãos (presbíteros) de Jerusalém. No diálogo, expressão de colegialidade, os horizontes são alargados em nome da comunhão. Deste modo, o projeto judaizante de impor a circuncisão cede lugar à perspectiva ecumênica segundo a qual todos são chamados à salvação em Cristo, a todos se abrindo à porta da fé.

4. Considerando-se os conflitos em âmbito externo, convém destacar primeiramente a oposição dos judeus aos cristãos. O corajoso anúncio do Evangelho, a desautorização de preceitos legais veterotestamentários, a proclamação de Jesus como Messias e o progressivo distanciamento entre Igreja e Sinagoga desencadearam severas animosidades. Numerosas são as alusões feitas por Lucas a este tipo de situação identificada no percurso missionário. Os apóstolos são presos, interrogados pelo Sinédrio e açoitados por causa dos prodígios realizados e da pregação cristã (At 4,1-22; 3,1-10; 12,1-10). Estêvão é apedrejado pelos judeus porque interpreta o Antigo Testamento à luz de Jesus Cristo (At 6,8-7,60). Os episódios guardados por Lucas revelam a tensão surgida entre cristianismo e judaísmo nos primórdios. Os cristãos, embora inicialmente minoria, souberam resistir às tentativas de repressão, legando-nos excelente exemplo para a contemporaneidade, quando a fé cristã torna-se alvo constante de rejeição, incompreensão e repúdio.

5. Ainda em âmbito de conflitos externos cumpre notar as tensões surgidas entre a mensagem cristã e a cultura pagã implantada no mundo mediterrâneo, primeiro palco da missão evangelizadora. Por diversas vezes os missionários precisam enfrentar correntes religiosas mágicas e misticistas que repelem o ensinamento cristão (At 8,9-24; 13,4-12; 16,16-24). Em Éfeso o anúncio do Evangelho prejudica o culto à deusa Ártemis, por isso Paulo foi violentamente expulso da cidade (At 19,23-40). Somam-se a estes temas as audiências de Paulo com o procônsul Galião (At 18,12-16) e com o governador Félix (At 24,1-13). Se para o judaísmo não foi fácil aceitar o desenvolvimento da pregação cristã, da mesma forma para o paganismo, solidificado em instituições e doutrinas, custou ver surgir uma nova religião em seu ambiente.

6. De tudo isso, dolorosas peripécias enfrentadas pelo cristianismo dos primórdios, resulta evidente sua aguerrida predisposição à resistência. Não se trata de resistir como grupo social qualquer. Os cristãos fizeram da resistência perseverança, pautados na experiência com o Senhor Ressuscitado e encorajados pelo Espírito Santo enviado em Pentecostes. A firme coesão dos cristãos entre si e a certeza de que sua mensagem viera para levar à verdade, fizeram-nos fraternos a ponto de não desanimarem perante os desafios. Recentemente, na luminosa Carta Encíclica Laudato Si o Papa Francisco afirmou que “quando o coração está verdadeiramente aberto a uma comunhão universal, nada e ninguém fica excluído desta fraternidade” (nº 92). Nossas comunidades precisam aprender dar novo sentido aos conflitos sob o prisma da fraternidade. Aprendamos, pois, a viver a unidade na diversidade dos dons e carismas.

7. Não percamos o essencial por causa de particularismos estéreis, que impedem o florescimento da Palavra, e lançam a própria comunidade numa caudalosa torrente de descrédito, comportamento desaprovado por Deus. Como Igreja em permanente conversão pastoral, conforme reza o objetivo geral do 19º Plano Pastoral Diocesano, caminhemos rumo a uma espiritualidade cada vez mais despojada e encarnada na história, sensível às alegrias e esperanças, às tristezas e às angústias dos homens de hoje (cf. Gaudium et Spes, nº 1).

Amparados pela intercessão de Maria e pelo testemunho dos santos e santas, cresçamos sempre abençoados por Deus. Com uma bênção especial, vão meu abraço amigo e o desejo sincero para que não nos cansemos de fazer o bem! (cf. 2Ts 3,13).

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Junho de 2015 01/06/2015
1. Queridos irmãos e irmãs, chegamos ao mês de junho. Mês tradicionalmente dedicado às festas populares em torno a Santo Antonio, São João e São Pedro. Festas que por muito tempo, quando era precária a presença de sacerdotes, supriram a devoção e a vida religiosa de comunidades cristãs espalhadas por lugares longínquos no vasto território brasileiro. São, portanto, festas diretamente ligadas à espiritualidade leiga.

2. No Brasil, a CNBB está refletindo sobre o Documento de Estudos 107, acerca do laicato na Igreja, com vistas à elaboração de um Documento oficial sobre o tema. Impulsionada pela Conferência de Aparecida, e confirmada pela Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco, a Igreja presente no Brasil deseja recolocar com entusiasmo o papel fundamental da vocação leiga na missão eclesial.

3. Pensando nisso, vamos destacar algumas informações sobre a atuação leiga nos Atos dos Apóstolos, livro-base dos nossos artigos em 2015. Cumpre notar, porém, que o vocábulo “leigo” não aparece nos Atos e em nenhum outro texto do Novo Testamento. Ela é utilizada pela primeira vez por São Clemente, terceiro sucessor de Pedro na Sé Romana, de acordo com a lista episcopal de Santo Ireneu de Lion. Clemente escreveu à comunidade de Corinto no ano 97. Note-se também que, etimologicamente, a palavra “leigo” (grego – laykos) deriva de “povo” (grego – laos). Em última instância, referência ao profundo significado da Igreja como “Povo de Deus”.

4. O que podemos extrair dos Atos dos Apóstolos com respeito ao papel do leigo? São citados os Apóstolos e aqueles por eles escolhidos para empenho direto na missão evangelizadora e organização das comunidades (Estevão, Filipe, Barnabé, Tito, Timóteo, Silas...). Existem numerosos outros personagens dedicados à mesma evangelização na modalidade “leiga”. Comecemos pelos grupos de convertidos descritos nos 5 primeiros capítulos da obra. Pessoas variadas que abraçaram a fé e o compromisso que a fé impunha. Por isso, delas Lucas pode dizer: “Eram perseverantes no ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42). Diz ainda que os fiéis “Eram um só coração e uma só alma... entre eles não havia necessitados... tudo entre eles era comum” (At 4,32-35). São leigos, figuras anônimas constituintes da Igreja nascente. Seu testemunho se conservou como testemunho da Igreja, por isso seus nomes permanecem no escondimento. Através deles a Igreja nascente pôs em prática o novo modo de manutenção das relações legado por seu Senhor e Mestre.

5. Temos, depois, figuras pontuais. Indivíduos que se destacam enquanto personificação do modo de vida cristã. Em At 9,36-43 aparece Tabita, mulher que pela fé recebeu o honroso título de discípula (At 9,36). Aliás, trata-se da única vez que uma mulher é chamada “discípula” nos Atos. Dela Lucas preservou a seguinte lembrança: “Ela praticava muitas boas obras e dava grandes esmolas”. Tabita era costureira e usava do ofício para a caridade, costurando mantos e túnicas para as viúvas de Jope. A leiga Tabita se imortalizou na história da salvação pelo serviço da caridade.

6. Avançando a narrativa, no capítulo 10 surge a figura do centurião Cornélio, definido como “homem justo e temente a Deus” (At 10,22). Justiça e temor de Deus eram qualidades próprias dos judeus piedosos. Cornélio é pagão e as possui com largueza. É Cornélio quem diz a Pedro: “Estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir, o que o Senhor o encarregou de nos dizer” (At 10,33). Leigo com coração sensível à justiça, ao reconhecimento de Deus (temor) e disponível a ouvir e acolher sua palavra de vida.

7. No capítulo 16 está guardada a memória de outra leiga importante para a Igreja nascente. Lídia, comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Acerca de sua personalidade Lucas anotou: “Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abrira o seu coração para que aderisse às palavras de Paulo” (At 16,14). Tendo abraçado a fé cristã, quis acolher Paulo em sua casa. Crer e ouvir-obedecer a Deus, duas qualidades da leiga Lídia. Pela fé ela permitiu que Deus trabalhasse em sua vida, abrindo-lhe o coração às palavras ditas através de Paulo.

8. Mais adiante, no capítulo 18, são mencionados Priscila e Áquila. Eram fabricantes de tendas, artesãos, membros do povo simples. Acolheram Paulo em sua casa, dando-lhe suporte para a evangelização de Corinto. Do lar deste casal o Evangelho se estendeu pela grande cidade portuária, plantando ali os fundamentos de sólida comunidade cristã. No mesmo capítulo 18 Lucas menciona o nome de Apolo, judeu convertido natural de Alexandria. Entusiasmado pelo cristianismo, pregava sem acanhamento a verdade de Deus (At 18 25). Contudo, conhecia apenas o batismo de João, era ainda um “aprendiz” da fé. Priscila e Áquila, ouvindo-o falar, “o tomaram consigo e, com mais precisão, lhe expuseram o Caminho de Deus” (At 18,26). Na atitude do casal refulge a corresponsabilidade catequética inerente a todo batizado. Ao invés de rechaçar Apolo pela incompletude do seu conhecimento da fé, Priscila e Áquila se encarregaram de oferecê-lo o autêntico ensinamento cristão. São, portanto, modelo para nossas comunidades cada vez mais desafiadas no aspecto catequético. Pelos testemunhos aludidos, conclui-se, então, que a vocação leiga na Igreja nasce no sentido de colaboração direta na missão evangelizadora deixada pelo Cruficicado-Ressuscitado.

9. Caros irmãos e irmãs, conforme pudemos perceber, o papel dos leigos nos Atos dos Apóstolos confirma sua importância para a Igreja das origens. Um dos propósitos do Concílio Vaticano II consiste em revisitar o cristianismo antigo como fonte para a missão da Igreja hoje. Assim sendo, temos estímulo a mais para enfatizar a identidade leiga em virtude da graça batismal que precede os demais sacramentos. Pelo batismo somos povo de Deus, enriquecido com multiplicidade de dons e carismas orientados para o bem de toda a Igreja. Que Santo Antonio, São João e São Pedro intercedam por nós. Que a fé eucarística a ser proclamada com força na Solenidade de Corpus Christi nos ajude a formar comunidade cada vez mais solidária e samaritana.

Com meu abraço fraterno vai a súplica para que Deus abençoe com largueza nossa querida Diocese de Campo Mourão.


Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão – PR


Maio de 2015 04/05/2015
Eram perseverantes no ensinamento dos Apóstolos,
Na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações
(At 2,42).

1. Queridos irmãos e irmãs, contagiados pelas alegrias pascais prosseguimos a reflexão sobre o livro dos Atos dos Apóstolos. Nesta edição desejo tecer meu comentário sobre os modelos comunitários evidentes no texto sagrado. Lucas, autor dos Atos, é por excelência um entusiasta pela vida em comunidade. Para ele a comunhão oriunda da fé sintetiza a natureza mesma do agir cristão no mundo. Segundo seu modo de ver a fé, o Batismo põe o cristão na vida de comunhão com Deus no seio da comunidade à qual passa a pertencer.

2. Transcorrido o Pentecostes (At 2,1-41), evento fundante do dinamismo missionário, Lucas insere a primeira descrição da comunidade de Jerusalém (At 2,42-47). Nestes versículos a comunidade, produto de Pentecostes, é descrita como perseverante segundo quatro critérios fundamentais (ensinamento dos Apóstolos, comunhão fraterna, fração do pão, orações). Marcas tipicamente cristã dos primeiros núcleos comunitários formados a partir da experiência com Jesus Cristo.

3. Perseverar no ensinamento dos Apóstolos consiste na unanimidade no ato de fé. Os cristãos se auto-compreenderam desde o início como portadores da revelação plena do Pai na pessoa do Filho feito homem para a salvação do mundo. Este traço das primeiras comunidades ensina que não se pode crer de “qualquer jeito”. A fé deve ser vivida e professada na Igreja, em comunhão com os batizados, membros do Corpo Místico de Cristo. Por outro lado, a fé precisa ser transmitida. Com efeito, os Apóstolos, antes de tudo, foram transmissores da fé através da pregação da Palavra e do testemunho heróico. Perseverar no ensinamento dos Apóstolos equivale a progredir na pregação apostólica, reproduzindo no presente da história o que eles fizeram nos primórdios da Igreja.

4. Lucas prossegue dizendo que a comunidade perseverava na “comunhão fraterna”. Em grego, língua original dos Atos dos Apóstolos, a expressão “comunhão fraterna” traduz-se simplesmente por comunhão. Comunhão no sentido mais radical e orgânico do termo, a ponto de transformar os crentes num “só coração e numa só alma” (At 4,32). Desta comunhão brotou o novo modo de estabelecer relações entre os batizados. Na sociedade daquele tempo as relações eram verticais, em pirâmide de desigualdade. Sêneca, filósofo e senador da corte de Nero, chegou a dizer que “a igualdade é uma injustiça”. No interior da comunidade cristã o verticalismo das relações foi substituído por laços horizontais de fraternidade e ajuda mútua. A vivência autêntica da comunhão pôs fim ao modelo sócio-cultural separatista e pouco digno, abrindo espaço a comunidades de tamanho humano, das quais se pode dizer: “Não havia entre eles necessitado algum” (At 4,34). Não havia necessitados porque a comunhão tomou o lugar do egoísmo e da ambição mesquinha que exclui e desfigura a feição realmente humana das relações.

5. Perseveravam na “fração do pão”. No conjunto do livro a expressão alude à Eucaristia. Aliás, “fração do pão” foi um dos mais antigos nomes dados à Missa na história do cristianismo. Aqueles que viviam a comunhão no dia a dia, partilhando de si em favor dos demais, também celebravam a comunhão pela força do sacramento deixado pelo próprio Senhor durante a Última Ceia. Desde a primeira hora as comunidades cristãs se auto-compreenderam em chave eucarística. O exemplo do Senhor, despojando-se totalmente de si mesmo, cunhou o cerne da mensagem cristã. A pregação mais primitiva da Igreja consistiu no anúncio do Cristo crucificado e ressuscitado. Esta memória, celebrada na Eucaristia, esculpiu um dos aspectos centrais da fé.

6. Por fim, Lucas ainda diz que os fiéis eram perseverantes nas orações. Ressalta-se assim a comunidade orante, em perene sintonia com Deus. De fato, após a libertação de Pedro e João, o primeiro ato da comunidade é rezar unida aos apóstolos libertos (At 4,23-31). Em At 12, estando Pedro novamente preso, diz-se que “a Igreja fazia ardentemente oração a Deus, em favor dele”. Pois bem, a oração também se faz pela comunhão. Não se reza simplesmente na individualidade. Quem reza é a Igreja, isto é, a comunidade dos batizados que, numa só boca clama e num só coração professa a fé.

7. Estes quatro aspectos são critérios basilares à compreensão da mística comunitária lucana. Por outro lado, convém recordar que nem tudo foi tão harmonioso quanto parece. A comunidade apresentava problemas, mostrando-se em processo de maturação. Em At 5 temos o caso do casal Ananias e Safira que, mentindo aos Apóstolos enquanto representantes da comunidade, mentiu ao Espírito Santo (At 5,3). Ananias e Safira se comportaram de forma egoísta, subvertendo a comunhão, nota basilar da convivência entre os batizados. O casal morre repentinamente. A intenção do autor é dizer que onde a comunhão está em perigo a ameaça precisa desaparecer, pois destruir a comunhão equivale a liquidar a comunidade.

8. Depois, é necessário perceber os desafios vividos pelos grupos cristãos. São conflitos com autoridades judaicas e romanas, com pagãos e, por vezes com membros seus, conforme atesta o relato acerca do casal Ananias e Safira. Contexto turbulento que projeta a evangelização para empreendimentos ainda mais ousados. Lucas possui visão positiva da história. Apesar dos conflitos e desafios a Palavra e a Igreja crescem numa coextensividade admirável. O autor dos Atos escreve história sem perder de vista o evento fundamental, a experiência com o Ressuscitado na força do Espírito Santo derramado em Pentecostes. Por isso percebe beleza em meio aos reveses da missão evangelizadora.

9. Nesta atitude de Lucas repousa salutar ensinamento para nossas comunidades. Mais do que um ponto de vista, Lucas foi capaz de avaliar toda a trajetória cristã do seu tempo a partir do ponto fundamental que fez a fé se mover como força de transformação sócio-cultural. Quanto mais caminhamos tendo presente o impulso primeiro que nos levou à missão, maiores condições possuímos no sentido de perseverar e viver com alegria o caminho abraçado. Que o exemplo das primeiras comunidades nos estimule, encorajando-nos à profecia e à resistência num contexto cada vez mais hostil e omisso às questões fundamentais concernentes à dignidade humana à luz de Deus.

Com meu abraço fraterno vão os votos de perseverança e entusiasmo evangelizador nesta querida Diocese de Campo Mourão.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Março de 2015 02/03/2015
E serão minhas testemunhas até os confins da terra (At 1,8)

1. Queridos irmãos e irmãs, conforme anunciado no artigo do mês anterior, iniciamos nesta edição o ciclo de reflexões sobre o livro dos Atos dos Apóstolos. Metodologicamente nos guiaremos por temas tratados no relato, expressões da vida cristã nos primórdios e dos desafios enfrentados pela evangelização.

2. Neste mês teremos por guia de reflexão o tema da MISSIONARIEDADE DA IGREJA. Aqui convém considerar um aspecto fundamental com relação ao Evangelho. Por ter escrito o terceiro Evangelho e os Atos dos Apóstolos, Lucas vê Jesus e a Igreja com categorias muito próximas. Segundo o relato evangélico, a missão evangelizadora de Jesus se dá no decorrer da longa peregrinação com destino a Jerusalém (Lc 9-19), cidade na qual haveria de se cumprir o Mistério Pascal. Cresce o anúncio do Evangelho à medida que Jesus se aproxima da cidade santa.

3. Nos Atos dos Apóstolos a expansão das comunidades cristãs obedece a mesma perspectiva. Partindo de Jerusalém novas comunidades são fundadas segundo a própria palavra de Jesus: “Mas o Espírito Santo descerá sobre vós, e recebereis uma força do alto. Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia, Samaria e todos os confins da terra” (At 1,8). Para a expansão da Igreja o ponto de partida é Jerusalém, e o objetivo almejado a grande e poderosa cidade de Roma, capital do mundo de então. Era desejo do cristianismo nascente iluminar a sociedade com a Verdade de Jesus Cristo e o novo modo de vida inaugurado por Ele.

4. Outro fato importante a considerar diz respeito ao caráter pneumático da missão cristã nos Atos dos Apóstolos. Com efeito, as primeiras missões começam após Pentecostes (At 2,1-13). Neste acontecimento fundante os discípulos do Ressuscitado veem o ponto de partida seguro para o anúncio do Evangelho a toda criatura. Até o capítulo 8 é descrita a comunidade de Jerusalém, enquanto “mãe” daquelas que doravante surgiriam. Partindo do capítulo 8 começa a evangelização da Samaria por Filipe, Pedro percorre diversas regiões anunciando o Evangelho (At 9,32-43), chega a Cesaréia e admite à Igreja o pagão Cornélio (At 10), dando a entender o alcance universal da Boa Nova proclamada pelo Senhor.

5. Em At 11 entra em cena a comunidade de Antioquia, que haveria de se converter numa das mais importantes e pujantes Igrejas da antiguidade cristã. Do capítulo 13 em diante surge a grandiosa figura de Paulo, que de perseguidor tornou-se Apóstolo de Jesus Cristo. Paulo e seus companheiros, vários ao longo do relato, desenvolvem fecundo e gigantesco trabalho de fundação de comunidades. Seu ambiente de ação pastoral é o complicado contexto religioso e cultural da Ásia Menor e da Europa de então.

6. Refiro-me à dificuldade do contexto por se tratar de regiões marcadas pelo sincretismo religioso pagão. Nela se instalaram e fizeram fortuna diversos cultos idolátricos provindos de diferentes partes do mundo. Por exemplo, em Éfeso (At 19), Paulo contrasta com o culto à famosa deusa Ártemis, divindade da fertilidade. Em Atenas (At 17), o problema consiste na pluralidade de divindades cultuadas pela população, a ponto de se erguer um altar ao “Deus desconhecido”. Poderíamos mencionar aqui inúmeras situações que ilustram a conjuntura enfrentada pelos evangelizadores da primeira hora.

7. Geograficamente a missão aconteceu, e comunidades cristãs se estabeleceram em toda a bacia do Mar Mediterrâneo, inclusive em Roma, capital do Império. Todavia, o olhar puramente sociológico sobre este movimento não nos permite captar o que ele realmente significou. Faz-se necessário, portanto, a ótica da fé mediante a qual Lucas dispôs seu relato. Lucas era um homem de fé e não prescindiu da fé ao escrever. Segundo sua teologia, o Espírito Santo é a força motriz a embalar o crescimento da Igreja.

8. A Igreja cresce concomitantemente ao crescimento da Palavra. Em At 9,31 se lê o seguinte: “E a Igreja vivia em paz em toda a Judéia, Galiléia e Samaria. Ela se edificava e progredia no temor do Senhor, e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo”. Já em At 12,24 Lucas anotou: “E a Palavra de Deus, entretanto, crescia e se multiplicava”. Há coextensividade entre a dupla expansão da Igreja e da Palavra.

9. Para Lucas, portanto, a Igreja deve se entender como ambiente habitado pela Palavra e sustentado pelo Espírito. A missão evangelizadora precisa se erguer sobre esse duplo fundamento. Não se trata de confiar simplesmente na eficácia dos projetos elaborados pela sabedoria humana. Por vezes temos excelentes planos de pastoral, propostas de trabalho maravilhosas e subsídios atualizados, porém continua emperrado o processo evangelizador. Se isso ocorre é porque carecemos de confiança na força do Espírito como protagonista da missão eclesial, faltando convencimento sobre a centralidade da Palavra como objeto a ser do anúncio. Carecemos de entusiasmo e vitalidade ao dar vida ao anúncio.

10. Aproveitemos a Quaresma para refletir sobre nossa prática pastoral em nível diocesano, decanal e paroquial. Sejamos corajosos, como foram os incansáveis missionários da primeira hora, e confrontemos nosso modo de ver a missão com as reais necessidades da Igreja e da humanidade hoje. Através da Campanha da Fraternidade sobre a relação entre Igreja e sociedade, a CNBB nos interpela, tocando diretamente na missão evangelizadora. Quer que nos evangelizemos a nós mesmos, para possuirmos condições de evangelizar os nossos interlocutores. Compreendamos também que evangelizar é um processo construtivo que deve avançar a cada dia, conforme nos dá a entender o precioso texto dos Atos dos Apóstolos.

Com os votos de fecunda Quaresma vai meu abraço fraterno de irmão no Senhor.
Fevereiro de 2015 02/03/2015
Queridos irmãos e irmãs,
paz e fé da parte de Deus nosso Pai e do seu Filho Jesus Cristo!

Chegamos ao ano de 2015! Que demonstração de amor o Pai nos oferece conservando nossa vida e nossa esperança até aqui! Os festejos de Natal nos trouxeram a memória do imenso Mistério da Encarnação do Filho de Deus. Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do Pai Eterno fez-se homem a fim de que a humanidade pudesse adentrar na vida divina. Maravilhado diante deste glorioso acontecimento, Santo Agostinho escreveu: “Tanto nos amou que por nós foi feito no tempo Aquele por quem foram feitos os tempos (...) Tanto nos amou que se fez homem o que fez o homem” (Sermão 188,2).

Pois bem, a recordação do nascimento humano do Filho de Deus veio refazer as forças da Igreja tendo em vista o prosseguimento da sua missão evangelizadora. Nós somos a Igreja! Nós, os batizados aos quais foi concedido o dom da fé cristã. Sendo assim, as celebrações natalinas, concluídas com a festa do Batismo do Senhor, quiseram falar ao coração de todos nós. Se realmente ouvimos a voz de Deus a confirmar nossa missão batismal, então estaremos suficientemente dispostos a dialogar com Deus que fala, mediante decidida resposta de fé.

A Diocese de Campo Mourão adentra confiante em 2015, pois tem consciência da assistência divina na concretização da missão eclesial recebida do Senhor. Também eu, na qualidade de Bispo e pai espiritual desta porção do Povo de Deus, me sinto feliz, confiante e grato a Deus por sua fidelidade ao gênero humano, permitindo que a história caminhasse até aqui. Com efeito, nosso Deus não é o deus do formalismo e da distância. Ao contrário, é o Pai que abraça seus filhos e filhas sem impor exigências dispendiosas. Deseja apenas que sigamos pelo caminho da vida, via cujo percurso corresponde ao modo de ser e viver reluzente em Cristo. Ele que disse de si: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Atentos à dinâmica proposta pelo tempo presente vos convido à
inteligência da fé. Em que consiste isso? Consiste em sermos capazes de pensar a vida, a história e a missão evangelizadora segundo a real situação do momento histórico vivido. Significa compreender-se eclesialmente, ou seja, vencer particularismos egoístas que em nada contribuem para a edificação da Igreja e dos batizados. Nesse sentido, confirmo meu ardente desejo, a fim de que empenhemos forças na Animação Bíblica da Pastoral. Sejam multiplicados e fortalecidos os Grupos de Reflexão, as paróquias saibam aproveitar a riqueza oferecida pela Escola Bíblica Decanal sendo assíduas na participação e fiéis no repasse do conteúdo em nível paroquial.

Além disso, tenhamos bem claro as prioridades adotadas no 19º Plano da Ação Evangelizadora: Família, Juventude e Catequese. Contemplemos estes níveis do trabalho pastoral com seriedade e engajamento evangélico. Exorto também à valorização do curso de teologia oferecido pela Escola de Teologia Pastoral Pe. Yves Pouliquen. Leigos bem formados pastoral e teologicamente são lideranças valiosas ao aprimoramento da organização eclesial, tanto em nível diocesano quanto paroquial. Enfim, encorajo ao aprofundamento da fé professada em todas as dimensões. Quero aqui ressaltar a piedade popular, também citada pelo Papa Francisco como “maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 124). Em vista de fazer crescer a fé pela via da piedade, vos recomendo, queridos irmãos e irmãs, sejam visitados os santuários diocesanos: O Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, situado em Campo Mourão. O Santuário de Santa Rita de Cássia, em Barbosa Ferraz.
Ainda pela via da piedade popular, aproveitemos 2015 para difundir a devoção a São José, padroeiro da Diocese de Campo Mourão. Conforme observamos nas festas natalinas, José, o Justo, possui papel singular no plano salvífico-libertador de Deus plenificado em Cristo. Supliquemos a intercessão do glorioso São José em favor dos fiéis que procuram a Deus de coração sincera nesta querida Diocese. Confiemos a tão grandioso Santo o clero, as religiosas, as famílias, os jovens, os sofredores... Todos os que se sentem honrados por trazer consigo o nome de “cristãos”.

Vivamos o Ano da Vida Consagrada com entusiasmo, revisitando a caminhada das comunidades religiosas presentes na diocese de Campo Mourão. Através da oração e da promoção vocacional, surja entre nós muitas pessoas decididas por consagrar a vida ao serviço de Deus. No Brasil a CNBB proclamou 2015 como o Ano da Paz. Reflitamos a paz tão necessária entre os homens e mulheres do nosso tempo. Quero recordar também, que a partir de agora usarei esse espaço em nosso Jornal Diocesano para apresentar mensalmente uma catequese bíblica sobre o Livro dos Atos dos Apóstolos. O Livro dos Atos, descrição dos primeiros dias da Igreja, tem muito a nos ensinar e contribuir para o crescimento da Igreja Diocesana.

Com estas palavras de encorajamento vai meu abraço de pai e pastor, bem como os votos de feliz e abençoado ano de 2015!

Dezembro de 2014 02/03/2015
Onde está o recém-nascido rei dos judeus?
Nós vimos a sua estrela no Oriente,
e viemos para prestar-lhe homenagem
(Mt 2,2).

1. Queridos irmãos e irmãs, com o tempo do Advento iniciamos um novo Ano Litúrgico. A espiritualidade da primeira etapa deste ano consiste na esperança sincera pela vinda do Salvador celebrada no Natal. Esperança, portanto, é a virtude que traduz o significado das quatro semanas que antecedem as solenidades natalinas. Por que esperança e não expectativa? Porque a primeira é uma das três virtudes teologais (fé, esperança, e caridade). Com efeito, a preparação para o Natal quer edificar em nós a passagem da fé puramente abstrata para a fé operosa através da caridade. Nesse movimento a esperança age como via, caminho e porta do renovado crer e agir cristão.

2. Por conseguinte, a conversão aparece como sinal concreto do coração realmente sensível à oferta de vida abundante dada pelo Senhor. Converter-se consiste na mudança de vida e de atitudes. Conversão que conduz à alegria típica do Natal. Portanto, o Advento precisa ser tido por nós como tempo de profunda revisão pessoal. Abandonemos sentimentos, comportamentos e palavras que não partilham do amor e do projeto salvífico-libertador de Deus. A conversão se manifesta de diversas maneiras, porém, a mais coerente delas é a partilha oriunda da caridade sincera. Aproveitemos o Advento para exercitar a generosidade, abrir nossos “celeiros” e repartir com os necessitados.

3. No Natal celebramos o Mistério da Encarnação do Verbo Divino. Em Jesus Cristo, verdadeiro homem, o Filho eterno, verdadeiro Deus entra na história humana para cumprir o desígnio de salvação libertando-nos do pecado e da morte que nos separavam de Deus. Consequentemente, a partir deste acontecimento nossa fé também se transformou. A vinda de Cristo ao mundo ensinou que a fé não pode estar resumida num olhar opaco para o céu buscando encontrar o Deus distante. Em Cristo a fé converteu-se na procura constante por experimentar a presença e o mistério de Deus no cotidiano da história. De fato, Ele é o Emanuel, o Deus conosco.

4. Assim sendo, queridos irmãos e irmãs, o alcance da implicação pastoral do Mistério do Natal é infinito. Enquanto Igreja, somos ensinados pelo Menino de Belém, a fim de que tenhamos coragem suficiente para ouvir os sinais dos tempos. Aplicando-nos na concretização da Nova Evangelização respaldada pela conversão pastoral do coração e das estruturas eclesiais, precisamos nos compreender segundo a mística dos pastores na noite do Natal. Eles não apenas ouviram a mensagem dos anjos, mas com pressa a atenderam. Num mundo em que tudo passa velozmente, em que os modismos superam-se a si mesmos e o individualismo relativista propaga-se qual enfermidade mortal, caminham os cristãos portadores da mensagem permanentemente válida.

5. A chegada do Deus feito homem vem mostrar que é aqui, neste contexto por vezes pouco fácil, que precisamos ser sinal do Reino. O tempo de Jesus não era diferente do nosso, pois também comportava severas ambiguidades. Todavia, verdadeiro Deus e verdadeiro homem soube questionar com voz profética as estruturas injustas e atrofiadas, oferecendo condições para que a humanidade contemplasse de modo novo a si mesma, a sua história e o seu futuro. Deste modo, a celebração do Natal não pode ser refém da pura emoção proveniente do romantismo que acaba por converter o menino Jesus numa “fábula” edificante. Celebrar o Natal é olhar para o presépio e descobrir seu significado. É concluir que sob a simplicidade das circunstâncias em meio às quais nasceu Jesus, esconde-se o gripo profético de Deus destinado a tocar os ouvidos do gênero humano.

6. Durante o Advento teremos tempo para percorrer o caminho de Belém. Amparados pelas liturgias, pela Palavra de Deus, pelas novenas celebradas nos pequenos grupos, somos convidados a discernir o que Deus quis dizer ao mundo no Natal de Jesus Cristo. Por conta disso a Igreja entendeu o Advento à luz da esperança. Esperança que além de ser permanente, aponta para o infinito. A expectativa é passageira, breve e de pouco comprometimento. A esperança, por sua vez, gera vínculo e compromisso. O sujeito da esperança no Advento é a comunidade dos batizados. Por isso, o “eu espero o Natal” cede lugar ao “nós esperamos o Natal”. O “nós” da Igreja confere sentido a esta espera. Quando se trata de Deus não há espaço para o egoísmo!

7. Aproximando-se, pois, a conclusão do ano civil de 2014, desejo manifestar minha inteira gratidão a todos os padres, diáconos, religiosos (as), agentes de pastoral e fiéis leigos, pelo precioso trabalho realizado nas comunidades espalhadas pela Diocese de Campo Mourão. Agradecendo-vos, faço votos para que sob o influxo do Espírito Santo derramado em Pentecostes construamos uma Igreja cada vez mais ministerial, despojada e samaritana. Tomemos por lição o significado do presépio: no menino indefeso revelou-se a onipotência amorosa de Deus desejoso por salvar o ser humano. A sociedade continua a repetir o questionamento dos Magos: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para prestar-lhe homenagem” (Mt 2,2). Olhando para a Igreja, o mundo pode descobri-lo nela? Olhando para nossa vida cristã, o mundo pode ver ali o Menino Deus? Reflitamos sobre isso...

Que o calor proveniente da beleza natalina nos faça solidários uns com os outros, irmanados sob a guia do único Pastor, Jesus Cristo nosso Senhor!

Com meu abraço de pai vão os votos de feliz Natal e abençoado Ano Novo!
Novembro de 2014 02/03/2015
Bem-aventurados são os mortos,
que morrem no Senhor, desde agora;
hão de descansar de suas fadigas
e consigo levarão as suas obras (Ap 14,13).

1. Caríssimos irmãos e irmãs, a cada ano o mês de novembro nos põe diante da realidade da morte. Duas datas, intimamente relacionadas, oportunizam a reflexão. A Solenidade de Todos os Santos, a 1º de novembro, seguida pelo dia de Finados compõem um bloco temático em dois polos meditativos. Todos os Santos convida-nos a contemplar a cidade do céu, assim caracterizada pelo Livro do Apocalipse: Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram! (Ap 21,3-4).

2. Assim entendida, a Solenidade de Todos os Santos fundamenta-se na mística da esperança que nos faz olhar além e descobrir a graça amorosa de Deus a nos aguardar na plenitude da felicidade. Contemplando os nossos irmãos e irmãs postos como modelos de vida cristã, os Santos e Santas oficialmente reconhecidos pela Igreja, somos estimulados a desejar a bem-aventurança onde se encontram. Por outro lado, quando a liturgia diz Todos os Santos, quer recordar o alcance infinito da santidade. Todos os que estão junto de Deus, co-participando da glória eterna, são lembrados nesta Solenidade. Multidão incontável de homens e mulheres que fizeram da vida epifania do amor de Deus.

3. Por conseguinte, no dia 2 de novembro a Igreja recorda os falecidos. Manifesta visivelmente sua reverência aos mortos através dos gestos que já conhecemos: limpeza e decoração dos túmulos, visitas ao cemitério, orações intensas em favor dos defuntos... A data litúrgica de Finados fundamenta-se naquilo que chamamos doutrina da Comunhão dos Santos, professada no Símbolo da Fé: “Creio na comunhão dos Santos...” Em que consiste isso? De forma bem objetiva, significa crer e afirmar que a Igreja, em sua tríplice realidade: triunfante, padecente e peregrina, integra uma só Igreja de Cristo. Consequentemente, a Igreja é comunhão que possibilita a oração em favor dos mortos e a súplica da intercessão daqueles que, com certeza já se encontram junto de Deus.

4. Rezar pelos mortos é prática louvável, conforme já percebera o Segundo Livro dos Macabeus (cf. 2Mc 12,38-45). Ciente disso a Igreja, ao longo dos séculos não cessou de rezar em favor dos defuntos. A sabedoria da fé fê-la ir mais longe, oferecendo por eles o Santo Sacrifício da Missa e reservando um dia anual para sua recordação. Esta atitude da Igreja, embora incompreendida e até refutada por muitas tendências religiosas da atualidade, tem total fundamento bíblico e concorda com a tradição cristã mais antiga. Ela sintoniza com a visão de ser humano conservada pelo cristianismo. Homem e mulher foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Jesus Cristo, o Verbo eterno feito carne, santificou perpetuamente a natureza humana. No mistério da ressurreição do Senhor, a humanidade recebeu o dom da vida imortal, sendo confirmada na esperança de ressuscitar com Cristo.

5. O corpo é templo do Espírito Santo, dom divino ao ser humano (cf. 1Cor 6,19). Se assim é, o corpo torna-se destinatário da graça de Deus. Nele somos santificados e através dele somos chamados a santificar os irmãos e irmãs. No corpo recebemos os sacramentos e mediante suas faculdades comunicamos a Palavra divina e a graça que se revela nos atos de bondade, amor e caridade. Por tudo isso, a Igreja crê na ressurreição da carne e honra o corpo com orações e celebrações fúnebres. Para ilustrar quão aguçada foi a sensibilidade do cristianismo em relação a isso, relembro o que se diz no relato do martírio de São Policarpo, ocorrido por volta do ano 155: Pudemos mais tarde recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-lo em lugar conveniente. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro (Martírio de São Policarpo, 18,2-3).

6. A fé na ressurreição da carne nos faz, portanto, olhar o mistério da morte com os olhos da esperança. A ressurreição é plenitude da vida, pois experiência perfeita do Mistério Pascal de Jesus Cristo. Deste modo, celebrar o dia de Finados é professar a fé na ressurreição, desconsiderando todo tipo de doutrina que contradiga essa verdade. Pedagogicamente, a data quer nos recordar também a transitoriedade da existência terrena: Lembra-te que és pó, e ao pó hás de tornar. A partir desta consciência somos convidados a reorientar nossa vida à luz do Evangelho, procurando em tudo viver e agir como cristãos peregrinos rumo à eternidade! Perseveremos até o fim!

7. Concluindo, desejo recordar a Assembleia Diocesana que ocorrerá no dia 15 de novembro. Assembleia é momento de avaliação, confraternização e celebração. Convido a todos, a fim de que rezemos em favor do êxito da Assembleia deste ano. Na ocasião refletiremos sobre o Documento 100 da CNBB, Comunidades de comunidades: uma nova paróquia, tratando da nova evangelização. Que nosso coração esteja aberto ao que o Espírito Santo nos diz e nos esforcemos à implantação de uma Igreja cada vez mais dinâmica, comprometida, libertadora e historicamente situada.

Que Nossa Senhora Aparecida e todos os Santos e Santas de Deus intercedam por nós e que desça sobre nossa vida e nossa Igreja diocesana a bênção divina em abundância.
Outubro de 2014 29/09/2014
Viva a Mãe de Deus e nossa,
sem pecado concebida!
Viva a Virgem Imaculada,
a Senhora Aparecida!


1. Queridos irmãos e irmãs, conforme afirmei na homilia da missa de encerramento das Santas Missões Capuchinhas na cidade de Campo Mourão, no dia 31 de agosto, “a maior alegria do Bispo é estar entre seu povo”. Falando-vos mensalmente através do Jornal Servindo sinto esta mesma alegria, pois neste espaço posso partilhar convosco a fé, a experiência de Deus e temas urgentes relativos à caminhada pastoral diocesana.

2. Chegando ao mês de outubro não posso negligenciar a grandiosa festa de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e padroeira do Brasil. Sua história se confunde com a própria história do povo brasileiro. Povo sofrido, marcado por desafios cada vez mais crescentes, mas ao mesmo tempo, gente de esperança, capaz de projetar tempos melhores e não desanimar frente às decepções e dramas da vida. A espiritualidade guardada sob a pequenina imagem de Aparecida traz também estes traços. Retirada das águas lamacentas do Rio Paraíba do Sul; acalentada na canoa de pobres pescadores; enegrecida, igual ao numeroso contingente de africanos escravizados nos tempos da colonização brasileira; sinal de esperança e resistência para seus devotos.

3. A simplicidade de Aparecida recorda o anonimato do presépio. Lá Maria, a Mãe do Filho de Deus, fez sumamente a experiência da rejeição e do abandono. Por outro lado, não usou tal experiência para alimentar revolta, ódio ou um coração amargo. Ao contrário, transformou-a em caminho de libertação, colocando sua vida inteira à disposição da vontade salvífico-libertadora de Deus. Queridos irmãos e irmãs, sob esse prisma, no acontecimento de Aparecida se deu uma reedição do grande ensinamento do presépio. Maria Santíssima, nossa fiel catequista, representada na pequena imagem retirada das águas, despertou a atenção da sociedade brasileira para a capacidade libertadora do Mistério de Deus.

4. É impossível visitar a Basílica de Aparecida, refletir sobre o fato lá ocorrido em 1717, ser devoto da Virgem de cor morena, sem se convencer de que o cristão precisa compreender-se cada vez mais obreiro da libertação no mundo. Não se trata de uma libertação ideológica, pautada unicamente no combate aos males sócio-históricos. Isso seria materialismo, não condizente com a fé cristã e o projeto de Deus. A libertação à qual somos enviados pela mística de Aparecida é aquela que toca integralmente a vida, o sentir, o existir e o fazer humanos. É aquela que atinge o homem todo e todo homem!

5. Libertação em sentido evangélico, isto é, o caminho de vida nova aberto por Cristo na comunidade cristã, no interior da qual, todos são chamados a ter vida em abundância (cf. Jo 10,10). Aqui vale lembrar a palavra do Papa Francisco no dia 6 de julho passado: “Esta liberdade que, com a graça de Deus, experimentamos na comunidade cristã, quando nos colocamos ao serviço uns dos outros. Sem ciúmes, sem partidos, sem conversas. Servir-nos uns aos outros, servir-nos! Então o Senhor nos liberta das ambições e rivalidades, que minam a unidade da comunhão. Nos liberta da desconfiança, da tristeza – esta tristeza é perigosa, porque nos joga pra baixo, é perigosa, fiquem atentos! Nos liberta do medo, do vazio interior, do isolamento, das lágrimas, dos lamentos”.

6. Gostaria que neste ano, ao celebramos devotamente a festa de Nossa Senhora Aparecida, possamos pensar mais sobre isso: Maria, que na mística da sua imagem enegrecida, nos aponta a verdadeira libertação. Se assim cremos, vivamos como libertados, pois foi “para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

7. No mês de outubro teremos ainda o Sínodo para a Família, a ser celebrado no Vaticano entre os dias 5 a 19. As dioceses do mundo inteiro foram consultadas sobre vários pontos a serem discutidos pela assembleia sinodal. Dentre os participantes haverão 14 casais, laicato representado junto ao Colégio dos Bispos. Isso revela o quanto a Igreja está preocupada em formar os leigos para a responsabilidade e participação na vida eclesial em diálogo sadio e maduro com a hierarquia.

8. Rezemos pelo Sínodo, a fim de que as decisões tomadas e as orientações elaboradas sejam conforme a vontade de Deus. Que a fidelidade ao Criador imponha-se como critério fundamental das reflexões. Participemos através das nossas orações e adesão sincera ao que nos falará o resultado da reunião sinodal.

9. Também no mês de outubro acontecerão as eleições. Historicamente, as eleições simbolizam a conquista da democracia, tão almejada pelas gerações passadas. Contudo, se encarada segundo interesses particulares, a democracia atraiçoa-se a si mesma, é instrumentalizada e se converte em tirania. Como cristãos precisamos votar com consciência, respaldando nosso voto em critérios objetivos e claros, que não contradigam a fé que professamos. Rezemos, para que o Espírito Santo, “Ele que falou pelos profetas”, assista os filhos da Igreja na hora da escolha. Peçamos também que os filhos da Igreja se sintam assistidos pelo Divino Espírito, não se deixando envolver por qualquer promessa ou corromper por qualquer favor.

10. Enfim, em outubro a Igreja celebra o mês missionário. Ultimamente o Papa Francisco tem apelado muito para a consciência missionária dos batizados. Vencendo a pastoral de conservação, somos desafiados a dar forma a uma autêntica pastoral evangelizadora. De todos nós é exigido empenho, decisão e coragem. Recordo aqui o 19º Plano de Pastoral diocesano. Suas três prioridades (Família, Juventude e Catequese), são tríplice ambiente fecundo à vivência da nossa missionariedade. Não nos cansemos de evangelizar!

11. Com os votos de profunda experiência eclesial neste mês, aproveito a oportunidade para externar novamente meu abraço fraterno e dizer que o bispo vos traz sempre em suas orações!
Setembro de 2014 31/08/2014
Queridos irmãos e irmãs,

Bendito seja Deus para sempre!

Novamente falando à nossa comunidade diocesana através do Jornal Servindo, desejo tecer algumas considerações sobre a importância da Palavra de Deus, pois setembro é, costumeiramente conhecido como “mês da Bíblia”. Isso se deve ao fato de a memória litúrgica de São Jerônimo ocorrer no dia 30 de setembro. Este ilustre Doutor da Igreja, exímio estudioso das Escrituras na passagem do IV para o V século foi proclamado doutor da Igreja pelo Papa Bonifácio VIII em 1298.

A Palavra divina é prova do amor inesgotável de Deus que, falando ao ser humano, deseja lhe comunicar a abundância da sua vida e do seu plano salvífico-libertador. Assim sendo, ela só se faz realmente experimentar quando acolhida no plano do diálogo. Deus fala e o homem é chamado a ouvir. Ouvir, não simplesmente do ponto de vista do raciocínio que busca entender. Ouvir segundo a dinâmica da experiência que provém da fé movida pela graça que só Deus pode dar.

Pensando nisso, São Boaventura escreveu: “É impossível a alguém propor-se conhecer a Sagrada Escritura antes de receber a fé em Cristo em si, infundida como lâmpada, porta e mesmo fundamento de toda ela” (Breviloquium, 5,201). Ter fé é o critério fundamental para o sadio relacionamento com a mensagem divina presente na Escritura. A fé, por sua origem sobrenatural, permite-nos transpor o limite da superficialidade, penetrando e sentido íntimo de cada vocábulo e expressão do texto sagrado.

É também a fé que nos possibilita alargar os horizontes, concluindo que a Palavra de Deus ultrapassa a “letra”, trazendo consigo a linguagem de Deus compreensível aos corações sensíveis e às consciências despertas à verdade. A isso a Igreja chama Tradição, ou seja, Deus falou plenamente no Mistério do seu Filho, encarnado, morto e ressuscitado para a salvação do mundo. Deus ofereceu sua Revelação às testemunhas oculares do evento Jesus Cristo. Estes, por sua vez, anunciaram o que viram e ouviram (cf. 1Jo 1,1). Paralelamente ao anúncio surgiram os escritos do Novo Testamento. O texto escrito, porém, não pode ser absolutizado como único modo de Deus falar.

Tal absolutização conflui no fundamentalismo, erro fatal que “evita a íntima ligação do divino e do humano nas relações com Deus” (Verbum Domini, 44). Em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, essa ligação negada pelo fundamentalismo passou a ser critério de autenticidade para a vida de fé. Ciente da necessidade de acolher a mensagem divina em plenitude, Paulo exortou aos tessalonicenses: “portanto, irmãos, ficai firmes; guardai as tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito” (2Ts 2,15).

Apoiada nesta afinada reflexão do Apóstolo, a Igreja reconhece na Sagrada Escritura a fonte primeira da Revelação. Entretanto, acolhe também como constitutivo da fé eclesial a mensagem revelada na Tradição oral transmitida desde os primeiros séculos, e na reflexão do Magistério dos papas em comunhão com o Colégio dos Bispos, sucessores dos apóstolos. Assistida pelo Espírito Santo, a Igreja não se cansa de explorar a Escritura, trazendo à luz aquilo que nela se encontra de maneira velada. Deste modo, os diversos aspectos da sua doutrina não são invenção da instituição. São, na verdade, produto deste trabalho de perícia nas Escrituras Sagradas sob a força e guia do Espírito Santo.

Setembro é celebrado como “mês da Bíblia”. Busquemos, pois, ouvir mais atentamente o que Deus nos quer falar através da sua Palavra e do seu agir na história humana. Dóceis ao Espírito de sabedoria sejamos sensíveis, aptos a transpor o véu da letra e nos convencer do grande amor divino escondido sob cada palavra, texto e expressão da Escritura.

Nossa diocese tem crescido na procura por conhecer e experimentar os efeitos da Palavra de Deus. No 2º sábado de cada mês, nos diversos decanatos, lideranças se reúnem na Escola Bíblica para refletir sobre o Evangelho de Mateus, tema dos encontros das pequenas comunidades eclesiais em 2014. No dia 29 de agosto temos a alegria e privilégio de ver aberta em Campo Mourão a primeira turma de pós-graduação em Teologia Bíblica do Novo Testamento. O curso é oferecido pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC). Parabenizo os inscritos pela feliz decisão em participar dessa oportunidade que muito há de contribuir para nossa formação bíblica.

Por fim, nos dias 6 e 7 de setembro acontecerá o Simpósio de Teologia Bíblica, cujo reflexão versará sobre o livro do Apocalipse. Outra chance fecunda dada pela bondade de Deus, para que busquemos crescer no amor e no conhecimento da sua Palavra, da sua Revelação e do seu carinho por cada um de nós. Espero que saibamos aproveitar tudo isso, não deixando passar despercebido o convite do Senhor.

Sob a intercessão da Virgem Maria, de São José e de São Jerônimo, invoco sobre vós a bênção de Deus em abundância.

Com meu abraço fraterno de Bispo e Pastor.
Agosto de 2014 31/07/2014
Palavra do bispo

Nele (Cristo) nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor (Ef 1,4).

1. Queridos irmãos e irmãs, chegando ao mês de agosto, tradicionalmente dedicado à reflexão sobre as vocações, desejo partilhar convosco algumas ideias importantes sobre tema de tão grande significado para nossa fé. Restrinjo-me, porém, à vocação sacerdotal e religiosa. Primeiramente, em se tratando de vocação devemos ter em conta o significado divino que a reveste. Com efeito, antes de tudo a vocação ao serviço de Deus na Igreja mediante a consagração é já moção de Deus em nós. De fato, a origem da vocação de toda pessoa encontra-se no projeto salvífico-libertador de Deus que escolhe homens e mulheres, elegendo-os instrumentos seus destinados a fazer crescer o Mistério do Reino no mundo. Sendo assim, a vocação enquanto serviço a Deus e ao mundo prescinde de todo tipo de orgulho, presunção e auto-suficiência. Ninguém dá a vocação a si mesmo. Ao contrário, é dom gratuitamente oferecido pelo Senhor da Messe.

2. Segundo aspecto a destacar consiste na finalidade altruísta da vocação. Quem abraça o ministério sacerdotal ou a vida consagrada não pode fazê-lo impulsionado pelo egoísmo, ambicionando pura auto-realização. Essencialmente, a vocação em sua vertente religiosa depende do outro para se realizar. Em última análise, essa alteridade para a qual está orientada a vocação na Igreja tem seu fundamento na mística do Jesus Redentor. No Mistério Pascal, Jesus Cristo personifica o dever oblativo da vida consagrada. Sua missão redentora é destinada à humanidade necessitada do regresso à vida de comunhão com o Criador. Pois bem, nosso Mestre e Senhor não fez de sua condição divina uma usurpação, mas se despojou, assumindo a forma de escravo, condescendendo conosco, a fim de nos salvar (cf. Fl 2,6-7). Também o vocacionado ao serviço de Deus na Igreja há de formar em si esta perspectiva. O nosso “eu” pessoal precisa encontrar realização e regozijo na capacidade de abrir-se às necessidades do gênero humano tão fragilizado e sedento por sentido.

3. A natureza oblativa da vocação é um dado intransponível. Todavia, ela deve ser eco de outra atitude sem a qual não há perseverança e autenticidade. Trata-se do terceiro aspecto que desejo ressaltar: a vida interior. Os grandes personagens bíblicos, os padres da Igreja, místicos cristãos e as figuras responsáveis pelas maiores e mais admiráveis transformações positivas na história do Cristianismo sempre foram pessoas de oração. Oração, por sua vez, pressupõe capacidade de escuta, sensibilidade e docilidade à vontade de Deus. Portanto, toda reflexão séria sobre o tema vocacional urge considerar o valor desta capacidade humana. Digo capacidade humana porque Deus, em seu amor infinito, suscita em nosso ser pessoal o desejo pelas realidades mais sublimes e elevadas que só se encontram n’Ele, fonte e origem de tudo. Deste modo, a oração, enquanto vida de comunhão com Deus, emerge como termômetro da verdadeira vocação, pois nela transcende a vontade humana de forma a lhe ser possível conhecer e abraçar o real propósito divino.

4. Em quarto lugar, não menos importante que os evocados até aqui, está o papel do autoconhecimento. Este é quesito-chave de todo processo de discernimento vocacional. Quem não conhece a si mesmo terá sérias dificuldades para ouvir, discernir e aceitar a vontade de Deus. Sentir-se vocacionado passa pelo processo de maturidade humana, afetiva e espiritual situado à base de toda conversão. Tal processo configura o itinerário percorrido pelos que, antes de nós, se fizeram porta-vozes de Cristo em virtude do seu irresistível convite: “vem e segue-me!” (cf. Mt 9,9). Tomemos por exemplo o apóstolo Paulo. Em At 9 encontramos a narrativa da sua conversão. Na Carta aos Gálatas 1,15-24, Paulo fala dos três anos passados na Arábia após a conversão, antes de iniciar as viagens missionárias. Pois bem, os três anos de Paulo sinalizam o tempo necessário a fim de que o vocacionado conheça a si mesmo no intuito de dar razão e fazer valer a missão abraçada. Após a experiência com o Senhor Ressuscitado no caminho de Damasco, Paulo viu sua vida e história de modo novo, se deu conta da missão confiada pelo Senhor. Todavia, precisou de tempo para descobrir o sentido da novidade segundo a ótica de Deus. Não se apressou, mas obedeceu ao ritmo quisto pelo próprio Deus.

5. Por fim, falando sobre o tema da vocação precisamos considerar ainda o movimento de renovação lançado sobre a Igreja pelo Concílio Vaticano II. A eclesiologia de comunhão reproposta pela Lumen Gentium e subjacente a todos os demais documentos conciliares, diz muito para nosso tema. Numa Igreja compreendida e aceita como mistério de comunhão não há lugar para modelos ministeriais que firam ou desconsiderem esse caráter basilar e essencial da própria Igreja. À luz do Concílio Vaticano II precisamos dar agilidade ao movimento de volta às fontes do cristianismo. Faz-se indelegável revisitar o passado como refontização e não como refúgio. Nesse sentido, o vocacionado há de prestar atenção ao marco histórico atual, situando-se nele com segurança, criticidade, capacidade dialógica e interativa. A Igreja não é um museu destinado a se arcaizar conforme o fluir dos tempos. A Igreja é viva, dinâmica e serva da humanidade a exemplo do seu Senhor. Por isso, a vocação na Igreja exige coragem, sã ousadia, visão prospectiva da história e capacidade reflexiva alargada.

6. Rezemos durante o mês de agosto para que o Senhor da Messe e Pastor do rebanho toque o coração de numerosos jovens, despertando-os e impelindo-os ao serviço ministerial na Igreja. Convido-vos, queridos irmãos e irmãos, a repetirmos piedosamente durante este mês a bela oração pelas vocações rezada e divulgada por Dom Virgílio de Pauli, Bispo de santa e venerável memória:

Cristo Jesus, nosso irmão e amigo,
cumprimos a tua ordem de rezar,
para que tenhamos
sempre muitos e bons jovens líderes:
pais e educadores,
religiosos e religiosas,
diáconos, padres e bispos.
"Manda operários à tua messe",
assim nos disseste.
Precisamos deles.
Eles nos darão o ensino de tua Palavra,
a alegria de tua presença,
o auxílio das tuas graças e
o estímulo para nossas vidas.
Reconhecemos que a semente da vocação,
que vem de Ti, exige
que a cultivemos em nós,
nas famílias, nas comunidades e nos seminários.
Escuta-nos,
Cristo, por meio de tua e
nossa Mãe para a glória do teu nome
e para o nosso bem,
no tempo e na eternidade.
Amém.

Com meu abraço de irmão vai a súplica, a fim de que Deus vos abençoe abundantemente!
Julho de 2014 01/07/2014
Palavra do bispo

Caríssimos irmãos e irmãs;

A graça, a paz e o amor de Deus estejam convosco!
Na edição de julho do nosso informativo diocesano, desejo refletir convosco sobre dois temas que considero de alto significado para nossa vida nas dimensões eclesial e social. Primeiramente, quero tecer algumas considerações sobre os notáveis acontecimentos relativos à abertura do Centenário Natalício de Dom Eliseu Simões Mendes, 1º Bispo de Campo Mourão. Tal abertura coincidiu com a transferência dos seus restos mortais para Campo Mourão, sepultados na Catedral São José no dia 22 de maio. Acerca deste fato podem ter surgido opiniões variadas. Entretanto, certo é que temos nele um ato justiça e de nobreza, pois trouxe em si manifestação de fidelidade para com sua história por parte da Igreja diocesana.

Deste modo, recordo que a reflexão acerca do trabalho e da personalidade de Dom Eliseu contribuiu para revigorar o sentimento de pertença eclesial. Fez evoluir entre nós a salutar atitude de respeito ao passado, alargando as possibilidades de olhar para o futuro sob o prisma da esperança que viabiliza a edificação de tempos novos. Não se trata de idolatria aos nomes do passado, mas amor à história da Diocese. História construída com muito esforço e consolidada sob o cuidado de homens e mulheres que tinham bem claro no coração e na mente a razão da sua esperança.

Quanto mais conhecemos nossa história, mais capazes seremos de trabalhar com amor em prol da Igreja que formamos. Somos tributários do passado. Não nos é dado omitir essa verdade. Conscientes disso, precisamos revisitá-lo segundo a intuição Concílio Vaticano II, isto é, entendê-lo como fonte para o presente e mestre para o futuro. Só assim estaremos legitimamente homenageando nossos “pais e mães” na fé. Faço votos que o Centenário Natalício de Dom Eliseu, a encerrar-se no dia 18 de maio de 2015, seja celebrado por toda a Diocese em espírito cristão e eclesial. Que as novas gerações dos batizados não sejam privadas das suas raízes espirituais e eclesiais!

O segundo tema que me proponho é a Copa do Mundo, iniciada a 12 de junho. Trata-se, indubitavelmente, de evento cultural global. Nele se dá um magnífico encontro entre povos, raças e línguas. Neste período o esporte aproxima as pessoas, promove entretenimento e permite descontração. As residências, estabelecimentos, espaços públicos e privados são coloridos de verde e amarelo. Cores que trazem consigo a força do ufanismo pátrio tão vivo entre o povo brasileiro. Nem o Papa Francisco se omitiu a oferecer reflexões a respeito desta celebração universal. Em mensagem publicada no dia 11 de junho, véspera da abertura da competição, o Papa destacou a importância de o futebol ser entendido como instância humanizadora. Disse ele:

“A minha esperança é que, além de festa do esporte, esta Copa do Mundo possa tornar-se a festa da solidariedade entre os povos. Isso supõe, porém, que as competições futebolísticas sejam consideradas por aquilo que no fundo são: um jogo e ao mesmo tempo uma ocasião de diálogo, de compreensão, de enriquecimento humano recíproco. O esporte não é somente uma forma de entretenimento, mas também - e eu diria sobretudo - um instrumento para comunicar valores que promovem o bem da pessoa humana e ajudam na construção de uma sociedade mais pacífica e fraterna. Se, para uma pessoa melhorar, é preciso um “treino” grande e continuado, quanto mais esforço deverá ser investido para alcançar o encontro e a paz entre os indivíduos e entre os povos “melhorados”! É preciso “treinar” tanto…”

A partir das palavras do Papa devemos reconhecer a necessidade de aproveitar a Copa do Mundo para fortalecer os autênticos valores da humanidade. A alegria, o entusiasmo e o otimismo precisam ser investidos em prol da criação de um ambiente favorável ao diálogo feliz. Assim, o sentimento brasileiro de acolhida e fraternidade estarão presentes, bem como a fidelidade aos valores evangélicos, situados à base da nossa sociedade, exercerá seu papel de chamar a atenção da consciência à dignidade e sacralidade de toda pessoa humana. Meu convite é para que participemos em tudo como cristãos, discípulos-missionários de Jesus Cristo!

Com meu abraço fraterno, vão meus mais sinceros sentimentos de ternura e fraternidade!
Junho de 2014 31/05/2014
Queridos irmãos e irmãs;

“A esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

1. Concluídas as comemorações alusivas a abertura do centenário natalício de Dom Eliseu Simões Mendes (1015-2015), 1º Bispo de Campo Mourão, dirijo-me novamente às comunidades, a fim de lhas dar uma palavra de esperança e encorajamento. Realmente, esse é o papel do pastor diocesano: jamais desanimar e nunca permitir que seus irmãos percam o entusiasmo na vivência da fé. Pensando nisso, desejo partilhar algumas impressões da 52ª Assembleia Geral da CNBB. Conforme vem ocorrendo nos últimos anos, a Assembleia Geral do episcopado brasileiro aconteceu em Aparecida, SP, no centro de eventos Pe. Vítor Coelho de Almeida. Durante o período que compreende os dias 30 de abril a 9 de maio estiveram reunidos cerca de 350 bispos, membros dos 18 regionais eclesiásticos componentes da conferência episcopal brasileira.

2. Primeiramente, quero destacar a aprovação de dois documentos importantes para a caminhada eclesial no presente. São eles, o documento relativo à renovação paroquial (Comunidade de comunidades: uma nova paróquia) e o documento sobre a questão agrária no Brasil. O primeiro, já conhecido por nós através de muitas discussões e análises quando o texto ainda se encontrava na qualidade de “estudo da CNBB”, vai nos ajudar a sermos presença do Evangelho de maneira mais fecunda e samaritana, no anúncio do Reino de Deus. Considerando com seriedade suas diretivas, teremos condições propícias ao abandono de estruturas obsoletas não mais condizentes com os apelos do marco histórico contemporâneo. Segundo meu modo de ver, o documento sobre a renovação paroquial é produto e consequência do espírito eclesial inerente às reflexões propostas pelo Concílio Vaticano II.

3. O documento sobre a questão agrária, por sua vez, nos fornece reflexão objetiva sobre a realidade do campo, por isso, ajudará a compreender a necessidade do cuidado pela terra e também com a agricultura familiar. Sob essa ótica, o documento em questão situa-se em linha de continuidade com o pensamento do Papa Francisco evidente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Nela o Papa denuncia o grosseiro sistema capitalista radical que desencadeia a morte de tantos seres humanos e instrumentaliza a Criação, desconsiderando o valor da ecologia como caminho de sustentabilidade da vida no planeta. Pois bem, a partir deste documento sobre a questão agrária seremos impelidos a revisitar as primeiras páginas do livro do Gênesis e refletir sobre o papel do Homem na Criação, reinterpretando seu domínio sobre o criado sob a dinâmica do cuidado e da preservação tendo em vista o direito de todos à vida abundante (cf. Jo 10,10).

4. Além dos documentos aprovados, quero recordar também que a Assembleia transcorreu em espírito de colegialidade entre os Bispos e as Igrejas particulares por eles representadas. Insistiu-se muito sobre a necessidade da partilha entre as dioceses, a fim de que as regiões mais empobrecidas possuam condições de levar adiante a missão evangelizadora. Falou-se, igualmente, na partilha eclesial em favor da manutenção dos padres que vivem em zonas de intensa pobreza, por vezes impedidos de realizar o trabalho pastoral por falta de condições materiais. A Assembleia, portanto, destacou a urgência da solidariedade entre as dioceses como expressão do verdadeiro sentimento eclesial cristão. Falou-se ainda da formação dos novos padres e do preponderante papel ao qual são chamados os diáconos permanentes.

5. Diante de tantos desafios pelos quais atravessa a Igreja na contemporaneidade, como irmão e pastor desejo convocar a todos os diocesanos para que nos interessemos cada vez mais pela evangelização. O mundo se transforma rapidamente, numa aceleração antes nunca vista. A Igreja precisa estar atenta a esse movimento, sem perder a fidelidade ao Evangelho e a Cristo que, segundo a carta aos Hebreus, é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8). Instruídos pelas diretrizes emanadas da 52ª Assembleia Geral da CNBB e motivados pelo heróico testemunho de Dom Eliseu Simões Mendes, cujo centenário natalício celebramos (1915-2015), sejamos destemidos e corajosos na implantação de um modo verdadeiramente cristão de viver entre a sociedade que nos cerca. Sob a intercessão dos Santos João XXIII e João Paulo II, exemplos de santidade em nosso tempo, permaneçamos seguros na seguinte verdade: a esperança não decepciona!

Com meu abraço fraterno vão os votos de felicidade e a súplica para que Deus nos abençoe abundantemente!
Maio de 2014 30/04/2014
Caríssimos irmãos e irmãs;
Cristo ressuscitou verdadeiramente! Aleluia!

1. Embalados pelas solenidades pascais e imersos na alegria que emana do Cristo Ressuscitado, adentramos o mês de maio tomados por forte expectativa. Este mês, também carinhosamente dedicado à figura materna da Virgem Maria, se nos apresenta de todo singular. Com efeito, dando início às comemorações relativas ao Centenário Natalício de Dom Eliseu Simões Mendes (2014-2015), 1º bispo de Campo Mourão, a Igreja diocesana será brindada com a transladação dos restos mortais do seu bispo primaz a fim de serem sepultados no interior da Catedral São José.

2. Trata-se, indubitavelmente de fato histórico ímpar. O cerimonial terá início na tarde do dia 22 de maio, quando às 17h os restos mortais de Dom Eliseu serão recepcionados no aeroporto de Maringá e trazidos em cortejo até Campo Mourão onde, após várias celebrações eucarísticas na Catedral e a vigília de oração realizada pelos movimentos e pastorais serão sepultados junto a seu sucessor Dom Virgílio de Pauli.

3. Acontecimento de tão grande significado para a história da Igreja presente em Campo Mourão será oportunidade para um saudável regresso. Refiro-me aqui ao regresso sincero e realista da memória à presença e feitos de Dom Eliseu em favor da Igreja paranaense. De fato, seu episcopado tocou várias dimensões da organização eclesiástica no Paraná em forte ebulição nas décadas de 1950, 60 e 70.

4. Pois bem, antes de tudo quero chamar a atenção para o fator primordial a ser considerado nesta decisão de regressar à rica personalidade de Dom Eliseu. Primeiramente, precisamos concebê-lo como homem de Deus enviado pelo Senhor a fim de dar a vida em favor da Igreja particular recém-criada.

5. A história de Dom Eliseu se confunde com a história da Igreja que o acolheu no batismo e o constituiu, por graça de Deus, bispo e pastor de uma parcela do rebanho do Senhor. Com efeito, nasceu ele numa família profundamente católica e desde a infância demonstrou inclinação às coisas da religião. Foi ordenado sacerdote aos 23 anos e sagrado bispo aos 35, idade mínima para o exercício do episcopado segundo o Código de Direito Canônico.

6. Seu episcopado no nordeste, particularmente em Mossoró, RN (1954-1959) distinguiu-se pela forte impostação social do trabalho desenvolvido junto às comunidades empobrecidas, vítimas das fortes estiagens incidentes sobre a região. Isso revestiu sua personalidade de espírito profético, tornando-o conhecido como o “bispo ruralista”.

7. Transferido para Campo Mourão em 1959, tomou posse da nova diocese em 23 de abril de 1960, trazendo consigo a experiência pastoral acumulada no nordeste. Na região para a qual viera quase tudo ainda estava por fazer e a extensão territorial da diocese dificultava ainda mais o trabalho de organização. Vale recordar que, quando de sua criação em 1959, a Diocese de Campo Mourão compreendia todo o rincão entre os rios Ivaí, Piquiri e Paraná. Além disso, ultrapassava o rio Corumbataí, até atingir os municípios de Pitanga, Manoel Ribas, Palmital, Ivaiporã, São João do Ivaí.

8. Chegando aqui em 1960, Dom Eliseu precisou dinamizar a vida eclesial através da consolidação das estruturas diocesanas e paroquiais. Com esse objetivo, se mostrou incansável na organização das comunidades em vista da criação de novas paróquias. Preocupou-se também com a educação religiosa do povo, investindo pesadamente na catequese e no estabelecimento de escolas católicas em várias cidades da diocese.

9. O bom relacionamento com personalidades do cenário político brasileiro contribuiu para a forte participação de Dom Eliseu no desenvolvimento de organismos de promoção humana em Campo Mourão e região circunvizinha. Diga-se de passagem, foi Dom Eliseu Simões Mendes um dos primeiros e mais diretamente responsáveis pela abertura da Fecilcam em Campo Mourão, instituição respeitada e de tanto valor para a formação acadêmica da nossa juventude.

10. Outro fator a observar acerca do episcopado de Dom Eliseu diz respeito a seu pioneirismo na formação dos leigos. Este elemento está diretamente ligado ao Concílio Vaticano II. Bem sabemos quão decisiva foi a teologia do Vaticano II para a renovação das estruturas eclesiais em meio às intensivas transformações identificadas na sociedade mundial a partir da segunda metade do séc. XX. Dom Eliseu participou das duas primeiras sessões do Concílio (1962-1963) e aderiu vigorosamente a todas as suas propostas em vista de fazer crescer uma Igreja cada vez mais viva e historicamente presente em Campo Mourão.

11. Deve-se ao pioneirismo de Dom Eliseu a instituição dos ministros extraordinários da sagrada comunhão eucarística, os cursos de capacitação para catequistas, a realização dos primeiros Cursilhos, a ênfase nas comunidades eclesiais de base (CEBs), a implantação de inúmeros movimentos e pastorais, bem como a inserção da Igreja diocesana no novo modo de compreender e celebrar a liturgia inaugurado pelo Concílio.

12. É inegável que o bispo não esteve só em tantas realizações. Determinante foi o apoio do clero e de incontáveis lideranças leigas, entretanto, a coragem de Dom Eliseu serviu como estímulo imprescindível a entusiasmar a todos os envolvidos no lançamento das bases fundamentais da Igreja local. Por fim, após 20 anos à frente da diocese, após tantas fadigas, adversidades e esforços ele renunciou ao governo diocesano a 3 de dezembro de 1980, exatamente passados 30 anos desde sua ordenação episcopal (03/12/1950). Tendo regressado a Feira de Santana, BA, passou a residir com familiares até 2 de março de 2001, quando ao fim de penosa enfermidade faleceu no Senhor.

13. Infelizmente, os anos vividos por Dom Eliseu na Bahia depois da renúncia contribuíram para que sua memória permanecesse silenciosa nas páginas da história. Diante disso, celebrar condignamente o seu Centenário Natalício e trazer seus restos mortais para a Catedral São José é uma questão de justiça por parte da nossa Igreja diocesana. Diria mais, trata-se de grave dever de consciência o resgate do luminoso ministério episcopal aqui exercido por Dom Eliseu. Consideremo-nos todos devedores seus, pois todos somos beneficiários do seu labor apostólico. Por tudo isso, convoco a Diocese de Campo Mourão a fim de que participe fervorosamente das festividades programadas para a chegada dos restos mortais do seu primeiro bispo. Será oportunidade para repassar nossa história e progredir no amor e dedicação por esta Igreja, por quem tantos deram a vida, dentre estes Dom Eliseu Simões Mendes.

Que Deus nos abençoe e enriqueça abundantemente com sua graça!
Abril de 2014 31/03/2014
Queridos irmãos e irmãs;
Graça e paz!

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! (Gl 5,1)

1. Vivenciando a mística quaresmal somos convidados à frutuosa preparação à experiência com o Cristo morto e ressuscitado para a salvação do gênero humano. Dentro em breve celebraremos a Semana Santa, cujo ápice se encontra no Tríduo Sacro da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Apoiados na espiritualidade proposta pelo Concílio Vaticano II, aprendemos que durante a Quaresma os fiéis devem se dedicar a ouvir com maior afinco a palavra de Deus e à oração, preparando a celebração do mistério pascal na liturgia e na catequese litúrgica (cf. Sacrossanctum Concilium, 109).

2. Pois bem, se a Quaresma é compreendida como tempo de preparação, requer dos corações cristãos sensibilidade e abertura necessárias, a fim de que cumpra seu objetivo. Anualmente, por ocasião do ingresso no período quaresmal o Papa envia uma mensagem aos católicos espalhados pelo mundo, orientando-os acerca de aspectos basilares constitutivos do autêntico ser cristão à luz da vida nova inaugurada por Cristo.

3. Neste ano o Papa Francisco, em sua mensagem quaresmal toma como baliza interpretativa a seguinte expressão de São Paulo: Fez-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9). Expressão carregada de significado, tanto espiritual quanto teológico, é ocasião para o Santo Padre despertar nossa atenção às dimensões práticas da existência. Para tanto, recorda-nos que “a finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – ‘para vos enriquecer com a sua pobreza’. Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz”.

4. Guiado por tal inspiração, o Papa Francisco faz ver além, colocando-nos diante da miséria, caracterizada pela pobreza sem confiança. Miséria que se constituiu pela pobreza imersa no desespero de quem não vê saída para as várias dificuldades da vida. Miséria entendida como incapacidade de se reerguer de uma situação de morte e exclusão. Esta miséria, por sua vez, deve ser encarada pelos cristãos numa forma tripartida. Sendo assim, o Papa fala em miséria material, moral e espiritual. Miséria material equivalente às condições de vida inumanas impostas a imensos contingentes de homens e mulheres. Miséria moral, isto é, tornar-se escravo do vício e do pecado. Enfim, miséria espiritual enquanto afastamento de Deus e recusa do seu amor.

5. Tais níveis da miséria são simplesmente isolados? Não. Convivem conflitivamente no interior de conjunturas sociais e mais ainda, no íntimo da pessoa que gradualmente se desumaniza em consequência de inúmeros fatores internos e externos. Vai de encontro com a reflexão do Papa o propósito da Campanha da Fraternidade em curso, cujo tema é Fraternidade e tráfico humano, e o lema: É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1). Esse mal social tem por pano de fundo a miséria humana na sua vertente mais radical e selvagem. Com efeito, o imperativo máximo desta modalidade de tráfico é a instrumentalização da pessoa criada à imagem e semelhança de Deus.

6. Esta prática cruel desconsidera todo tipo de direito ou liberdade pessoal, além de absolutizar a tirania do homem sobre o próprio homem. Esse não é o projeto de Deus para humanidade. A liberdade concedida por Cristo em sua morte e ressurreição toca as fibras mais íntimas das relações humanas. Não se trata apenas da libertação do pecado enquanto realidade abstrata que não se pode tocar. Trata-se sim da libertação do mal encarnado em ações e situações que desfiguram a face de irmãos e irmãs nossos cotidianamente crucificados nos calvários da história.

7. Convido nossa Igreja Diocesana a ver a incidência do tráfico humano vigente no interior das comunidades. Não pensemos que tal situação de morte é patrimônio exclusivamente das grandes cidades ou dos países do terceiro mundo. Ao contrário, o tráfico humano ocorre muito perto de nós, configurando-se na pluralidade da opressão e da violência identificáveis tão constantemente entre as comunidades. Caminhamos para a Páscoa, a festa da vida e da libertação. Se ressuscitamos com Cristo pelo batismo, e é essa a nossa fé, vivamos pois como ressuscitados! Recordando as palavras do Papa Emérito Bento XVI, a ressurreição de Jesus Cristo “é um salto de qualidade na história da ‘evolução’ e da vida em geral para uma nova vida futura, para um mundo novo que, a começar de Cristo, incessantemente penetra já neste mundo, transforma-o e atrai-o a si” (Homilia na Vigília Pascal, Basílica Vaticana, 15 de abril de 2006).

8. Verdadeiramente, a “qualidade” de vida que emana da ressurreição do Senhor é antídoto contra as diferentes misérias presentes no ser e no existir do gênero humano. Aproveitemos a bendita hora da Páscoa, as celebrações litúrgicas, a Campanha da Fraternidade e a mística deste tempo sacrossanto para crescer em humanidade e nos apoderar do incalculável tesouro legado por Deus em seu Filho morto e ressuscitado: vida plena e abundante para todos! (cf. Jo 10,10).

Com meu abraço fraterno vão os votos de feliz e abençoada Páscoa, bem como a súplica para que Deus vos abençoe abundantemente!
Março de 2014 28/02/2014
Queridos irmãos e irmãs, na presente edição do Jornal Servindo desejo partilhar a carta-mensagem de estímulo à retomada dos serviços eclesiais no ano de 2014, enviada aos padres e coordenadores do CPP – Conselho de Pastoral Paroquial no dia 3 de fevereiro último. O entusiasmo à missão deve ser sentimento de todos os batizados, a fim de que se difunda o Evangelho e cresça o número dos que creem!

Queridos irmãos e irmãs;

“Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós, e sempre em todas as minhas súplicas oro por todos vós com alegria, pela vossa participação no Evangelho desde o primeiro dia até agora, e tenho plena certeza de que aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1,3-5).

1. Com vigor renovado e contagiada pelo entusiasmo cristão nossa Igreja diocesana recomeça suas atividades pastorais. Todo recomeço exige boa vontade e coragem daqueles que possuem o encargo de levar adiante a ordem do Cristo ressuscitado: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Nesta Igreja particular somos nós os responsáveis por manter viva e atualizar este imperativo de nosso Senhor. Trata-se, com certeza, de imperativo máximo a todo batizado, pois, conforme recordou Paulo VI, “evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na santa missa, que é o memorial da sua morte e gloriosa ressurreição” (Evangelii Nuntiandi, 14).

2. Ao clarão deste sábio ensinamento vos convido a concebermos a evangelização como meio, isto é, caminho aberto à configuração da humanidade segundo o querer amoroso e benevolente de Deus. Para isso, chamo a atenção para quatro aspectos fundamentais, preciosas balizas estratégicas destinadas a enriquecer a prática pastoral das comunidades dispersas pelo vasto território da Diocese de Campo Mourão neste ano de 2014.

3. 19º Plano da Ação Evangelizadora:

Todo Plano de Pastoral é guia mestra para a Igreja que o elaborou e se propôs acolhê-lo como paradigma prático. Digo isso porque não podemos ver no Plano mero resultado de reflexões colhidas no decorrer de um processo organizado. As diretrizes do Plano não são apenas propostas. É compromisso assumido pela Igreja diocesana. Por isso, faço votos que em 2014 intensifiquemos os esforços dispensados às três prioridades: Família, Juventude, Catequese. A fidelidade aos projetos adotados é questão de justiça perante o compromisso que fizemos como Igreja por ocasião do Jubileu de Ouro diocesano (2009-2010) e a consequente elaboração e aprovação do 19º Plano da Ação Evangelizadora.

4. O Ano da Fé:

O “Ano da Fé” (2012-2013) distinguiu-se pela celebração festiva do 50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II e do 20º aniversário de publicação do Catecismo da Igreja Católica. O Ano festivo terminou. A fé, porém, continua viva e exigente. Sendo assim, peço o empenho na formação dos leigos, sobretudo naquilo que diz respeito ao conhecimento da Palavra de Deus, da celebração e vivência da Liturgia, bem como à criatividade pastoral-evangelizadora.

5. Evangelii Gaudium:

A primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco veio carregada de novidade. Apresentou-nos a Igreja sob outro viés. Temos neste documento valiosa ferramenta destinada a purificar nosso “ver” eclesial a partir do confronto com os desafios cada vez mais urgentes postos pelo contexto atual. Insisto sobre a necessidade da leitura, reflexão e, à medida do possível, aplicação prática das orientações contidas neste documento. Não percamos a oportunidade que a Providência divina agora nos oferece.

6. Jornada Mundial da Juventude:

Ninguém discorda do impacto positivo causado pela Jornada Mundial da Juventude sobre a Igreja do Brasil. Todos são unânimes em ver nela sinal da ação de Deus a nos interpelar. Entretanto, não podemos ser empecilho a esta comunicação da graça. Precisamos buscar meios adequados que viabilizem a evangelização e a madura inserção dos jovens nos serviços eclesiais. Suplicando as luzes do Espírito Santo, não negligenciemos questão de tão alto significado para a Igreja no mundo de hoje.

7. Documento 104 – Comunidade de comunidades: uma nova paróquia

Este estudo da CNBB, em vias de aprovação na Assembleia Geral dos Bispos em 2014, é caminho aberto para a renovação tão desejada das estruturas eclesiais de evangelização. Sua proposta toca o cerne da Igreja enquanto instituição, pois versa sobre a atualização da “Paróquia” no sentido de dinamizá-la e convertê-la em domicílio de todos. Aproveitemos esse esforço por novidade a fim de sairmos do comodismo conformista que pauta suas ações no traiçoeiro critério do sempre foi assim...

8. Enfim, os quatro aspectos acima mencionados podem ser encarados como “pontos cardeais”, demarcação precisa dos níveis carentes de atenção por parte dos encarregados pelo pastoreio do Povo de Deus. Retomando o dito de Paulo aos Filipenses acima transcrito, reafirmo minha imensa gratidão ao Senhor pela vida de cada um, pela coragem e dedicação. Aproveito a oportunidade para reafirmar a certeza de minhas preces e a comunhão na qual pastores e ovelhas tornam-se “um só coração e uma só alma” (At 4,32).

Invocando a intercessão de Nossa Senhora Aparecida e de São José, suplico sobre vós e vossas comunidades a bênção do Deus rico em amor e misericórdia.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Fevereiro de 2014 31/01/2014
Queridos irmãos e irmãs,
paz e fé da parte de Deus nosso Pai e do seu Filho Jesus Cristo!

Chegamos ao ano de 2014! Que demonstração de amor o Pai nos oferece conservando nossa vida e nossa esperança até aqui! Os festejos de Natal nos trouxeram a memória do imenso Mistério da Encarnação do Filho de Deus. Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do Pai Eterno fez-se homem a fim de que a humanidade pudesse adentrar na vida divina. Maravilhado diante deste glorioso acontecimento, Santo Agostinho escreveu: “Tanto nos amou que por nós foi feito no tempo Aquele por quem foram feitos os tempos (...) Tanto nos amou que se fez homem o que fez o homem” (Sermão 188,2).

Pois bem, a recordação do nascimento humano do Filho de Deus veio refazer as forças da Igreja tendo em vista o prosseguimento da sua missão evangelizadora. Nós somos a Igreja! Nós, os batizados aos quais foi concedido o dom da fé cristã. Sendo assim, as celebrações natalinas, concluídas com a festa do Batismo do Senhor, quiseram falar ao coração de todos nós. Se realmente ouvimos a voz de Deus a confirmar nossa missão batismal, então estaremos suficientemente dispostos a dialogar com Deus que fala, mediante decidida resposta de fé.

As liturgias natalinas nos colocaram novamente ante a atitude dos pastores de Belém. Esta nos é entusiasticamente descrita por Lucas: “Quando os anjos se afastaram, voltando para o céu, os pastores disseram entre si: ‘Vamos a Belém ver este acontecimento que o Senhor nos revelou’. Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (2,15-16).

Os pastores ouviram o anúncio dos anjos a ressoar no alto do céu. Ouviram e transformaram o conhecimento proveniente da mensagem em atitude sincera do coração e da vida. Celebrando o Natal pudemos ouvir de novo a convocação de Deus em favor da salvação do gênero humano. Se Deus nos fala, façamos como os pastores. Transformemos em vida e ação aquilo que ressoa em nossa mente e coração. Temos um novo ano pela frente, repleto de atividades, serviços e desafios a enfrentar. O porvir reserva surpresas, guarda novidade e supõe o esforço de cada pessoa como condição fundamental à realização do projeto de Deus.

A Diocese de Campo Mourão adentra confiante em 2014, pois tem consciência da assistência divina na concretização da missão eclesial recebida do Senhor. Também eu, na qualidade de Bispo e pai espiritual desta porção do Povo de Deus, me sinto feliz, confiante e grato a Deus por sua inquebrável fidelidade ao gênero humano, permitindo que a história caminhasse até aqui. Com efeito, nosso Deus não é o deus do formalismo e da distância. Ao contrário, é o Pai que abraça seus filhos e filhas sem impor exigências dispendiosas. Deseja apenas que sigamos pelo caminho da vida, via cujo percurso corresponde ao modo de ser e viver reluzente em Cristo. Ele que disse de si: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Atentos à dinâmica proposta pelo tempo presente vos convido à inteligência da fé. Em que consiste isso? Consiste em sermos capazes de pensar a vida, a história e a missão evangelizadora segundo a real situação do momento histórico vivido. Significa compreender-se eclesialmente, ou seja, vencer particularismos egoístas que em nada contribuem para a edificação da Igreja e dos batizados. Nesse sentido, confirmo meu ardente desejo, a fim de que empenhemos forças na Animação Bíblica da Pastoral. Sejam multiplicados e fortalecidos os Grupos de Reflexão, as paróquias saibam aproveitar a riqueza oferecida pela Escola Bíblica Decanal sendo assíduas na participação e fiéis no repasse do conteúdo em nível paroquial.

Além disso, tenhamos bem claro as prioridades adotadas no 19º Plano da Ação Evangelizadora: Família, Juventude e Catequese. Contemplemos estes níveis do trabalho pastoral com seriedade e engajamento evangélico. Exorto também à valorização do curso de teologia oferecido pela Escola de Teologia Pastoral Pe. Yves Pouliquen. Leigos bem formados pastoral e teologicamente são lideranças valiosas ao aprimoramento da organização eclesial, tanto em nível diocesano quanto paroquial. Enfim, encorajo ao aprofundamento da fé professada em todas as dimensões. Quero aqui ressaltar a piedade popular, também citada pelo Papa Francisco como “maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 124). Em vista de fazer crescer a fé pela via da piedade, vos recomendo, queridos irmãos e irmãs, sejam visitados os santuários diocesanos: O Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, situado em Campo Mourão. O Santuário de Santa Rita de Cássia, em Barbosa Ferraz.

Ainda pela via da piedade popular, aproveitemos 2014 para difundir a devoção a São José, padroeiro da Diocese de Campo Mourão. Conforme observamos nas festas natalinas, José, o Justo, possui papel singular no plano salvífico-libertador de Deus plenificado em Cristo. Intensifiquemos as visitas à Catedral São José, ela que simboliza visível e palpavelmente a unidade da Igreja diocesana. Supliquemos a intercessão do glorioso São José em favor dos fiéis que procuram a Deus de coração sincera nesta querida Diocese. Confiemos a tão grandioso Santo, o clero, as religiosas, as famílias, os jovens, os sofredores... Todos os que se sentem honrados por trazer consigo o nome de “cristãos”.

Dentro em breve iniciaremos a Quaresma e a vivência da Campanha da Fraternidade. Este ano teremos por tema: “Fraternidade e Tráfico Humano”. O lema será: “É para liberdade que Cristo nos libertou”. Compreender o verdadeiro sentido da liberdade é pressuposto fundamental à valorização da ação redentora de Deus em favor do ser humano e ao reconhecimento mútuo da dignidade de cada homem e de cada mulher. A Páscoa do Senhor, cuja preparação é a finalidade da Quaresma, revela-se como a festa da liberdade, pois nela a morte foi vencida pela vida, o pecado foi superado pela salvação cumprida na Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Aproveitemos mais essa oportunidade oferecida por Deus, buscando o crescimento em direção aos autênticos valores cristãos e evangélicos. Sejamos sinceramente livres no “crer” e no “professar” a fé acreditada!

Com estas palavras de encorajamento vai meu abraço de pai e pastor, bem como os votos de feliz e abençoado ano de 2014!

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Dezembro de 2013 04/12/2013
Caríssimos irmãos e irmãs;


Que o amor do Cristo Jesus esteja convosco!

Chegamos ao mês de dezembro e com ele às portas do ano novo. Na festa de Cristo Rei, ocorrida em 24 de novembro, concluímos o ano litúrgico e a Igreja encerrou o “Ano da Fé”. Nossa Diocese escreveu uma página a mais em sua história, pois coroamos esse tempo de graça com um dia festivo, marcado pela celebração Eucarística, feira das pastorais e movimentos, confraternização e reflexão sobre o verdadeiro sentido do crer, do professar a fé e do viver a fé acreditada e professada.

O Advento é tempo de espera. Porém não se trata de uma espera marcada pela passividade, mas pela expectativa fiel em virtude do nascimento de Jesus Cristo. N’Ele temos a sublime novidade oferecida pelo Pai. Nascendo feito homem o Filho de Deus assume nossa carne, a fim de que mediante a fé, também nós nos façamos dispostos a abraçar seu amor como fonte de vida e salvação. É realmente verdadeira a palavra do Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (21,6). Sendo assim, experimentar o Advento em preparação à solenidade do Natal do Senhor é deixar-se encantar pelo novo que brota do Mistério de Deus.

O Evangelho é novidade constante. Embora a civilização se vanglorie em virtude do progresso tecnológico e científico cada vez mais visível e crescente na superação dos limites, a Verdade cristã permanece inabalável, pois alicerçada no amor Divino. Nesse sentido, é eloquente a expressão de Santo Agostinho ao dirigir-se a Deus: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!” (Confissões, X,27.38). O significado do Natal nos conduz a essa mesma conclusão. No Menino de Belém o Deus Eterno, cuja existência precede a história e desconhece origem, faz-se Humano no horizonte humano. O que era desde sempre torna-se novidade para toda a Criação, agora resgatada no amor.
Ao coração cristão, celebrar o Natal deve ser oportunidade para reconhecer o amor divino manifestado em Jesus Cristo. Fazendo-se homem, Cristo revelou ao mundo que Deus ama com coração humano, a fim de que aprendamos a amar com o coração de Deus. Olhando para o presépio somos convidados a contemplar nosso próprio ser e existência reclinados na manjedoura, trono do Deus feito carne e, na última ceia, feito pão para a salvação de todos. Com efeito, São Francisco de Assis, autor do primeiro presépio, viu na manjedoura uma antecipação do Mistério Eucarístico enquanto receptáculo do amor de Deus pelo ser humano.
Às portas do santo Natal, convoco nossa Igreja diocesana à intimidade com Deus no alento do amor. Com simplicidade e generosidade, busquemos nutrição no verdadeiro pão do céu. Pão que é vida, pão que é força, pão que é o próprio Cristo Jesus, outrora reclinado na manjedoura de Belém, agora elevado sobre os nossos altares. Como Bispo e Pastor desejo frutuosas celebrações natalinas a todos, mais ainda, faço votos para que reclinados junto ao Menino Deus façamos a experiência do Bom Pastor que nos conduz às águas tranquilas e por caminhos justos (cf. Sl 22,2-3).

Além disso, desejo externar sincera gratidão a todos e a cada um particular. Às crianças, cuja pureza conserva em nossas comunidades a feição cristã mais original. Aos jovens, parcela tão querida e vitalizante da Igreja. No ano em que celebramos a Jornada Mundial da Juventude o Brasil pode afirmar com renovada convicção o valioso lugar da juventude no coração eclesial. Aos casais, pais e mães de família. Meu reconhecimento em virtude da sua cooperação no plano criador de Deus. Gerando vida vocês estão levando adiante a fecundidade impressa pelo Altíssimo na origem do mundo. A família, Igreja doméstica, é escola de humanidade e santidade. Não temais fazer valer vossa vocação. Não tendes medo de te tornares o que és: guardião, reveladora e comunicadora do amor! (cf. Familiaris Consortio, 17).

Igual saudação amiga e fraterna envio aos idosos, cuja experiência é atestado de constância na fé. Em vossa vida reluz a esperança e a fidelidade à promessa de salvação oferecida em Cristo. Continuai rezando em favor da Igreja e das novas gerações continuamente expostas às dificuldades do tempo presente.
Agradeço de forma muito especial aos agentes de pastorais e movimentos, bem como aos animadores de comunidades. Leigos e leigas fiéis à espiritualidade de Pentecostes, ou seja, imbuídos da coragem e valentia típicas do coração convertido. Rezo cotidianamente por vós todos, por vossas famílias e por vossas necessidades. O Senhor há de recompensar infinitamente o amor demonstrado à sua Igreja!

Aos educadores e estudantes, minha cordial saudação. Que o processo de transmissão e recepção do conhecimento os aproxime cada vez mais de Jesus Cristo, fonte de toda sabedoria (cf. 1Cor 1-2). Aos empresários e às autoridades civis e militares auspicio um Natal fecundo espiritualmente. Que a simplicidade do Presépio os faça cada vez mais sensíveis e condescendentes com os marginalizados da hora presente. A estes, doentes, sofredores, pobres e desamparados quero fazer chegar um abraço especial. Abraço de misericórdia, de apoio e certeza do meu carinho enquanto irmão na fé e bispo diocesano. Neles Cristo é servido, amado e reconhecido por nós.

Enfim, peço que contemplem nestas palavras todo meu afeto e comunhão na única fé professada por nós. Que o ano de 2014 seja repleto de graças e nos faça cada vez mais sensíveis ao amor divino, cuja luz resplendente em Belém continua a refulgir na existência de cada batizado!
Feliz e santo Natal a todos! Que o ano de 2014 seja abençoado, próspero e pleno do amor de Deus!

+ Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Outubro de 2013 30/09/2013
Caríssimos irmãos e irmãs;
Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente!
Estamos no mês de outubro, mês rico em significado para a Igreja presente no Brasil. Com efeito, no dia 12 de outubro celebramos a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira da nossa Pátria. Esta festa tão querida ao povo brasileiro reveste os dias deste mês com a cor da ternura reluzente na vida e personalidade da Virgem Maria, a doce Mãe do Redentor. Além disso, outubro é igualmente compreendido e aceito como mês do Rosário. O Papa Pio XII, com piedosa intuição afirmou: “O Santo Rosário é o compêndio de todo o Evangelho. Quem conhece o Evangelho, conhece a vida de Jesus e de Maria, conhece o próprio caminho que conduz ao destino eterno”.
João Paulo II, por sua vez, dedicou a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae (16/10/2002) à teologia e ao significado do Rosário para os cristãos. João XXIII recomendou insistentemente que a Igreja inteira rezasse o Rosário nos anos que precederam o Concílio Vaticano II, suplicando a proteção materna de Maria sobre acontecimento de tão alto valor para a o cristianismo católico.
Leão XIII, também conhecido como Papa do Rosário, dedicou dez Cartas Encíclicas à finalidade de explicar a importância e motivar a prática desta piedosa oração. Pois bem, diante destas rápidas informações percebemos o seguinte: o Rosário da Virgem Maria toca as mais íntimas fibras da espiritualidade cristã. Trata-se de uma oração rezada pelo Papa, pelos bispos e sacerdotes, pelos leigos, crianças, jovens e idosos... Enfim, por todos os cristãos que se sentem necessitados do auxílio da Mãe querida, Mãe que em Cristo, dela nascido, nos traz a Graça por excelência.
Meus queridos irmãos e irmãs, convencido da importância desempenhada pela oração na vida dos batizados, vos convido a regressarmos à fé dos nossos antepassados. Esforcemo-nos por rezar o terço diariamente, sobretudo em família. Não lancemos ao segundo plano aquilo que é primordial em nossa vida.
Oração é sinônimo de comunhão com Deus. Rezando o terço da Virgem Maria estamos meditando os Mistérios de Jesus Cristo, por isso definirmos o Rosário como “Compêndio do Evangelho”. Repetindo o Pai Nosso e a Ave Maria, damos mostras de nossa perseverança no diálogo com Deus. Além disso, repetindo as palavras da Igreja unimo-nos aos cristãos de todos os tempos e lugares servindo-nos da mesma fé que os animou e continua a nutrir na caminhada rumo ao céu.
Portanto, é maduro afirmar que a oração nos capacita à verdadeira vocação cristã. Deste modo, chegamos a outro tema abordado e refletido pela Igreja no Brasil durante o mês de outubro: a missionariedade da Igreja. Pelo batismo somos constituídos missionários de Jesus Cristo. Ser missionário é, primeiramente, confiar-se à pessoa de Cristo, o Missionário do Pai. Aquele que se faz capaz de dar esse passo é também o cristão que se mostra apto a descer na noite da sociedade confusa e descrente, sem ser invadido pelas trevas da descrença e perder-se no turbilhão da confusão.
Ser missionário no tempo presente é fazer-se “Bom Samaritano”. É penetrar a medula social a fim de reconstruir as quebraduras operadas pela negação de Deus e a consequente destruição da esperança que só o cristianismo tem para oferecer. Recentemente, quando de sua visita ao Brasil, o Papa Francisco falando aos Bispos brasileiros tocou num assunto sério o suficiente para nos despertar à reavaliação do nosso espírito e disposição missionários. Falou-nos o Papa sobre a situação da Igreja na Amazônia. Ecoa-me ainda à consciência o seguinte apelo seu: “Nisto lhes peço, por favor, que sejam corajosos, que tenham parresia (destemor)”!
Pois bem, vivenciamos o mês missionário, por isso insisto uma vez mais: construamos tal vivência à luz da oração! Só a oração poderá nos preparar suficientemente para a valorização e a necessidade do anúncio evangélico ainda em nosso tempo. Consequentemente seremos mais generosos com tudo aquilo que implique a missionariedade da Igreja: consciência missionária cristã, orações em prol da difusão do Evangelho e da multiplicação das vocações sacerdotais e religiosas, coletas em prol da evangelização... Enfim, seremos cristãos de fato vivendo a missão por inteiro!
Por intercessão de Maria, Senhora Aparecida, rogo sobre todos vós, queridos filhos e filhas, a bênção de Deus em abundância!

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Setembro de 2013 01/09/2013
Queridos irmãos e irmãs;
A paz esteja com todos vocês!
Chegamos ao mês de setembro, tradicionalmente dedicado ao estudo, oração e contemplação da Palavra de Deus com maior intensidade. Palavra que se revela na história e se faz história na vida e na existência pessoal de cada ser humano. Palavra transformadora, surpreendente e fonte de questionamentos para o aprimoramento da vocação cristã dos batizados. Deus continua falando à sua Igreja através dos sinais dos tempos apresentados à sensibilidade do coração eclesial. Nos últimos dias o Brasil pode ouvir o brado de Deus falando-lhe muito diretamente à consciência. A presença do Papa Francisco e a Jornada Mundial da Juventude são provas incontestáveis da voz divina a despertar nosso ânimo para a corajosa e autêntica adesão ao projeto salvífico-libertador do Pai anunciado em Cristo.
O Papa Francisco se destaca por sua personalidade profética traduzida em gestos de simplicidade e calor humano. Consequentemente, seu modo de interpretar a realidade torna-se facilmente compreensível e assimilável pelos ouvintes. O Papa fala a linguagem universal, servindo-se da atual condição humana como parâmetro para a reflexão. Sendo assim, desejo partilhar com vocês, queridos irmãos e irmãs, alguns aspectos cruciais apontados por Francisco como caminho de crescimento para a Igreja do presente.
A reflexão do Papa se apoia primeiramente na origem divina da vocação recebida de Deus. O cristão jamais pode perder de vista que sua vocação/missão é um tesouro concedido por Deus. Tal consciência preserva e reativa em nós a identidade propriamente cristã em seu caráter mais essencial. Se Deus é o protagonista da vocação por nós recebida, então não estamos aqui para fazer o que queremos. Não somos árbitros de nós mesmos! Somos Igreja, portanto, enviados a fazer a vontade do Pai revelada pelo Filho na força do Espírito Santo. Deste modo, ser Igreja autenticamente é exercitar a humildade, deslocando o foco de si mesmo em direção à comunhão no amor e na esperança. Sobre isso o Papa Francisco ressaltou na Carta Encíclica Lumen Fidei: “O crente é transformado pelo amor, ao qual se abriu na fé; e, na sua abertura a este amor que é oferecido, a sua existência dilata-se para além dele próprio” (LF 21).
Confiar em Deus e saber que Sua vontade é o critério norteador da prática eclesial converte o cristão em pessoa corajosa. De fato, em seus discursos o Papa insistiu a fim de que tenhamos coragem para acolher as mudanças exigidas pelo “hoje” da história. Sobretudo, aquelas transformações relativas ao abandono de estruturas ultrapassadas e outros apegos, obstáculos danosos ao progresso da mensagem cristã e à sadia maturidade humana frente a Verdade de Jesus Cristo. Observando com atenção o conjunto das palavras e posicionamentos de Francisco, podemos discernir algumas dimensões basilares sobre as quais devem recair as mudanças necessárias e desejadas.
Trata-se, sem dúvida, da revitalização do espírito missionário eclesial. Falando aos bispos brasileiros o Papa citou por diversas vezes a Amazônia como campo de missão a interpelar as estruturas da Igreja no Brasil. O espírito missionário pressupõe atitude de pobreza, despojamento e simplicidade. Torna-se urgente o retorno às origens da fé cristã, quando o fervor e o testemunho se impunham como patrimônio mais duradouro que qualquer riqueza temporal. Por conseguinte, a Igreja em sua totalidade se fará mais sensível às reais necessidades do homem e da mulher atuais. Converter-se-á em peregrina pelas periferias da existência. Periferia compreendida nas mais diversas significações do conceito: periferia material, existencial e espiritual.
Assim compreendida a missão da Igreja, Francisco nos orienta à criação da cultura do encontro e da valorização do diálogo. Essa perspectiva de humanização das fibras eclesiais passa primeiramente pelo coração de cada cristão. O apelo do Papa adquirirá consistência histórica à medida que abrirmos o coração ao amor de Deus e nos convencermos do seguinte: a Igreja é mãe, por isso deve apresentar-se ao mundo sob a face da misericórdia e da solidariedade. Misericórdia e solidariedade são duas balizas interpretativas da eclesiologia subjacente ao modo de ser do Papa Francisco. A maternidade da Igreja se faz credível e aceitável quando seus filhos trazem consigo, em suas palavras e ações, a essência do ser de sua mãe.
Por fim, esse caminho proposto pelo querido Papa confere grande responsabilidade aos pastores, responsáveis pela condução do Povo de Deus. Realmente, discursando aos bispos ele lembrou o seguinte: “a formação é algo que não se pode delegar”. Os pastores devem permanecer em vigilância sobre o rebanho. O rebanho, por sua vez, precisa sentir continuamente o zelo do pastor e, confiante, prosseguir unido a ele a caminhada feliz rumo ao dia bendito no qual “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).
Meus irmãos e irmãs muito amados, a visita do Papa ao Brasil se impõe como precioso presente de Deus ao nosso povo tão fervoroso e católico. É, igualmente, sábia catequese aos que desejam percorrer o caminho da vida com os olhos fixos em Jesus (Hb 12,2). Abramo-nos, pois, ao amor derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5), despertando nossa consciência para podermos discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito (Rm 12,2).
Por intercessão de Nossa Senhora Aparecida e de São José, graça, paz e bênção vos sejam concedidas abundantemente!

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Agosto de 2013 31/07/2013
Queridos irmãos e irmãs;
Graça e paz!
No mês de agosto somos convidados a refletir sobre a vocação. Vocação que se manifesta em diversas condições de vida, ou seja, vocação sacerdotal, familiar, religiosa e leiga. Motivado por tema tão interessante e intrínseco à própria Igreja e, além disso, tendo completado 37 anos de vida sacerdotal no último dia 3 de julho, quero partilhar com todos vocês, meus queridos diocesanos, este dom maravilhoso de sentir-se chamado por Deus para missão tão sublime e nobre: o sacerdócio ministerial. Com sentimentos de profunda e sincera gratidão a Deus dirijo a Ele ações de graças por “olhar em mim e me chamar para formar parte dos seus amigos escolhidos, amados e enviados”.
Em verdade sou profundamente grato ao Senhor pela vida e pela vocação ao sacerdócio ministerial. Está muito presente em mim o olhar de Deus que vem a meu encontro e me faz ouvir d’Ele esta maravilhosa palavra: “Eu te escolhi!” Meu coração se enche de luz ao contemplar a cruz e ouvir a voz do Senhor a me dizer: “Fica comigo”. Palavras assim me fazem compreender que ser vocacionado por Ele passa pela experiência da simplicidade da vida no dia a dia, aceitando-a como ela se apresenta.
No íntimo de meu ser eu experimento a seguinte certeza: valeu e vale a pena responder ao chamado e com confiança se entregar a este Deus que nos chama para caminhar com Ele. Ao completar 37 anos de vida sacerdotal me sinto muito feliz e posso afirmar com incontestável segurança: “eu sei em quem depositei a minha esperança”. Com júbilo reconheço o valor imenso que é ter respondido ao chamado de Deus e no decurso da vida ter experimentado abundantemente seu amor de pai e mãe! Por tudo isso, elevo a Ele um hino de louvor e ação de graças que traduz o sentimento do coração diante deste admirável dom:
Graças Senhor, pela criação, sabedoria, grandeza e bondade;
Graças Senhor, pela vida;
Graças Senhor, pelas pessoas que passaram e irão passar pela minha vida;
Graças Senhor, pelas minhas fraquezas e limitações (elas me ajudaram a crescer e a reconhecer minha verdade);
Graças Senhor, pelos dons maravilhosos colocados em mim (através deles pude servir melhor);
Graças Senhor, pela caminhada que me permitiu percorrer... Em todas elas senti Tua presença, Senhor, em todas elas sempre procurei ser Teu instrumento e a Tua fidelidade nunca me abandonou; por isso faço minhas as palavras do sábio, autor do livro da Sabedoria, que logo ao contemplar a presença e a ação de Deus ao longo da caminhada do Povo de Deus, escreve: “Sim, ó Senhor! De todos os modos engrandecestes e tornastes glorioso o teu povo. Nunca, em nenhum lugar, deixaste de olhar por ele e de o socorrer”. Este é o nosso Deus, o meu Senhor. Hoje, aos 37 anos de Ordenação Presbiteral, renovo com alegria, minha promessa de continuar seguindo e servindo a este Deus no exercício do ministério episcopal, pelos caminhos por onde Ele quiser...; Graças Senhor, por Maria, Mãe e Amiga de todos nós;
Graças, ó Maria, porque através do teu exemplo aprendemos a estar sempre atentos e abertos para a ação de Deus, para dizermos no momento certo o nosso SIM; sabermos GUARDAR TUDO NO CORAÇÃO, olhando a vida e os acontecimentos com olhar de fé numa atitude contemplativa e comprometida; ouvindo sempre seu maternal pedido: “FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER” (Jo 2,5), e caminhar com segurança e confiança em companhia de teu filho Jesus.
Para a maior glória de Deus encerro minhas palavras motivando a todos, para que vivam intensa e autenticamente sua vocação segundo a Verdade do Evangelho. Por isso, suplico com sinceridade: “Senhor Deus, que todo o meu ser expresse a Tua presença e vontade e que na intimidade e amizade contigo, escute e atenda sempre os apelos de meus irmãos, para que possa levar a todos a alegria e a esperança que vem de Vós. Amém!”
Por intercessão de Nossa Senhora Aparecida e de São José, Deus vos abençoe abundantemente.


+ Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Pedro e Paulo: dois modelos de evangelização 01/07/2013
Queridos irmãos e irmãs;
Graça e paz vos sejam dadas abundantemente!

Durante o mês de junho diversas comunidades da nossa Diocese vivenciaram momentos festivos na comemoração do seu padroeiro. Santo Antônio, São João Batista e São Pedro integram fortemente a religiosidade popular, gozando da simpatia e da devoção do povo. Sendo assim, tenho por propósito falar nesta edição, embora sucintamente, a respeito dos Apóstolos Pedro e Paulo, celebrados no dia 29 de junho. Quero partilhar convosco a importante pedagogia evangelizadora que podemos concluir a partir do testemunho missionário legado pelos dois Apóstolos.
Pedro, primeiro entre os demais seguidores de Jesus, nos mostra a evangelização na linha da continuidade. Com efeito, desde o dia de Pentecostes (At 2,1-13), reinterpreta o “evento Jesus Cristo” à luz das antigas profecias guardadas pelo patrimônio religioso do povo judeu. Se repassarmos os discursos de Pedro nos Atos dos Apóstolos, veremos que os mesmos se abrem com as seguintes expressões ou parecidas: “Homens da Judéia e todos vós, habitantes de Jerusalém...” (At 2,14); “Homens de Israel...” (At 3,12). Pois bem, olhando para a figura de Pedro no conjunto do processo evangelizador do cristianismo primitivo, vemos um modelo de evangelização sensível à Palavra de Deus gradualmente revelada na história.
Tal sensibilidade se expressa num paradigma missionário apto a compreender a revelação de Deus na história humana segundo a ótica da totalidade. A figura de Pedro nos indica a necessidade de pensarmos com atenção a realidade dos nossos círculos eclesiais. Pedro ensina a importância da avaliação no processo evangelizador, pois à luz da graça espiritual concedida por Jesus Cristo, foi capaz de dar forças à comunidade primitiva, encaminhando-a para a coesão proveniente da organização.
Deste modo, podemos ver em Pedro traços de uma evangelização organizada e atenta ao desafio de manter a identidade tipicamente cristã. Mediante sua ação apostólica Pedro dá mostras da “eclesiologia de comunhão”. Eclesiologia pautada no diálogo, na participação e na identidade cristã. De fato, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos, é Pedro quem admite os primeiros pagãos e legitima sua entrada na comunidade. Esse é o significado do batismo de Cornélio e de sua família narrado em At 10. Tradicionalmente, destacou-se a dimensão institucional de Pedro. Revendo com atenção os textos do Novo Testamento a seu respeito, veremos a imagem do Apóstolo evangelizador, comprometido com o Evangelho e dedicado à conservação da identidade própria dos seguidores de Jesus Cristo.
Paulo, por sua vez, comumente denominado “Apóstolo dos Gentios”, não raras vezes foi concebido até mesmo em oposição a Pedro. Esse modo de compreender os dois apóstolos é incompleto e superficial. Paulo, convertido do farisaísmo judaico (At 9), tornou-se Apóstolo de Jesus Cristo. Se podemos ver na práxis evangelizadora de Pedro traços de continuidade com a antiga fé dos judeus, particularmente na vertente profética, em Paulo temos forte inclinação ecumênica. Paulo é ecumênico enquanto compreende a mensagem cristã sob o prisma da universalidade. Desta compreensão adveio sua consciência da pregação aos pagãos.
Percorrendo as pegadas de Paulo veremos a perspicácia do missionário imbuído pelo desejo de fazer chegar a mensagem evangélica. O Apóstolo busca construir seus discursos a partir de elementos próprios da vida e da cultura dos interlocutores (At 17,22-34). Entra nas cidades, reside com seus habitantes (At 18,1-11), toma parte no seu cotidiano, envolve outras pessoas na evangelização. Essa pedagogia dá a Paulo oportunidades várias para evangelizar. Seu modelo oferece mostras da pastoral orgânica e de conjunto, na qual todos os batizados são co-responsáveis pelo anúncio do Evangelho.
Paulo também é pioneiro no uso das “novas linguagens” na transmissão da fé. Seu carisma o fez lançar mão das mais diversas possibilidades, contanto que Jesus Cristo seja conhecido e acreditado. O Apóstolo dos Gentios é, igualmente, o Apóstolo da universalidade eclesial. Todo ser humano é destinado à salvação, por isso, é preciso ir ao encontro da humanidade na pluralidade da sua condição. Para Paulo a Igreja é católica, ou seja, destinada a se espalhar e se fazer presente em todos os recantos do mundo. A universalidade da Igreja tem tudo a ver com a verdade presente em sua mensagem. Verdade guardada pela Tradição, conforme recorda o próprio Apóstolo aos coríntios: “Com efeito, eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti...” (1Cor 11,23).
A variedade da ação evangelizadora de Pedro e Paulo encontra unidade no conteúdo da sua pregação: Jesus Cristo, morto e ressuscitado para a salvação do mundo. Aprendamos com estas duas colunas da Igreja a sermos criativos na pastoral, atentos aos sinais dos tempos e responsáveis pela missão recebida no batismo. Concluo minha reflexão com as belas palavras da Igreja proferidas no prefácio da Missa solene de São Pedro e São Paulo: “Hoje, vós nos concedeis a alegria de festejar os Apóstolos São Pedro e São Paulo. Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, igual veneração”. Que o exemplo e a intercessão dos dois gloriosos Apóstolos nos impulsionem ao verdadeiro ser cristão!

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Junho de 2013 31/05/2013
Queridos irmãos e irmãs
Graça e paz!


1. Na edição de junho do nosso jornal diocesano desejo partilhar convosco alguns aspectos essenciais relativos à solenidade de Corpus Christi, este ano celebrada em 30 de maio. Historicamente tal solenidade litúrgica remonta ao séc. XIII, quando se fortaleceu significativamente a devoção popular ao Mistério Eucarístico. Sabemos ser na Bélgica os primeiros movimentos em prol desta solenidade. Foi na Diocese de Liège que tudo começou a partir da experiência vivida pela freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon. Sua marcante piedade eucarística revestida pela mística da revelação a fez sugerir ao Papa Urbano IV, seu antigo confessor, a instituição de uma festa anual com a finalidade de a Igreja manifestar publicamente sua fé na presença real de Jesus Cristo no pão e vinho consagrados. O Papa atendeu a seu pedido em 11 de agosto de 1264, instituindo a solenidade de Corpus Christi através da Bula Transiturus de hoc mundo. A influência da devoção popular sobre a decisão de Urbano IV foi importante, mas não absoluta. No séc. XIII surgiram várias tendências teológicas e filosóficas questionando a forma e a veracidade da presença eucarística do Senhor. Entre os adeptos de tais correntes destaca-se o teólogo francês Berengário de Tours (1000-1088). Sendo assim, a celebração de Corpus Christi assume também a função de profissão de fé no Santíssimo Sacramento do altar.

2. O breve informe histórico nos aponta o cerne do significado espiritual da comemoração litúrgica. Trata-se, sem sombra de dúvida, da unidade eclesial evidente na comunhão radicada na mesma fé. Vários elementos da Missa e da Procissão confirmam a solenidade de Corpus Christi como manifestação da unidade da Igreja. Em primeiro lugar a Santa Missa em si mesma já é a mostra por excelência da congregação dos fiéis ao redor do mesmo altar, recebendo igual sacramento em virtude da única fé professada. A “quinta-feira” como marco temporal para a celebração faz-nos regressar ao cenáculo de Jerusalém no entardecer da Quinta-Feira Santa. Em Corpus Christi a Igreja nos oferece uma chave de leitura para os acontecimentos que abrem o Tríduo Pascal, apresentando-se como porta espiritual ao Mistério da Redenção humana em Jesus Cristo. Na quinta-feira de Corpus Christi a comunidade, “num só coração e numa só alma” (At 4,32) é chamada a contemplar, sob o prisma da unidade, o Sacramento Eucarístico instituído durante a Ceia derradeira. É igualmente chamada a recordar e conceber o mandamento do amor fraterno como ambiente vital do autêntico “ser Igreja”.

3. A procissão realizada após a Santa Missa possui, na riqueza dos detalhes, valioso patrimônio catequético para o aprimoramento do nosso amor e pertença à Igreja compreendida como comunidade dos filhos de Deus. Na procissão somos precedidos pela hóstia consagrada disposta no ostensório. Em sua grande maioria os ostensórios possuem a forma do sol, estrela de primeira grandeza e fonte de luz e calor para os demais corpos celestes da Via Láctea. No centro está a hóstia consagrada, da qual partem os raios apontando para diversas direções. Analogia perfeitamente acertada com o Mistério da Fé! Em Lc 1,78-79 lemos Zacarias exclamar: “Graças ao misericordioso coração do nosso Deus, o sol que nasce do alto nos visitará, para iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte”. Em Lc 2,32 Simeão define Jesus como “Luz para iluminar as nações e glória do teu povo, Israel”. Jo 1,9 diz: “(Jesus) é a luz verdadeira a iluminar todo homem vindo ao mundo”. Conforme percebemos, o Novo Testamento nos dá o sentido perfeito daquilo que nossos olhos contemplam pelas ruas das cidades na data de Corpus Christi. Assim como os raios do sol tocam e vivificam todo o criado, também Jesus Cristo, mediante a fé dos crentes, preenche e dá vida à história humana em sua totalidade!

4. Os tapetes pelo chão evocam o caráter itinerante da vida cristã segundo a significação dada pela Carta aos Hebreus: “Não temos aqui cidade permanente, mas estamos à procura daquela que está para vir”. O cristão é alguém orientado para a Jerusalém celeste onde “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28). Se perdemos essa perspectiva de futuro nossa fé comunional se esvazia, reduzindo-se a uma organização filantrópica preocupada simplesmente com as necessidades imediatas do gênero humano. Não, o cristianismo não pode se autocompreender assim, pois consciente de viver na tensão do “agora, mas ainda não” do Reino. O Reino já está entre nós, no entanto, sua realidade ultrapassa o que dele agora conhecemos! Pois bem, os tapetes recordam isso: a expectativa do amanhã anunciada em Jesus Cristo. Outrora os filhos dos hebreus enfeitaram as ruas da antiga Jerusalém para acolher o Messias esperado (Mt 11,8-11). Hoje a Igreja, novo povo de Deus, repete este mesmo gesto para proclamar a fé no Crucificado-Ressuscitado. As muitas mãos empenhadas na decoração das vias formam a única “mão” da Igreja dedicada a preparar o caminho para seu divino esposo!

5. A pluralidade dos fiéis harmonizados num só povo marchando atrás do Senhor é imagem perfeita da unidade eclesial manifestada na comunhão. Observemos a beleza deste momento: nele as gerações se fundem, as origens se mesclam e a diversidade cotidiana cede lugar à extraordinária unanimidade constituinte da comunidade fiel. Deste modo, torna-se necessário considerarmos seriamente a importância da vida comunitária, buscando experimentá-la cada vez mais em nossas paróquias, grupos, movimentos e pastorais. Se não agirmos assim, além de negligenciar um aspecto basilar da fé, seremos traidores de nós mesmos enquanto passíveis de contradição. Dito de outra forma: por que ingresso visivelmente na Igreja, comunhão evidente em Corpus Christi, se dela não tomo parte no dia-a-dia da comunidade? Queridos irmãos e irmãs, esse questionamento é a baliza destinada a nos transformar em cristãos autênticos e constantes na fé. Respondendo-o poderemos concluir o seguinte: o significado da procissão de Corpus Christi se prolonga toda vez que, na simplicidade da comunidade partilhamos a fé, a vida e a esperança! Corpus Christi se estende no Grupo Bíblico de Reflexão, nas atividades dos movimentos e pastorais, na caridade cristã praticada, no serviço da evangelização... numa palavra: a solenidade de Corpus Christi ecoa onde a presença eucarística do Senhor passa a ser contemplada, amada e respeitada na presença existencial de cada pessoa humana criada à imagem de Deus (Gn 1,26).

6. Se nossa vida é caminho rumo à cidade celeste e a procissão de Corpus Christi materializa essa expectativa humana, então podemos concluir o seguinte: a nova Jerusalém é antecipada na humildade do pão consagrado! Antecipemos também em nossa existência e em nosso relacionamento com o semelhante a comunhão perfeita que nos espera no céu!

Sob a intercessão da Virgem Maria e de São José, invoco sobre vós a bênção divina em abundância!


+ Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Palavra do Bispo - mês de maio 30/04/2013
Queridos irmãos e irmãs,
Graça e paz!
O mês de maio nos desperta à contemplação de uma das figuras estelares na história da fé cristã. Trata-se da Santíssima Virgem Maria, mãe de Deus e serva obediente à vontade do Senhor.Desde seus primórdios o cristianismo acolheu a presença materna de Maria como prolongamento e confirmação do próprio “estar” de Jesus Cristo na Igreja. Com efeito, a pessoa da Virgem de Nazaré é prova real e sinal visível do amor divino pela humanidade. Maria aponta para a historicidade de Jesus, enquantoatesta concretamente a vizinhançaentre Deus e o ser humano! Jesus Cristo, dela nascido é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, por isso, olhando para Maria somos chamados, primeiramente a meditar o real significado da redenção reluzente no Natal do Senhor.
Se Maria nos instrui sobre verdade tão fundamental professada em nossa fé, podemos colher então a firme destinação catequética da sua vida.Reflitamossobre o “Sim” dado ao anjo Gabriel na Anunciação. Inicialmente, convém destacar que o consentimento da Virgem de Nazaré sintetiza a expectativa milenar do Antigo Testamento relativa ao Messias libertador.Este “Sim” ultrapassa o nível do puro consentimento, atingindo a estatura de Profissão de Fé. Maria faz parte da comunidade crente sustentada pela antiga promessa divina de salvação. Deste modo, seu “Sim” é sinônimo de “eu creio!”. Crer operativo capaz de penetrar a circunstância vivida tocando-lhe a verdade mais elementar. Crer inteligente e instrutivo, apto a convencer Maria sobre a chegada “da plenitude dos tempos” (Hb 1,1). Crer obediente, orientado para a confiança total na vontade salvífico-libertadora de Deus revelada no envio do Filho Unigênito. Com efeito, “Deus não enviou o Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17).
Assim concebida, a missão de Jesus descrita pelo anjo Gabriel a José inclui o “Sim” de Maria no Mistério da Salvação. Disse-lhe o anjo em sonho: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). Salvar aqui é sinônimo de resgatar, ou seja, reerguer a criação outrora manchada pela culpa dos primeiros pais, Adão e Eva. O menino de Belém, nascido da Santa Virgem abriu para o gênero humano o caminho de regresso ao convívio com Deus.Relendo com a gramática da fé as páginas desta história, nos convenceremos do seguinte: se a vida de Jesus é caminho do regresso humano à felicidade perfeita na vida divina, então o “Sim” de Maria é o portal de ingresso nesta vereda espiritual!
Esse belo simbolismo referente a verdade tão elevada comprova o diálogo entre criador e criatura no projeto da salvação. Maria nos põe em contato com a misericórdia de Deus, que na pessoa de Jesus Cristo partiu em marcha rumo ao semblante humano curvado sobre seu próprio “eu”. “Eu”distante da verdade por causa do pecado, ausente, emudecido e incapaz de dar à vida rumo decisivo. Quando, ao recitar a venerável oração da Ave-Maria dizemos: “bendito é o fruto do teu ventre, Jesus”, nosso “eu” mais íntimo proclama a alegria da libertação. Aquele que nasceu de Maria nos aproxima da Verdade convertendo-nos em presença ativa na comunidade dos filhos e filhas de Deus. Abre-nos os lábios à proclamação dos louvores do Altíssimo que nos chamou das trevas à sua luz admirável (1Pd 2,9), e destrói o egoísmo dando à vida direção e sentido absolutos.
A profissão de fé reluzente no “Sim” da Virgem continua a ecoar na voz da Igreja. O Concílio Vaticano II apregoou esta convicção mediante a proverbial expressão: “A Mãe de Deus é figura da Igreja pela fé, pelo amor e pela perfeita união a Cristo” (Lumen Gentium, 63). Diz ainda: “A Igreja, contemplando a misteriosa santidade de Maria, imitando-lhe a caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai a partir da fiel acolhida da Palavra de Deus, torna-se igualmente mãe: pela pregação e pelo batismo, gera para a vida nova os filhos que nascem de Deus, concebidos pelo Espírito Santo” (Lumen Gentium, 64).Na celebração do “Ano da Fé”,o catequético exemplo de Maria refulge com clareza ainda maior! Ele nos inspira no aprimoramento do “ser Igreja”.Impulsiona-nosao discernimento do que “é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,2) perante Deus. Antecipa ao coração fiel a alegria proveniente da fé alicerçada na esperança que não decepciona (Rm 5,5).
Tomado pela alegria típica dos crentes (Lc 1,45)trago no coração e na mente as importantes experiências vividas e reflexões elaboradas pelos bispos do Brasil reunidos na 51ª Assembleia Geral da CNBB.Em primeiro lugar, foi muito bom ver mais de trezentos bispos reunidos em Aparecida para pensar o seguinte o tema: “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia”. Sem sombra de dúvida, trata-se de urgência fundamental ao desenvolvimento da vida eclesial em nosso país. Além do tema central, discutimos e nos inteiramos acerca de dimensõesatualmente calorosas, dentre as quais estão: Diretório para a Comunicação da Igreja no Brasil, a questão agrária e a Jornada Mundial da Juventude.
Entre os participantes respirava-se um clima de contentamento e gratidão a Deus pela eleição do Papa Francisco. Realmente, desde o início do pontificado tem se esforçado por uma Igreja do diálogo e do serviço aos empobrecidos. Somou-se a isso o carisma especial do Sr. Núncio Apostólico no Brasil, Dom Giovanni D’Aniello. Seu caráter acessível e pastoral contribuiu determinantemente para que a 51ª Assembleia Geral experimentasse a renovada alegria reluzente no Senhor Ressuscitado! Em nome de todos vocês, meus irmãos e irmãs, participei deste acontecimento tão especial para nossa Igreja.A diocese de Campo Mourão é mais uma flor no vasto e colorido jardim da Igreja Católica presente no Brasil! Como é bom sentir-se parte desta família que tem Deus por origem e a salvação por meta!
Aproveito a oportunidade para vos exortar à frutuosa vivência da espiritualidade mariana durante o mês de maio. Intensifiquemos as práticas de piedade, dentre as quais o Santo Rosário se destaca com veemência. Meditemos dedicadamente a Palavra de Deus, conservando no coração o valor dos divinos ensinamentos. Finalmente, invoquemos com fervor a intercessão de Nossa Senhora, ela “que teve nos seus braços a misericórdia de Deus feito homem” (Papa Francisco, Ângelus, 17/03/2013). Como Maria, ofereçamos a misericórdia divina ao mundo através do nosso modo de ser, de pensar e de viver!
Com meu abraço carinhoso de pai e pastor vai também os votos de felicidade, paz e bênção abundante!
+ Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Páscoa: redenção traduzida na fé e na alegria 01/04/2013
Amados filhos e filhas;
Graça e paz!

“Pois eis agora a Páscoa, nossa festa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas almas, com seu divino sangue nos salvou” (Precônio Pascal). Há poucos dias celebrávamos a solene Vigília Pascal, mãe de todas as vigílias e profissão de fé eclesial na Ressurreição do Senhor. A beleza da liturgia ainda recobre nossos olhos, fazendo ecoar aos ouvidos de noss’alma o altíssimo significado das orações e preces nela elevadas ao céu. Vivemos as alegrias da Páscoa, a festa dos cristãos motivada pelo Cordeiro imolado cujo sangue nos resgatou do pecado abrindo-nos os portões da graça abundante em Deus.

Salvos pelo Cordeiro divino que tira o pecado do mundo fomos marcados por sua infinita misericórdia. Misericórdia entendida como sinônimo de libertação. Libertação, por sua vez, indica o retorno da humanidade a Deus prefigurado na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Libertos, portanto, é-nos dado contemplar de novo a alegria proveniente do encontro com o Senhor. Encontro profundo a ponto de inquietar o coração; capaz de fazê-lo arder, como outrora ocorreu aos discípulos de Emaús (Lc 24,32).

No decurso do “Ano da Fé” a Páscoa do Senhor quer falar mais fundo ao coração dos cristãos. Deseja advertir-nos para o legítimo sentido da fé vivida na Igreja. Fé acreditada e professada que edifica esta mesma Igreja, Corpo de Cristo e casa dos crentes. Crer e professar, eis o duplo movimento situado à base do existir cristão. Crer é reconhecer a Deus em todo seu potencial salvífico-libertador atuando na história. Professar é tornar pública a Verdade acreditada. Portanto, a profissão de fé envolve a totalidade eclesial. Nela o “eu” individual filia-se ao “nós” da Igreja mistério de comunhão. A graça transformadora da Ressurreição se exprime e esclarece quando realmente há comunhão.

Regressemos àquele primeiro dia da semana, primeiro dia da nova criação: Maria Madalena vai ao túmulo, encontra o Ressuscitado, retorna aos discípulos e diz: “vi o Senhor!” (Jo 20,18). À tarde do mesmo dia o Ressuscitado aparece aos discípulos e depois estes afirmam a Tomé, ausente durante a aparição: “vimos o Senhor” (Jo 20,25).

Pois bem, o “vi” da Madalena dissolve-se no “vimos” do discipulado. Crer na Igreja e com a Igreja quebra o isolamento do individualismo, sensibiliza o coração e robustece a esperança na alegria sem fim. Isso se dá porque mediante a fé o ser humano torna-se capaz de edificar a vida eclesial sobre Cristo, pedra angular (At 4,11). Conforme recordou o Papa Francisco, dirigindo-se aos cardeais na Missa em ação de graças pelo conclave (14/03/2013): “Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor”.

As acertadas palavras do Papa nos fazem compreender a natureza essencial da Igreja enquanto comunidade dos que confessam Jesus Cristo. Nisto consiste o elo que solidifica o Povo de Deus. Povo animado e cuidado por pastores, sucessores dos apóstolos, primeiras testemunhas da Ressurreição do Senhor, primeiros cristãos a experimentarem a indizível alegria da Páscoa. Nossa exultação torna-se ainda mais enfática, pois após o grande Papa Bento XVI, Deus estabeleceu o Papa Francisco à nossa frente. As atitudes revelam o alcance de sua humanidade. Sua história de simplicidade, desapego e compromisso com os frágeis e marginalizados delineia traços muito positivos para o exercício do ministério petrino.

Primeiro Pontífice latinoamericano! O jovem continente que há 500 anos recebia a mensagem cristã dos europeus oferece ao mundo um dos seus filhos para ser guardião e pregoeiro da Verdade outrora acolhida. Deus nos surpreende a cada dia mostrando caminhos independentes e superiores aos nossos caminhos! Ainda vivendo as aleluias pascais, agradeçamos a Jesus Cristo, Pastor Supremo da Igreja, o dom da vida do Papa Francisco. Seja ele forte, fiel e acima de tudo dócil à inspiração divina. Que saibamos amá-lo, respeitá-lo e ouvi-lo como a um pai generosamente interessado pelo bem dos filhos.
Queridos irmãos e irmãs, como é bom viver na graça de Deus. É maravilhoso olhar para nossa consciência e coração, descobrindo as marcas da redenção neles gravadas para sempre. Assim a Páscoa vai produzindo efeito na criação pela via do amor triunfante sobre o pecado e a morte. Exultante no Senhor Ressuscitado vos abraço com ternura de pai e abençoo com zelo de pastor!

+ Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão
Março de 2013 28/02/2013
Queridos irmãos e irmãs,
graça e paz!

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas, celebrada no último dia 13 de fevereiro, abriu-nos novamente a reflexão quaresmal. Essencialmente, o tempo da Quaresma é caracterizado pela esperança de uma autêntica preparação rumo à Páscoa do Senhor, eixo do ano litúrgico e do mistério cristão. O caráter preparatório da espiritualidade quaresmal configura-se no insistente apelo à renovada conversão ao Senhor, à sensibilidade para com as necessidades humanas e à experiência do encontro consigo mesmo à luz de Jesus Cristo, o salvador do mundo. Assim entendida, a Quaresma atualiza e traduz a seguinte afirmação do apóstolo Paulo aos fiéis de Corinto: “Eis agora o tempo favorável por excelência. Eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,1b).

De fato, irmãos e irmãs, o “hoje” da história humana é momento favorável para o regresso a Deus mediante a transformação da vida através da “fé agindo pela caridade” (Gl 5,6). Oração, jejum e esmola são três estações pelas quais devemos passar neste caminho de regresso proposto pela mística quaresmal. Sintetizam a tríplice dimensão das relações humanas em direção a Deus, a si mesmo e ao próximo. Recordando aspectos tão importantes, a Quaresma desperta também a necessidade de abertura às urgências da sociedade no atual contexto histórico. Essa sensibilização proveniente da fé adquire feição concreta na Campanha da Fraternidade. Em 2013 a Igreja presente no Brasil lança seu olhar de cuidado e atenção sobre a juventude, parte considerável da população brasileira e notável parcela da Igreja espalhada por nosso país.

A Campanha da Fraternidade persegue o objetivo de: “Acolher os jovens no contexto de mudança de época, propiciando caminhos para seu protagonismo no seguimento de Jesus Cristo, na vivência eclesial e na construção de uma sociedade fraterna fundamentada na cultura da vida, da justiça e da paz” (Texto-Base, introdução). Diante disso, permitamos que a preparação quaresmal rumo à Páscoa do Senhor abra nosso coração à acolhida. Acolhamos os jovens com atitudes, palavras e ações que gerem neles o sentimento de pertença à comunidade. Que eles se sintam em “casa” na casa de todos que é a Igreja. Que se vejam companheiros nossos numa longa procissão iniciada no Batismo e direcionada ao encontro com Jesus Cristo, “o autor e consumador da fé” (Hb 12,2).

A Jornada Mundial da Juventude, a ser celebrada no Rio de Janeiro entre os dias 23 e 28 de julho, vem engrandecer ainda mais a iniciativa adotada pela Campanha da Fraternidade. Os jovens reunidos no Rio de Janeiro oferecerão às demais gerações cristãs um espetáculo maravilhoso de vitalidade, confirmando nossa esperança num futuro promissor para o cristianismo. A força da juventude católica fará reluzir com beleza inesquecível o propósito do Ano da Fé explicitado em duas orientações precisas: redescobrir o encanto de crer e professar a fé com entusiasmo renovado. No coração do Ano da Fé o vigor juvenil trabalhado pela graça divina há de favorecer o encontro pessoal com Jesus Cristo, abrindo perspectivas de esperança e dando à vida rumo decisivo no Mistério de Deus que nos salva em Cristo.

Como disse à numerosa multidão de jovens reunidos na catedral São José durante a Missa por ocasião da chegada da Cruz peregrina em preparação para a Jornada Mundial: “Vida eterna é salvação, ou seja, é sentir os efeitos da própria existência de Deus em nós. É caminhar segundo a Verdade, desprezando o que fragiliza a dignidade humana e obscurece a capacidade de discernir entre certo e errado. É ter coragem de ser diferente numa conjuntura social onde os valores cristãos são renegados e dissolvidos em nome da falsa liberdade de consciência e igualdade para todos. É decidir-se por edificar a existência e a personalidade segundo o jeito de ser de Jesus Cristo. Queridos jovens, eis diante de vós o caminho para a felicidade perfeita!” (Homilia, 11/02/2013).

Acreditando na salvação, nossa Diocese se prepara para a Jornada Mundial da Juventude. Prepara-se, igualmente, para fazer-se cada vez mais missionária, serviçal e sensível aos sinais dos tempos. Como vosso irmão na caminhada rumo a Deus, recordo o 19º Plano Diocesano da Ação Evangelizadora e suas três prioridades: Família, Juventude e Catequese. Sejamos atentos à situação da juventude nesses aspectos. Com efeito, são balizas favoráveis à orientação do agir eclesial diocesano no tempo presente. Lembremos também a Animação Bíblica da Pastoral. Trata-se de urgência fundamental à manutenção das comunidades cristãs na atualidade. Busquemos privilegiar a inserção da juventude nos grupos, construindo em seu coração o amor à Palavra de Deus e às coisas sagradas.

Somos integrantes da civilização do amor inaugurada por Cristo. Levemos esse amor ao coração dos jovens, a começar por aqueles que convivem conosco. Vivamos íntegra e autenticamente a fé recebida no Batismo a fim de que, por nosso exemplo, muitas pessoas redescubram a alegria de crer. Saibamos amar de verdade, pois Deus não cessa de demonstrar seu amor por nós. Olhemos para a história da Diocese de Campo Mourão e veremos sinais concretos do amor de Deus. No ano em que a juventude é tomada como centro das reflexões eclesiais no Brasil, seis jovens são ordenados padres para o serviço da Igreja em Campo Mourão. As ordenações demonstram os efeitos da graça divina agindo nos corações humanos e transformando a realidade. Sou grato a Deus pelo dom da vida sacerdotal e religiosa. Que o sacerdócio vivido desde a juventude seja testemunho eloquente a estimular diversas outras vocações ao serviço de Deus na Igreja. Por tanta beleza inaugurada pelo amor divino em nossa história e em nossos corações, repito: Bendito seja Deus para sempre!
Com a ternura de Cristo Jesus, invoco sobre vós todos a bênção de Deus Onipotente sob a intercessão de Nossa Senhora Aparecida e de São José.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

Fevereiro de 2013 31/01/2013
Caríssimos diocesanos e diocesanas, graça e paz!

Com alegria retomamos as nossas atividades pastorais neste novo ano de graça que o Bom Deus nos concede, após este período de férias e descanso.

Estamos vivendo o Ano da Fé, ano de aprofundamento dos conteúdos essenciais de nossa fé e de íntima experiência com Deus. Viveremos ainda neste ano, grandes acontecimentos, como a Jornada Mundial da Juventude, ocasião em que o Vigário de Cristo, Sua Santidade o Papa Bento XVI, visitará novamente o nosso querido país.

Quero nesta edição, em continuidade com o que venho realizando mensalmente, concluir a partilha da Carta Pastoral, abordando os dois últimos pontos: A resposta abre perspectivas – na qual são realizadas algumas considerações conclusivas e também, sugestões para a celebração do Ano da Fé na diocese de Campo Mourão. Por fim dirijo também algumas palavras ao clero de nossa diocese – palavra de ânimo e exortação aos padres e diáconos, a fim de que se empenhem com criatividade generosa na celebração deste Ano de Graça.

Ao concluirmos esta partilha, vos convoco à profunda experiência cristã neste ano privilegiado. Reconheço que na fé de cada cristão acontece o maravilhoso intercâmbio entre o céu e a terra. O homem oferece a Deus sua vontade sincera, livre e disponível. Deus concede ao homem o penhor da graça onipotente e da felicidade definitiva.

A concretização desse propósito implica decisões e atitudes que o manifestem. Por isso, o Ano da Fé será tanto mais proveitoso, se nele trabalharmos para a construção de uma Igreja diocesana imbuída das seguintes perspectivas:

1. Igreja compromissada com a fé mediante ações pastorais e sociais concretas, que venham ao encontro dos homens de hoje nos seus sofrimentos.

2. Igreja de comunhão que firma sua fé na experiência do encontro com Cristo.

3. Igreja com fé consciente e esclarecida através da catequese e da formação bíblico-teológica. Assim poderemos dar razão de nossa esperança.

4. Igreja que celebra o que realmente crê.

Peço que no decorrer do Ano da Fé se multipliquem as orações individuais e comunitárias, sejam organizadas celebrações litúrgicas e atos de piedade devocional nas paróquias, capelas e grupos. Que a figura de Maria seja contemplada com carinho e como modelo de fé. Que a catequese se empenhe na transmissão criativa e fiel da Verdade cristã católica. Intensifique-se a prática da caridade, sinal concreto de fé sincera (cf. Tg 2,14-17). Penitenciemo-nos pelas vezes que fomos negligentes ou indiferentes à missão batismal. Nesse sentido, serão de grande proveito, espiritual e pastoral, as peregrinações aos santuários diocesanos e a nossa Igreja mãe, a Catedral São José.

Ao clero de nossa diocese digo que as disposições que envolvem o Ano da Fé precisam penetrar nas fibras profundas da Igreja. Esta necessidade torna-se ainda mais grave àqueles que, revestidos pelo sacramento da Ordem, possuem o nobre dever de conduzir e conservar o rebanho no redil do Bom Pastor (cf. Jo 10,11).

O Concílio Vaticano II recordou, que “o objetivo do ministério e da vida dos padres é a promoção da glória de Deus em Cristo, a qual consiste em que os seres humanos acolham consciente e livremente, com gratidão, a obra de Deus realizada em Cristo, e a manifestem em toda a sua vida” (PO 2). É momento oportuno, para que regressando às fontes da vocação nos reencontremos com a caridade de Cristo, deixando-nos acolher por Ele que, embora sendo rico se fez pobre, a fim de nos enriquecer com sua pobreza (cf. 2Cor 8,9).

Que colhamos intensamente na celebração Eucarística os tesouros da salvação e todos os auxílios que nos são necessários à realização de nossa missão (cf. Pio XI, MN, 31). Recordemos sempre que a caridade vivida por causa de Cristo é a suprema lei dos cristãos, sendo também o critério de toda ação pastoral. Com sinceridade rogo que, através de vossa adesão e criatividade, o significado e os efeitos do Ano da Fé sejam experimentados nas paróquias desta diocese, tornando grande nossa alegria (cf. At 8,8).

“Avance para águas mais profundas...” (Lc 5,4)

Queridos diocesanos, avançar para águas mais profundas foi a ordem do Senhor Jesus a Pedro. É, igualmente, o imperativo pedagógico que nos deve impulsionar a bem viver a proposta da Igreja neste ano rico em significado e fecundidade cristã. Percorrendo a trilha da fé (cf. Rm 4,12), sob a proteção da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo e de seu castíssimo esposo São José, nos deixemos tocar de novo pela felicidade perfeita que só aquele que crê é capaz de experimentar e compreender (cf. Lc 1,45-55).

Que Deus vos abençoe e confirme vossa vocação cristã neste tempo de Graça!
Dezembro de 2012 29/11/2012
Caros Filhos e Filhas, graça e paz!

Em nossa partilha mensal sobre a carta pastoral, no mês passado vimos que o Dom se converte em encontro. Neste mês, dando sequência a este pensamento, veremos que: O encontro se faz resposta - ênfase no dever do cristão em responder a Deus que se revela.

Vivida em sua originalidade no seio da Igreja, a fé, fruto do encontro com Cristo, torna-se robusta, a ponto de conduzir o crente a responder, fiel e sinceramente, aos apelos do seu Senhor. Essa resposta torna-se conhecida sob a forma de confissão, pois não basta crer, mas é necessário colocarmo-nos pública e decididamente entre as fileiras dos seguidores de Jesus Cristo. Aliás, quem realmente fez a experiência do encontro com o Ressuscitado, não se compraz no intimismo da espiritualidade individual. Ao contrário, sente a necessidade de dedicar-se efetivamente ao serviço missionário. Descobre que Cristo não é patrimônio exclusivo da sua experiência religiosa. Cristo é a Salvação que deve ser levada a todas as pessoas, a fim de que também elas, abrindo o coração ao Evangelho (cf. At 16,14), creiam e tenham a vida eterna.
A resposta, que nos é pedida neste tempo de graça, possui feições bem concretas. Formamos a família de Deus na Diocese de Campo Mourão. Portanto, cabe a nós, nos anseios do tempo presente, responder com fervor e determinação aos apelos de Cristo, dando à fé a força necessária para transformar a realidade diocesana. Convencido disso, desejo apontar quatro princípios fundamentais para que seja fecunda nossa resposta e vivência do Ano da Fé:

Animação bíblica da Pastoral
A Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura é fonte da vida cristã. Nela tudo se refere a Cristo e dele depende. Esta centralidade cristológica, identificada na Palavra de Deus, conduziu a Igreja a indicá-la como meio privilegiado à animação da Pastoral comunitária.

São admiráveis os esforços em prol do estudo, oração e divulgação da Sagrada Escritura, no entanto, é necessário reconhecer também que ainda não atingimos o ideal: fazer dela o ambiente vital das atividades pastorais, revestindo-as com seu conteúdo e espiritualidade.

A Igreja e nós, cristãos, nunca seremos excessivos ao dar atenção à Sagrada Escritura, pois, “quanto mais assíduos formos na leitura da Palavra de Deus, tanto melhor a compreenderemos, à semelhança da terra: quanto melhor é cultivada, tanto mais frutifica” (Santo Isidoro de Sevilha, Sentenças, 3,10). Esse é o compromisso a ser abraçado por todos, para que nossa diocese, ouvindo a Palavra, creia; acreditando, espere e, esperando, ame (cf. S. Agostinho, Sobre a catequese dos não instruídos, 4,8).
Catecismo da Igreja Católica

Paralelo ao cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, celebramos neste ano o 20º aniversário da promulgação do Catecismo da Igreja Católica. Ao publicar o Documento, o Beato João Paulo II o definiu como “uma exposição da fé da Igreja e da doutrina católica, testemunhadas ou iluminadas pela Sagrada Escritura, pela Tradição apostólica e pelo Magistério da Igreja.” Vejo-o como um instrumento válido e legítimo a serviço da comunhão eclesial e como uma norma segura para o ensino da fé. Rogo que este importante Documento seja difundido entre os diocesanos. Suas páginas sejam revisitadas pelo clero, estudadas na catequese, pelos agentes de pastorais e movimentos, enfim, que junto à Sagrada Escritura, o Catecismo se faça presente nos lares cristãos.

19º Plano Diocesano da Ação Evangelizadora
A coesão promovida pelo avanço no conhecimento de Jesus Cristo é condição indispensável à efetiva integração na caminhada diocesana. Sendo assim, em íntima relação com o esforço por aprofundamento na fé, mediante o estudo, reflexão e oração da Bíblia Sagrada e do Catecismo da Igreja Católica, situa-se a preocupação, a fim de que todos, familiarizados com o conteúdo do 19º Plano da Ação Evangelizadora, se empenhem na execução de suas propostas pastorais, segundo as três prioridades, estabelecidas após longo e participativo processo de elaboração, a saber: família, catequese e juventude.
Ao apresentar o 19º Plano, afirmei que ele “é uma ferramenta que temos em mãos e que necessita da criatividade, da fé e da generosidade de todos para ser executado e, assim, produzir frutos ‘e frutos que permaneçam’” (Jo 15,16).

Observar os sinais dos tempos
Sobre a importância da valorização e do conhecimento do contexto no qual estamos inseridos, o Concílio Vaticano II instrui, afirmando que, “a Igreja deve em todas as épocas perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, para ser capaz de oferecer, de forma apropriada ao modo de ser de cada geração, respostas às grandes questões humanas a respeito do sentido da vida presente e futura.

Faz-se necessário reconhecer que, “tempos de transformações tão radicais, por certo, nos afligem, mas também nos desafiam a discernir, na força do Espírito Santo, os sinais dos tempos” (DGAE, 24). Diante disso, é notável que, esforçando-nos na concretização da proposta pastoral nesta Diocese, estamos dando provas de que realmente sabemos interpretar os “sinais dos tempos”. A esperança declara que é agora o momento do testemunho e da missão! É no hoje do Ano da Fé, prolongado na totalidade da vida, que devemos dar ao Senhor nossa resposta de amor e fidelidade!

Queridos filhos, que nossa resposta de fé seja autêntica e que nos empenhemos com fidelidade e compromisso a trilhar o caminho que nos é proposto neste Ano da Fé. Que o Natal do Senhor Jesus que se aproxima, possa revigorar os nossos corações e a nossa fé, para que no ano vindouro o nosso testemunho seja ainda mais contagiante. Recebam o meu abraço paternal e a bênção do Deus Todo Poderoso.

FELIZ NATAL E ABENÇOADO ANO 2013 A TODOS!
Novembro de 2012 31/10/2012
“Se alguém tem sede, venha a mim e beberá, aquele que crê em mim!” (Jo 7, 37b - 38).

Caríssimos diocesanos e diocesanas, graça e paz!
Retomamos nossa partilha amiga sobre a Carta Pastoral, e neste mês abordamos o tema: O Dom se converte em encontro – o desejo de Deus em sair de si mesmo e revelar-se gera unidade (encontro), vencendo o intimismo egoísta. Da relação entre Deus e o Ser Humano brota a unidade dos homens entre si, na Igreja.

Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, dessa forma, rumo decisivo (Bento XVI, Deus caritas est, 1).

A existência humana é relacional, de forma que ninguém existe para a solidão. Nesse sentido, a observação do Santo Padre acima mencionada é significativa e programática. Significativa, porque chama a atenção para a originalidade da fé que professamos. Programática, pois assegura que o sincero relacionamento com a pessoa de Jesus inaugura perspectivas de esperança na vida do cristão. Portanto, é na dinâmica do “encontro”, que o ser humano torna-se consciente do dom da fé, que em si mesmo, é expressão da benevolência de Deus que o chama àquela amizade, consolidada por vínculo tão estreito e forte, que nada é capaz de romper.
Ciente desta grande e confortadora verdade, o Concílio Vaticano II afirma que, “Deus, invisível (Cl 1,15; 1Tm 1,7), revela-se por causa do seu muito amor, falando aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14s) e conversando com eles (cf. Br 3,38), para convidá-los a estarem com ele no seu convívio” (DV, 2). O Dom da fé, reconhecido e vivido íntegra e generosamente, gera encontro, pois aproxima aquele que crê do Deus Altíssimo que se deixa conhecer. Em contrapartida, precisamos reconhecer nesse encontro, uma feliz consequência do próprio convite divino. “Vinde e vede” (Jo 1,39), foi o chamamento de Jesus aos dois discípulos de João Batista. “Encontramos o Messias” (Jo 1,41), eis a conclusão dos discípulos, após atender ao chamado do Divino Mestre.

Até agora percebemos que, na misericórdia divina, o Dom da fé se faz encontro, e que esse encontro adquire maturidade quando assumido e vivenciado no seio da Igreja. Sendo assim, somos confrontados com outra dimensão importante: a unidade na fé. Essa característica fundamental da comunidade cristã pressupõe sintonia no conteúdo a ser acreditado. O cristão consciente sabe que na Igreja, cada batizado é herdeiro da Verdade, cujo princípio e fonte é Jesus Cristo. Por isso, dele se exige a obediência da fé (cf. At 6,7), a fim de que, a concórdia entre os membros da Igreja, seja reflexo vívido da unidade de sua profissão de fé.

A preocupação com a unidade da profissão de fé no seio da comunidade eclesial esteve presente desde os primórdios do cristianismo, e continua a ocupar espaço privilegiado no coração dos Pastores. Nos primeiros séculos da nossa história, os que haveriam de receber o sacramento do Batismo deveriam decorar as palavras do Credo. O seguinte trecho de uma homilia de santo Agostinho nos ajuda a entender mais profundamente o zelo da Igreja: “o Símbolo (Credo) do santo mistério, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe, apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós o recebestes e proferistes, mas deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele” (Sermão 215,1).
As insistentes palavras de Agostinho projetam luz sobre a grande tarefa dos batizados: manter viva e professar sinceramente a fé recebida da Igreja. Diante disso, impõe-se a necessidade de reconhecer as dificuldades e desafios do tempo presente. Quando olhamos para a atual conjuntura mundial, nos apercebemos imersos em ideologias que negam a Deus e os valores cristãos. Os efeitos dessa situação são sentidos, sob variadas formas, nos diferentes grupos humanos, particularmente na instituição familiar. O obscurecimento da fé conflui na desarticulação desse encontro que, estabelecido com Deus, é fonte inesgotável de comunhão entre os membros da comunidade eclesial. Por isso, o objetivo a ser perseguido nesse Ano da Fé é responder, individual e comunitariamente ao convite sempre novo de Jesus: “Vinde e vede!” (Jo 1,39). Consequentemente, a fé, Dom que se faz encontro, pede a resposta do cristão!

Caros filhos e filhas que o nosso modo de ser cristão possa gerar cada vez mais comunhão em nossas comunidades e irradiar o verdadeiro testemunho daqueles que se encontraram verdadeiramente com o Senhor Jesus! Deixo a todos um abraço carinhoso e a bênção do Deus Misericordioso, Pai, Filho e Espírito Santo!

Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo diocesano de Campo Mourão
Outubro de 2012 30/09/2012
Estimados diocesanos e diocesanas, graça e paz!

“Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade” (1Cor 13,13)
Seguindo nossa partilha mensal sobre a Carta Pastoral, nesta ocasião abordaremos o tema: No dom da Fé, Deus decide dirigir-se ao Ser Humano, que trata da fé apresentada como Dom divino dirigido ao Ser Humano, cuja plenitude está no Mistério de Cristo.

“O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até o mais íntimo dela mesma” (Bento XVI, Porta Fidei, 10).

Com esta afirmação singela, mas rica em significado, Bento XVI resume a experiência que está na origem da vida cristã de cada ser humano. É necessário reter primeiramente que o impulso a crer é iniciativa divina. Deus, em sua plena e infinita bondade, atrai a humanidade numa relação de entrega total. Em At 16,14, lemos que o Senhor abrira o coração de Lídia, para que compreendesse o significado da mensagem anunciada por Paulo. Abrir o coração é condição indispensável à posse deste dom imenso que Deus nos oferece. O salmista já declarava feliz o homem cuja força está em Deus, e que guarda no coração os seus caminhos (cf. Sl 84,6).

Disso aprendemos que, mediante a fé, o próprio Deus vivo e onipotente se dirige ao Ser Humano, com a intenção de estabelecer comunhão de vida com ele. Trata-se do desejo divino em dar-se a conhecer (cf. Mt 11,25; Lc 10,22) e da possibilidade humana de acolher consigo seu projeto. Atingimos um aspecto importante: a fé é ato humano. Quem crê é o homem, situado no tempo e na história. As civilizações pré-cristãs não ignoraram essa realidade, de forma que também se deixaram surpreender pelo “divino” e seu mistério, ainda que de forma imperfeita.

Nesta busca, particular atenção merece o Antigo Testamento e a experiência de fé do povo ali registrada. Percorrendo suas páginas, identificamos que a gradual revelação de Deus influi diretamente sobre a vida da comunidade e, nela, na vida do indivíduo. Deus se apresenta diante do homem, convidando-o a estabelecer Aliança (cf. Gn 9,11; 17,4; Ex 34,10) sobre o fundamento da fé. Para o Antigo Testamento, Abraão é conhecido como o “Pai na fé”. Isso é significativo e instrutivo, pois por meio da fé sincera e exemplar, Deus o constituiu bênção para os filhos da Aliança e para todos os povos (cf. Gn 12,1-4).
De maneira simples e humilde aprendemos que é o “Deus de ternura e piedade... rico em graça e em fidelidade” (Ex 34,6), aquele que configura as relações, constitui e conserva o povo. Segundo a Carta aos Hebreus, só a fé dos antepassados pode explicar seu admirável testemunho. Entretanto, é importante destacar que esta mesma Carta prossegue mostrando a elevadíssima condição dos cristãos em relação aos antepassados: “Corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com olhos fixos naquele que é o iniciador e o consumador da fé, Jesus” (Hb 12,2).

Em Jesus Cristo, Filho de Deus, chegamos à plenitude da Revelação do Pai (cf. Hb 1,1). Nele, a fé, como ato humano, atinge sua estatura perfeita, pois é lapidada pela Graça divina que a introduz na verdadeira Sabedoria (cf. 1Cor 1,24.30). Em Cristo, o dom da fé adquire a forma mais excelente, pois se torna apto a atingir e compreender a verdade que liberta (cf. Jo 8,32). Por isso, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2011-2015), partem da certeza de que “toda ação eclesial brota de Jesus Cristo e se volta para Ele e para o Reino do Pai. Jesus Cristo é nossa razão de ser, origem de nosso agir, motivo de nosso pensar e sentir. Nele, com Ele e a partir d’Ele mergulhamos no mistério trinitário, construindo nossa vida pessoal e comunitária” (4). Com efeito, acerca desta centralidade cristológica, já Santo Tomás de Aquino reconhecera que, “a primeira coisa necessária a um cristão é a fé, sem a qual ninguém pode ser chamado cristão” (Sobre o Credo, 1).

O Catecismo da Igreja Católica, por sua vez, afirma que, “por uma decisão totalmente livre, Deus se revela e se doa ao homem. Fá-lo revelando seu mistério, seu projeto benevolente, que concebeu desde toda a eternidade em Cristo em prol de todos os homens” (50). No Livro da Sabedoria lemos: “a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu autor” (13,5). A Igreja professa que Deus pode ser conhecido mediante a razão natural, por meio das criaturas (cf. CIgC 50). Contudo, o conhecimento puramente racional que podemos obter acerca do divino é insuficiente.

A insuficiência desse tipo de conhecimento deve-se a sua incapacidade de efetivar aquela aproximação afetuosa e sincera, que gera esperança, inflama a caridade e promove vida nova. Eventualmente alguém pode “saber” que Deus existe, mas por fechar-se à luz que só a Graça pode projetar sobre a razão, rejeita o diálogo com Ele, o “Senhor, amigo da vida” (Sb 11,26). Sob esta perspectiva, este ano especial tem a missão de nos introduzir na redescoberta da fé como Dom oferecido ao ser humano. É tempo oportuno, a fim de que, no seio da Igreja, reconheçamos e proclamemos de novo que, Cristo “é a boca sem mentira, pela qual o Pai falou verdadeiramente” (Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, 8,2).

Durante este luminoso Ano, sejamos dóceis ao que o Espírito diz à Igreja (cf. Ap 2,29; 3,6; 13,22), por meio “do convite permanente, para se pôr a caminho ao encontro d’Aquele que não teríamos procurado se Ele não tivesse já vindo ao nosso encontro” (Santo Agostinho, Confissões, 13,1). Confiemos que Cristo veio até nós para que pudéssemos ir a ele e lá permanecer como “Homens de fé” (Hb 10,39). Sem sombra de dúvida, esta é a realidade admirável que a fé nos concede, segundo Santo Agostinho: “Aquele que subiu acima de todos os céus, está próximo dos que vivem na terra. Quem está tão longe e perto ao mesmo tempo, senão aquele que por misericórdia se tornou tão próximo de nós?” (Sermão 171,1-3.5). Caríssimos irmãos e irmãs, na misericórdia divina pela humanidade, o Dom da fé se converte em encontro entre Deus e o Homem.

No mês de outubro a Igreja nos oferece a oportunidade para renovar nossa consciência e participação na obra missionária. Aproveitemos os momentos de encontros que acontecerão em nossas comunidades, para que através de nossa oração, sacrifício e cooperação, cresça em nós cada vez mais o amor pela causa missionária. Deus abençoe a todos, um Paternal e carinhoso abraço!

Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo da diocese de Campo Mourão
Setembro de 2012 01/09/2012
Queridos e amados diocesanos e diocesanas!
A paz e o amor de Deus estejam com cada um de vocês!
“Tua Palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119, 105).
Dando continuidade à nossa partilha amiga e fraterna sobre o conteúdo da Carta Pastoral, nesta oportunidade apresento o segundo ponto desta reflexão: NAS PEGADAS DO JUBILEU DIOCESANO, que faz memória da experiência feliz vivida pela Diocese de Campo Mourão por ocasião do seu Jubileu de Ouro (2009-2010). O Ano da Fé vem confirmar as propostas e perspectivas legadas pelas celebrações e iniciativas jubilares.
No dia 21 de abril de 2010, a Igreja diocesana de Campo Mourão encerrava seu Jubileu de Ouro. Aquela admirável celebração de ação de graças retorna à nossa memória como manifestação concreta da unidade desta cinquentenária diocese. Assim como a nação brasileira, também ela nasceu à sombra pioneira da Cruz do Senhor. Plantando-se, neste solo, a Santa Cruz, qual árvore da vida, nele haveria de permanecer imóvel em meio às tempestades e ventos impetuosos das adversidades e, ao abrigo de seus braços, guardar os cristãos que nesta terra peregrinam rumo à felicidade perpétua. Na ocasião, o bispo diocesano, juntamente com outros bispos do episcopado paranaense, o clero e fiéis de todas as paróquias elevaram a Deus, numa só voz, o seu hino de gratidão e reconhecimento pelas grandes coisas que fizera (cf. Lc 1,49) em favor desta Igreja particular ao longo dos seus cinquenta anos.
Durante o ano jubilar (2009-2010), fomos encorajados a reavivar nossa identidade cristã nesta Diocese, devolvendo-a seu fulgor original. Nesse intuito, realizaram-se diversas atividades litúrgicas e pastorais, entre as quais se destaca o valoroso trabalho missionário desenvolvido por agentes leigos nas mais diversas paróquias e comunidades. Junto aos padres puderam continuar lançando nos corações a semente do Evangelho, certos de que é Deus a fonte de toda vida e crescimento (cf. 1Cor 3,6).
O Jubileu de Ouro foi momento de preparação, missão e celebração. A vivência eclesial destas dimensões legou-nos uma herança de valor inestimável: o 19º Plano da Ação Evangelizadora (2011-2014). Fruto de longo e atento processo participativo, este documento anseia ser mais que conjunto de prioridades e metas de ação. Ele traz em suas páginas o perfil realista e atualizado do contexto que envolve nossa Igreja diocesana. Crendo na assistência de Deus, que conhece o coração de todos (cf. At 1,24), contemplamos no 19º Plano da Ação Evangelizadora a fecundidade da benevolente sabedoria divina que se derrama sobre as necessidades e urgências da prática pastoral. O empenho por convertê-lo em realidade há de edificar, para o futuro da Diocese de Campo Mourão, monumento mais perene que o bronze, assegurando aos cristãos do amanhã uma história de dedicação e amor pela construção do Reino de Deus.
Por tudo isso, acredito que o Ano da Fé vem para confirmar os propósitos jubilares, abrindo-nos com vigor ainda mais intenso os portões deste novo tempo. Há pouco era-nos dito o lema do jubileu diocesano: “50 anos de Fé sob a proteção de São José”. Agora, somos convocados a refletir e a redescobrir essa mesma fé, a fim de experimentarmos novamente a alegria que provém do encontro com o Cristo ressuscitado (cf. Lc 24,41).
Caros diocesanos, neste mês da Bíblia nosso alimento seja o Pão da Palavra que, partilhada na família e comunidade, irá fortalecer nossa fé e renovar nosso compromisso com o Reino.
No próximo mês publicaremos a terceira parte da Carta, cujo tema é: “No dom da Fé, Deus decide dirigir-se ao Ser Humano”. Sob a intercessão da Santa Virgem Maria e de São Jerônimo, suplico de coração a bênção de Deus sobre todos vós!
Um abraço carinhoso, fraterno e amigo!


Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo Diocesano de Campo Mourão
Agosto de 2012 31/07/2012
Queridos e amados diocesanos e diocesanas!

A paz e o amor de Deus estejam com cada um de vocês!

Em meu artigo anterior, publicado na edição de julho do Jornal Servindo, refletia sobre o “Ano da Fé”, convidando a todos para participar dos eventos que nossa Igreja diocesana irá programar. Seguindo essa mesma intenção, no dia 1º de julho, durante celebração eucarística na Catedral São José, foi lançada a Carta Pastoral “Caritas Dei”, sobre o “Ano da Fé”. Agora, gostaria de partilhar com cada um de vocês, com muito carinho e simplicidade, o conteúdo desta Carta, a começar pela primeira parte. Ela está dividida da seguinte forma:

1. O Ano da Fé – considerações introdutórias, nas quais, são apontadas as razões e os objetivos que motivam a celebração do Ano da Fé e a presente Carta Pastoral.
2. Nas pegadas do Jubileu Diocesano – recordação da experiência feliz vivida pela Diocese de Campo Mourão por ocasião do seu Jubileu de Ouro (2009-2010). O Ano da Fé vem confirmar as propostas e perspectivas legadas pelas celebrações e iniciativas jubilares.
3. No dom da Fé, Deus decide dirigir-se ao Ser Humano – fé apresentada como Dom divino dirigido ao Ser Humano, cuja plenitude está no Mistério de Cristo.
4. O Dom se converte em encontro – o desejo de Deus em sair de si mesmo e revelar-se gera unidade (encontro), vencendo o intimismo egoísta. Da relação entre Deus e o Ser Humano brota a unidade dos homens entre si, na Igreja.
5. O encontro se faz resposta – ênfase no dever do cristão em responder a Deus que se revela. São ressaltadas ações concretas e quatro princípios-chave a ser considerados pela Diocese durante o Ano da Fé:
5.1 Animação bíblica da pastoral.
5.2 Catecismo da Igreja Católica.
5.3 19º Plano Diocesano da Ação Evangelizadora.
5.4 Observar os sinais dos tempos.
6. A resposta abre perspectivas – considerações conclusivas e algumas sugestões para a celebração do Ano da Fé na Diocese de Campo Mourão.
7. Ao clero – palavra de ânimo e exortação aos padres e diáconos, a fim de que se empenhem com criatividade generosa na celebração deste Ano de Graça.

1. O Ano da Fé
“O amor de Deus” (Rm 5,5) é que nos abre a porta da fé (At 14,27) e renova nossa mentalidade, a fim de que possamos discernir o que é bom, agradável e perfeito (cf. Rm 12,2). Nesta certeza, acolhendo o pedido do Santo Padre Bento XVI em seu desejo de celebrar um Ano da Fé, dirijo-me a vós, irmãos e irmãs, Igreja peregrina na Diocese de Campo Mourão.
O Ano da Fé estender-se-á de 11 de outubro, de 2012, até 24 de novembro de 2013, solenidade de Jesus Cristo, rei do universo. Por isso, em comunhão com o Vigário de Cristo, e seguindo suas sábias indicações, queremos “redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (PF, 2). Com efeito, na Carta Apostólica Porta Fidei, mediante a qual se proclama o Ano da Fé, Bento XVI empregou por seis vezes os verbos descobrir/redescobrir referindo-se à postura que os cristãos do nosso tempo são convocados a assumir diante de sua fé.
O Ano da Fé é, igualmente, um ano comemorativo. No dia 11 de outubro, celebramos respectivamente o 50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, pelo Beato João XXIII, bem como o 20º aniversário da promulgação do Catecismo da Igreja Católica, sob o pontificado do Beato João Paulo II. É necessário considerar que, são dois acontecimentos intimamente relacionados, e de importância fundamental para a caminhada da Igreja, ciente da complexidade do tempo presente e atenta aos desafios que o porvir a prepara. Diante disso, estou convencido que adentramos num tempo de graça que abre perspectivas de esperança e confirma nossa vocação cristã.
A presente Carta Pastoral quer ser oportunidade de partilha e enriquecimento. Partilha, porque seu conteúdo manifesta os sentimentos mais profundos, sobre os quais se erguem minha fé e nela, o ministério episcopal que por graça de Deus fui chamado a desempenhar. Enriquecimento, pois é ocasião para recordar, esclarecer e exortar acerca de dimensões importantes, ao reto e frutuoso desenvolvimento de nossa caminhada eclesial diocesana. Desde tempos muito antigos os bispos costumaram endereçar cartas a suas comunidades. A origem desta prática se encontra na própria ação dos Apóstolos, cujas epístolas integram o cânon do Novo Testamento. O bispo, sucessor dos Apóstolos junto a sua Diocese, escreve na qualidade de Pastor, exercendo a missão de primeiro catequista e transmissor da fé cristã. Daí a denominação “Carta Pastoral”.
Além disso, a Congregação para a Doutrina da Fé, nas Orientações pastorais para o Ano da Fé, sugeriu que cada bispo redigisse uma carta pastoral sobre o tema, destinando-a aos diocesanos. Repetindo essa antiga e venerável pedagogia cristã, em comunhão com a Igreja presente no mundo inteiro e seguindo fielmente a paterna proposta do Bispo de Roma, convido a todos, para que descubramos o encanto e experiência originais que envolvem o ser humano no encontro com Jesus Cristo. Com a “ternura de Cristo Jesus” (Fl 1,8), exorto, para que acolhamos o dom da fé, o experimentemos no encontro com o “Príncipe da vida” (At 3,15) e respondamos a seus apelos com coração sincero, “na pureza e na verdade” (1Cor 15,8). Impulsionado por este sentimento, desejo refletir convosco algumas idéias e indicações que serão úteis na vivência deste tempo de graça.
Nas próximas edições seguiremos publicando as demais partes da Carta, a fim de que, conhecendo seu conteúdo, possamos nos preparar bem para a celebração de tão importante acontecimento. Pedindo a Deus e a Nossa Senhora sua constante proteção, abençoo-vos com amor paternal e amigo.


Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo da diocese de Campo Mourão
O Ano da Fé 11/07/2012
Queridos diocesanos e diocesanas, nesta oportunidade gostaria de partilhar com vocês o convite do Papa Bento XVI para a celebração do Ano da Fé.
No dia 11 de outubro de 2011 o Santo Padre escreveu a Carta Apostólica sob forma de Motu Próprio Porta Fidei “A Porta da Fé”, com a qual proclama o Ano da Fé. Ano que terá início no dia 11 de outubro de 2012, data que marca o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II e os vinte anos de publicação do Catecismo da Igreja Católica, O encerramento será no dia 24 de novembro de 2013, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo.
Nesta carta o Papa afirma que a Porta da Fé, que nos leva a uma vida de comunhão com Deus e nos permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. Entra-se por esta porta à medida que se responde à Palavra anunciada e se permite plasmar o coração pela graça que transforma. Atravessar esta porta significa percorrer um caminho que dura uma vida inteira. Caminho que possui seu início no dia do Batismo e se conclui com a passagem através da morte para a vida eterna.
Destaca ainda, o Romano Pontífice, que desde o início de seu Ministério Petrino recordou a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar sempre mais a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Bento XVI enfatiza também que, os cristãos muitas vezes correm o risco de se preocupar mais com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria a fé e que esta é muitas vezes considerada como um pressuposto óbvio da vida diária de todo o cristão, mas que na realidade não é bem assim. Afirma que este pressuposto não só deixou de existir, mas, que frequentemente é até negado, devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas em grandes setores da sociedade.
O Santo Padre faz vibrar seu coração ao afirmar que não podemos mais aceitar que o sal se torne insípido e que a luz fique escondida (cf. MT 5,13-16) e nos convida a readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos.
Este Ano tem como objetivo levar toda a Igreja Universal a um tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Busca-se também ressaltar e valorizar ainda mais os textos do Concílio Vaticano II “que não perdem o seu valor nem a sua beleza”. O Vaticano II, na verdade, é uma grande graça que beneficiou a Igreja no século XX e no qual se encontra uma Bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa. No entanto, ressalta com veemência o Vigário de Cristo, é preciso que os textos conciliares sejam lidos e recebidos pautados em uma justa hermenêutica que os torne cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja.
O Ano da Fé será também convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. Deverá se intensificar a celebração da fé na liturgia, pois a profissão de fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. Pede-se ainda que se realize um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé. Para tal redescoberta o Santo Padre indica o Catecismo da Igreja Católica, verdadeiro instrumento de apoio da fé, o qual apresenta não uma simples teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja.
O Ano da Fé será também uma ocasião para se intensificar o testemunho da caridade. Visto que a fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Por fim, clama o Romano Pontífice, repetindo as palavras de Paulo a Timóteo “Procure a fé” (cf. 2Tm 2,22; 3,15) e dirige o apelo a todos os Católicos, “para que ninguém se torne indolente na fé”. Pois, esta é companheira de vida, que permite perceber com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós.
Caros diocesanos, estas são, em síntese, as palavras do Santo Padre ao convocar toda a Igreja para este tempo especial de graça e crescimento na fé. Convido a cada um de vocês a respondermos generosamente a este apelo que ele nos faz de professar, conhecer e testemunhar a nossa fé, a fim de que brilhe mais intensamente e possa iluminar nosso caminho, nossas famílias, nossos jovens e a nossa catequese como proposto pelo nosso 19º Plano de Ação Evangelizadora. Preparemo-nos para viver com entusiasmo este Ano da Fé, acompanhando os eventos que serão programados no decorrer deste período em nossa diocese. Um abraço fraterno e carinho a todos, juntamente com as bênçãos do Pai, do Filho e do Espírito Santo.


Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo diocesano de Campo Mourão
Estimado Povo de Deus: padres, diáconos e leigos desta nossa querida diocese de Campo Mourão 29/06/2012
“Segui ao Bispo, vós todos, como Jesus Cristo ao Pai. Segui ao presbítero como os Apóstolos. Respeitai os diáconos como ao preceito de Deus. Ninguém ouse fazer sem o Bispo coisa alguma concernente à Igreja. Como válida só se tenha a Eucaristia celebrada sob a presidência do bispo ou de um delegado seu. A comunidade se reúne onde estiver o Bispo e onde está Jesus Cristo está a Igreja católica”. (Santo Inácio de Antioquia – † 110 d.C)

É com grande alegria e carinho que, como pastor deste rebanho do Senhor, venho por meio desta para anunciar nosso projeto para esta Igreja Particular e, bem como de contextualizar o que temos feito desde a minha eleição, ordenação e posse como bispo diocesano até hoje.

Ao ser empossado como 4º bispo diocesana, o primeiro ano de atuação foi marcado pelo nosso Jubileu de Ouro, onde tivemos momentos de comunhão eclesial, de celebrações, de missões e de integração entre paróquias, movimentos, pastorais e serviços de nossa Diocese: um ano de muitas alegrias. O fruto desse momento inicial foi o de conhecer a realidade de nossa igreja local, fruto este que nos engrenou no segundo ano de nosso pastoreio que culminou na elaboração do 19º Plano de Evangelizadora, contemplando intimamente a vida do nosso povo.

A missão continua: desejo estar presente em todas as paróquias de nossa Diocese através da Visita Pastoral que deverá ser realizada por mim neste terceiro ano de episcopado. Aqui está o objetivo e a novidade deste escrito: a Visita Pastoral.

A Visita Pastoral constitui-se em momento privilegiado de contato do bispo com o povo santo de Deus, confiado aos seus cuidados de pastor, com a preciosa colaboração do seu presbitério. Deve ser momento forte de comunhão

eclesial, evangelização e animação missionária. Os objetivos da Visita Pastoral podem ser assim definidos:

Reavivar a comunhão eclesial, o compromisso missionário e a co-responsabilidade pastoral em nossa Igreja particular;
Avaliar a caminhada à luz das orientações, diretrizes, prioridades e projetos pastorais de nossa Diocese;
Estimular os presbíteros, diáconos e religiosos (as), bem como os cristãos leigos e leigas a assumir a “pastoral de conjunto”, em clima de verdadeira comunhão e participação;
Fomentar diálogo com lideranças, organizações e movimentos da sociedade civil.
Para que a Visita Pastoral produza os frutos desejados, é preciso que ela seja bem preparada, com a devida antecedência. Pode haver um tríduo que ajude os fiéis a compreender o significado da Igreja Particular, o ministério do Bispo e o sentido da comunhão, missão e participação na Igreja.

A Visita Pastoral é um momento propício de encontro e convivência entre o Bispo com o Pároco e todo o povo Santo de Deus.

A todos o meu abraço fraterno e a bênção de Deus!

Maio de 2012

Dom Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo da Diocese de Campo Mourão
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